Público X privado: mais ilações da Folha…

Matéria no site da Folha de São Paulo de ontem – 9-07-18 – mostra a dificuldade que é produzir informações jornalísticas adequadas (do ponto de vista técnico) sobre educação. Ela faz parte de um conjunto de tentativas de mostrar que as escolas públicas são piores que as privadas, sem incluir na análise as reais causas desta diferenciação de desempenho. Isso contribui para que as teses da privatização do público se fortaleçam.

O caso em questão tem como título: “Matemática agrava abismo entre escolas públicas e privadas no ENEM”. Os dados usados são novamente do famigerado ENEM. Sim, pasme, o mesmo que gerou recentemente toda a polêmica com um estudo do IPEA (não coincidentemente publicado também pela Folha) que chegou à conclusão, infundada, de que a introdução da obrigatoriedade de filosofia e sociologia no ensino médio havia derrubado as médias de matemática.

Naquela oportunidade, vários estudos alertaram para as fragilidades das bases de dados do ENEM. Desta forma, nenhum jornal medianamente bem informado pode alegar desconhecimento sobre as limitações do ENEM. Até o próprio governo as admite e parou de fazer alarde com os dados, terceirizando para os jornais esta tarefa e com isso se protegendo. Portanto, não se pode alegar ignorância das fragilidades do ENEM ao se produzir matérias sobre ele na grande mídia.

Mas para demonstrar boa preparação para elaborar matérias educacionais, não basta o autor reconhecer as fragilidades do ENEM e depois apresentar as conclusões sem levar em conta tais limitações, sugerindo mais do que os dados podem expressar, ou montando títulos e manchetes para as matérias de forma a influenciar previamente a opinião dos leitores.

No caso específico, a matéria já diz a que veio em seu título: mostrar a superioridade das escolas privadas sobre as públicas. Uma falsa superioridade, pois sabemos que as metas do IDEB não estão sendo atingidas também pelas escolas privadas.

A matéria começa introduzindo uma conclusão em seu título e na sua parte privilegiada, ou seja, logo no início, diz:

“A matemática é a disciplina que mais agrava o abismo entre as escolas estaduais e privadas no país. Os resultados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2017 mostram desempenho inferior das redes estaduais em todas as áreas avaliadas na prova, mas em matemática essa distância é de até 67%.”

Leia aqui.

Aqui, neste início, já se “fisga” o leitor para a conclusão que se quer passar. A comparação, indevida, está feita com base nas médias das escolas públicas “versus” médias das escolas privadas, uma das formas de comparação de resultados mais primárias e frágeis.

Além disso, sabemos que o ENEM é um exame voluntário e que os estudantes que participam do exame nem sempre são representativos do conjunto de uma escola. Mas fazemos de conta que não importa. Sabemos também que média mais alta não é sinônimo de boa educação, mas fingimos que é.

Na matéria, os próprios autores apontam um limite fundamental para este tipo de análise, mas não o incluem de fato na conclusão a que chegam. Dizem:

“Essa diferença entre escolas estaduais e privadas esconde diferenças do perfil socioeconômico dos alunos. Escolas com alunos de nível mais elevado têm mais facilidade para alcançar maiores resultados.”

Feita esta breve ressalva técnica, a matéria logo em seguida se encarrega ela mesma de cancelar a interferência do nível sócio-econômico na diferença de médias, apresentando casos de escola com baixo nível sócio-econômico que tiveram “sucesso”. Para tal, irá citar uma escola do interior do Piauí, em Cocal dos Alves. A mensagem é que se uma pode, as outras também poderiam, o que descaracteriza o impacto do nível sócio-econômico.

Como dissemos em 2016, a propósito do IDEB do ensino médio, em outra investida da Folha contra as escolas públicas:

“Não faz sentido nenhum, portanto, a insistência da Folha (inclusive em edital recente) tentando mostrar que as escolas privadas são melhores do que as públicas, sem considerar os fatores que favorecem o aumento da média das escolas privadas. Por isso elas têm metas diferentes: a meta da escola privada é 6,3 e a meta da escola pública (estadual) é 4. Enquanto a escola privada está a 1 ponto de sua meta, a escola pública está a 0,5 ponto da dela. A escola pública está fazendo sua lição de casa melhor do que as privadas.”

dadoluizfolha

Como se vê no gráfico, enquanto as escolas públicas aumentam, as privadas caíram nos últimos anos.

Veja-se, no gráfico abaixo, que os resultados gerais do SAEB mostram que a matemática vem caindo no ensino médio, mas desde 2003 o ensino fundamental nos anos iniciais e anos finais vêm melhorando seu desempenho. Esta onda de melhoria não atingiu o ensino médio devido a uma série de fatores que não estão ligados ao fato da escola ser pública ou privada (como mostra o gráfico anterior).

SAEBmat1995_2015

E para concluir a reportagem,  a Folha inclui um “gran finale”: a reforma do ensino médio salvadora da pátria. Depois de sugerir que a interdisciplinariedade é o caminho, a matéria encerra com a reforma do ensino médio de Temer – não sem mencionar, de passagem, a resistência de Callegari à reforma.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Enem, Privatização, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

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