A lógica “bolsonariana”

Eleito, Bolsonaro aplicará no Brasil a cartilha dos “Chicago’s boys”, ou seja, economistas que foram treinados diretamente na Universidade de Chicago por figuras como Milton Friedman, proponentes do liberalismo econômico. Paulo Guedes, responsável pela área econômica, é um destes.

Friedman tem suas origens em economistas como F. Hayek e L. von Mises. O liberalismo econômico é a base da financeirização, cuja crise assistimos em 2008. Bolsonaro já procura nos meios financeiros seus assessores econômicos. Vai ser uma grande farra. Esse povo acha que administrar um país é sair vendendo tudo e gastar o que se arrecada com as vendas. Imagine se uma pessoa vendesse tudo que tem para comer.

O liberalismo econômico, como já afirmamos antes, é a base também do Partido Novo. Isso só vai ficar claro agora, quando o Novo já está fora das eleições. Forçosamente, o Novo terá que revelar seu apoio a Bolsonaro. (Há pouco ele divulgou nota em que não apoia o PT e nem Bolsonaro: ataca o PT, mas não diz porque não apoia Bolsonaro.) Está ficando claro também a quem Doria cultua.

Eleito Bolsonaro, vamos viver o liberalismo econômico de Pinochet que à sua época também foi orientado pelos seus Chicago’s boys com direito a tutoria direta de Milton Friedman que assessorou Pinochet durante a ditadura. Milton Friedman  é citado no programa do próprio Bolsonaro.

A propósito, o candidato tem falado em implantar seu “bolsa família” definido no seu programa como “renda mínima” que ele relaciona a Milton Friedman. Notemos bem: nenhum destes termos tem o significado que até agora teve no Brasil. Atualmente, estes termos representam uma quantidade pequena de dinheiro dada às famílias para sua manutenção. No caso de Bolsonaro, ele representa uma quantia que pode ser até maior que o atual bolsa família, como diz no programa, mas é dada no lugar dos direitos sociais. Por isso a chamei de “bolsa vire-se”. O liberalismo econômico retira direitos sociais e os substitui por “vouchers” – que estão no programa do PSL e que no Programa do candidato aparece como “renda mínima”. Direitos sociais são convertidos em “serviços” que são adquiridos no mercado.

Retiram-se direitos sociais como educação, coloca-se no lugar um voucher  e a partir daí o cidadão tem que pagar, por exemplo, a educação de seus filhos. Se tiver mais dinheiro, complementa o voucher que o estado dá e matricula seu filho em uma escola melhor, se não tiver, tem que se contentar com o que o voucher pode pagar. Essa é a realidade criada no Chile (e que Bachelet procurou alterar), onde o liberalismo econômico teve seu laboratório.

Devemos notar também, para evitar surpresas posteriores, que o neoliberalismo é uma combinação de autoritarismo social e liberalismo econômico. Tem grande afinidade com os conservadores.  Prefere o ambiente democrático, mas se necessário apoia golpes, como o fez no Chile. Pinochet recebeu apoio de Hayek, Buchanan (que ajudou a escrever a constituição de Pinochet) e do próprio Milton Friedman – todos do liberalismo econômico.

O exemplo de como pensa o “bolsonariano” pode ser visto em Minas Gerais com a vitória no primeiro turno de Zema do Partido Novo, apoiado por Bolsonaro. Para ele:

“Se alguém se negar a contribuir com o futuro de Minas, ele vai estar se condenando para a próxima eleição, porque eu vou deixar muito claro que aquela pessoa está ali por interesse próprio e não para representar o povo que o elegeu”, afirmou.”

O raciocínio “bolsonariano” não se dá bem com oposição. Temo que para ele, “ganhar a eleição” seja sinônimo de concordar com o programa do candidato eleito, sem direito a se opor. Dessa forma, o direito de fazer oposição é “cassado” no momento em que se perde uma eleição. Os “recados” estão dados.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Escolas Charters, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão, Vouchers e marcado , , , . Guardar link permanente.

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