“Novo médio”, nova exclusão

Há algum tempo fala-se de novas formas de exclusão escolar postas em ação no interior da escola. O debate veio à tona com a implantação dos “ciclos de aprendizagem” nos anos 90 e com a eliminação da reprovação. Os alunos não eram mais eliminados fisicamente do interior da escola, mas progrediam por caminhos diferenciados, marcados pelo nível socioeconômico, na ausência de condições de trabalho para o professor atuar.

A questão volta a aparecer agora com a reforma do ensino médio imposta pelo governo. É da lógica da reforma empresarial vender a ilusão de que a pobreza pode ser corrigida pela escola, se houver esforço, repassando dessa forma a responsabilidade para os estudantes e seus professores. O que pode ocorrer ocasionalmente, é vendido como se fosse opção de massa. Para tal, criam um cerco através de bases nacionais curriculares e testes de proficiência.

Os ideais de equidade proclamados pelas reformas em curso ocultam que a pobreza é apenas um sintoma de um sistema econômico doente e desigual. Portanto, a pobreza é produzida – não importa o que façam a escola e outras instituições – em regime de fluxo contínuo. De fato, é princípio e meio de funcionamento do atual sistema econômico. Combater a pobreza através da escola é um paliativo igual ao se combater a febre. A questão, como sabemos, é a infecção e não a febre.

Como dizíamos, as reformas – por razões ligadas à complexidade do próprio processo produtivo e do próprio consumo – têm procurado “guardar” todos os estudantes dentro das escolas, mas criando trilhas de progressão que os levam a diferentes caminhos. Os defensores do novo médio tentam passar a ideia de que a “flexibilidade” atende aos anseios da juventude e dará mais motivação para o estudo evitando a evasão. Um exame mais atento, perceberá que se trata de movimento adaptativo imposto à Educação para tentar resolver o problema da requalificação do exército de reserva de desempregados, exigido pela chamada revolução 4.0. Neste processo de readaptação, a evasão física de estudantes é substituída por outra forma de exclusão baseada na criação de itinerários no ensino médio: uma exclusão sob medida.

O novo ensino médio é um passo decisivo na direção da implantação de uma nova forma de exclusão por dentro do próprio sistema educacional: os itinerários diferenciados cumprirão este papel de separar “o joio do trigo”. A exclusão por dentro é um “adiamento da eliminação” que ocorria nas formas anteriores de exclusão. Elas agora serão atualizadas para as novas funcionalidades do sistema social através de áreas de formação que antecipam, em alguns casos, a profissionalização.

Estudantes que sairiam do ensino médio ao longo dele, agora podem continuar até o fim, desde que escolham algo condizente com suas possibilidades e expectativas sociais. Ao invés de “aumentar a régua” como dizem nossas autoridades, vão “diversificar a régua” adequando-a segundo a destinação social do jovem. Com isso, perpetuarão a desigualdade acadêmica que é necessária para alimentar a infecção que é produzida pela desigualdade do sistema econômico, cujo sintoma é a pobreza. Um círculo vicioso que alimenta a geração de riquezas para alguns.

A educação básica (fundamental e média) deveria ser destinada a formação geral e não poderia ser local de antecipação de formação técnica e profissional específicas. Há formas de se preparar para o trabalho sem que se especialize os jovens prematuramente. No entanto, não é esta a opção do “novo ensino médio” implantado pelo MEC.

A ideia de que o estudante agora escolhe o que quer em pleno ensino médio, agrada estudantes e pais, a título de que haveria, então, mais individualização e motivação para cursar o ensino médio. Os mais pobres, premidos pelas condições de renda, vêm nisso uma possibilidade de ajudar o faturamento em casa – abrindo mão de sua formação geral.

Supondo que houvesse de fato esta possibilidade de escolha de itinerários nas escolas do ensino médio, o que isso oculta é que as escolhas que os estudantes fazem estão alinhadas com suas expectativas de vida e estas remetem ao nível sócio-econômico e a uma construção pessoal feita desde os primeiros anos de vida familiar e escolar. Alguém dirá que essa visão condena o estudante a um círculo vicioso e que é negativista. É isso mesmo. Por isso somos contra o novo ensino médio.

Durante 25 anos os autores de um estudo americano acompanharam o progresso de vida de um grupo de cerca de 800 crianças de baixa renda predominantemente escolares de Baltimore, através do Beginning School Study Youth Panel (BSSYP).

O estudo traça relações entre comunidades, nível socioeconômico e a contribuição das escolas e chama-se “The Long Shadow: antecedentes familiares, jovens urbanos desfavorecidos e a transição para a idade adulta”, dos autores Karl Alexander, Doris Entwisle e Linda Olson.

Paul Horton comenta o estudo e destaca que:

“na medida em que as escolas não façam parte de uma rede de apoio de famílias fortes, com oportunidades de orientação, com instituições que oferecem atividades construtivas, cuidados de saúde, apoio à criança, e acesso ao nível de entrada e empregos qualificados através de redes da comunidade, estas não podem agregar sucesso aos jovens urbanos desfavorecidos.”

Citando o estudo na p. 187, Horton enfatiza que:

“O que em última análise, determina o bem-estar na vida adulta”, segundo os autores do estudo, é “como os jovens negociam a transição para a vida adulta, que está enraizada em recursos existentes ao longo do caminho de volta até a primeira série” cursada pelo jovem.

“Nós vemos que as crianças são lançadas em trajetórias estáveis muito cedo na vida, por muitas razões. Primeiro, o NSE (nível socioeconômico do jovem) se alinha com o de seus bairros, e ambos seguem de volta para o NSE de seus pais.”

“Em segundo lugar, os planos dos pais para os seus filhos estão em vigor muito antes do ensino médio, e estes planos são fortes determinantes de seu desempenho e objetivos na vida.”

Pode-se romper este círculo, mas não com a reforma do ensino médio proposta, pois em essência ela vem para oficializar esta influência e dualizar ainda mais o ensino médio tirando os estudantes menos favorecidos das rotas mais exigentes dos mais favorecidos.

Para os jovens mais favorecidos, escolher apenas aquilo que lhe interessa é compensado pelo nível educacional maior da família com acesso a bens culturais maiores, em escolas que lhes oferecem múltiplos e elevados caminhos, para o estudante menos favorecido, ainda que ele pudesse de fato “escolher”, essa é uma maneira de retirar dele a sua formação mais geral, empobrecendo sua visão de mundo e limitando suas oportunidades de vida e de progressão que ele só tem via escola.

Dessa forma, o novo ensino médio visa introduzir uma nova forma de exclusão por dentro do próprio sistema de ensino (como anteciparam Bourdieu e Champagne) ratificando trajetórias familiares como se fossem “escolhas” pessoais. Mais gente pode ficar guardada dentro do sistema educacional, mas cada um no “quadrado” social do seu itinerário.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Mendonça no Ministério, Meritocracia, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado , . Guardar link permanente.

2 respostas para “Novo médio”, nova exclusão

  1. Felipe Ribeiro disse:

    Bem incoerente o texto.
    A ideia de que a educação emancipa a renda é de esquerda (não de direita).
    Tanto que, ela também é usada na segurança pública do mesmo modo pela esquerda: “quando se abre uma escola, se fecha um presídio”.
    Às vezes eu fico me perguntando o que aconteceu com a esquerda … tá todo mundo MUITO perdido. Por isso, a direita avança.

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