Bolsonaro não tem projeto?

Luciano Huck acha que Bolsonaro não tem um projeto para o país. Tem sim. Ele está apoiado em três pilares que compõem sua proposta de governo expressa na prática da composição de seu ministério: um núcleo neoliberal (do qual certamente Huck se aproxima, composto pela equipe do Paulo Guedes); um núcleo conservador (composto pelo próprio Bolsonaro, Velez Rodrigues, Damares e outros) e, perpassando os dois anteriores, um núcleo que cuida do autoritarismo social como forma de governo (composto por Moro e Mourão).

O projeto de organização socioeconômica procura associar liberalismo econômico e conservadorismo – duas filosofias sociais – regadas a autoritarismo social como forma de governo. Este último, o autoritarismo social, é comum às duas filosofias sociais em questão.

Note-se, portanto, que conservadorismo não é o mesmo que autoritarismo social. O primeiro é filosofia social, o segundo é forma de governo. Posso ser conservador é autoritário, da mesma forma que posso ser neoliberal (liberalismo econômico) e autoritário. Por exemplo, Hayek, Friedman, Buchanan – pais do liberalismo econômico – apoiaram e assessoraram a ditadura de Pinochet no Chile.

Huck e a direita neoliberal brasileira gostariam de se livrar do excessivo conservadorismo de Bolsonaro e ficar só com o liberalismo econômico. Isso se deve a que, de certa forma, há uma contradição entre conservadorismo e liberalismo econômico, pois o conservadorismo e mais “controlador” do indivíduo, enquanto que os neoliberais se consideram “libertários”. Sim, eles se acham libertários, pois querem “libertar” o indivíduo do Estado e entregá-lo ao mercado, onde o mérito é o limite.

Mas, não deu para colocar em prática o projeto puro do neoliberalismo, sem uma associação com o conservadorismo. Foi o que deu para fazer, já que o fundamental era afastar o petismo por todos os meios. O conservadorismo já está sendo uma pedra no sapato do neoliberalismo.

Pode-se dizer que o liberalismo econômico, embora não se oponha à democracia, não a tem necessariamente como objetivo, pois visa garantir a liberdade econômica. Estes neoliberais falam sempre na importância da liberdade e não da democracia. Querem garantir a liberdade (econômica) que funda a liberdade pessoal e social, na visão deles, e não a democracia a qual seria um meio, uma forma de governo. Mas, se a democracia não der conta de garantir o livre mercado, então vale o autoritarismo. Os fins justificam os meios.

O projeto de Bolsonaro inclui alinhar o Brasil ao eixo geopolítico americano (hoje mais temente da China), firmar o livre mercado radical (compromisso assumido com os neoliberais) e criar os mecanismos legais e jurídicos para impulsionar o conservadorismo moral e social, impedindo que possa haver no futuro uma alternância de poder em direção à esquerda, entendida em seu sentido amplo. Vamos ver como isso vai evoluir.

No projeto Bolsonaro, a pobreza extrema é assunto para filantropia das ONGs de bilionários ou ações emergenciais limitadas. Os demais devem ser inseridos no mercado e se virar – cada um segundo o seu mérito – sem ficar dependendo do Estado, vivendo de impostos injustamente recolhidos dos ricos que merecidamente ganharam seu dinheiro. Para os neoliberais, não há desigualdade social – há méritos desiguais fundados no esforço de cada um. Para os conservadores, também não há desigualdade social, há uma ordem natural, desígnios de Deus. Por isso, “cada qual na cada qual”, todos se entendem perfeitamente.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para Bolsonaro não tem projeto?

  1. Fernando Bonadia de Oliveira disse:

    Estive recentemente lendo um livro que circulava muito em meu tempo de graduação, “Neoliberalismo, Qualidade Total e Educação – visões críticas” (Ed. Vozes). Achei interessante porque já havia no livro um indício de que certa “nova direita” fazia confluir neoliberalismo e neoconservadorismo. Tudo isso se apresentava sob o discurso da qualidade na educação. Os textos de Frigotto, Tomaz Tadeu, Gentilli e Enguita (constantes do volume) tentavam mostrar isso em seus argumentos. Não tive nem como pensar que era um fenômeno tipicamente brasileiro ou latino, porque no livro M. Apple, salvo engano, dizia o mesmo tratando do mundo. Fiquei pensando se o diferencial da “novíssima direita atual” em relação àquela dos 90 não é justamente a forma hodierna desse “autoritarismo social” mencionado no post. Ainda me indaguei se a forma da articulação autoritária atual é, de fato, DIFERENTE da anterior, ou se, na verdade, como vocês já podiam pressupor nos anos 90, esse neoliberalismo falsamente democrata não era nada mais do que a preparação (em fase embrionária) desse autoritarismo de hoje.
    Seu post contribui para apontarmos a singularidade desse neoliberalismo de hoje em comparação com o neoliberalismo dos anos 90 e o dos anos 70; tarefa, no meu entender, fundamental para a crítica. Grato!

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