Uma burrice iliberal

Bolsonaro representa o conservadorismo extremado: seu pessoal acha que pode haver tortura, que não houve golpe de 64, que Mozart é esquerdista, há quem veja Jesus Cristo no pé de goiabeira e até quem queira instituir “bolsa estupro” etc. Tenho pena dos liberais. A filosofia social liberal não merecia passar por isso, tendo que se associar à ignorância.

O desejo de voltar ao poder, levou uma vertente do liberalismo, o liberalismo econômico, que tem sido chamado de neoliberalismo, a juntar-se ao conservadorismo autoritário. O liberalismo econômico não precisava do conservadorismo autoritário para ser autoritário, pois ele é intrinsicamente autoritário, como mostrou Nancy MacLean. Mas ele precisava de votos. Para esta configuração política, a democracia liberal virou um meio e não um fim – e se necessário abre mão dela para implementar o livre mercado. A forma de operar foi denunciada por Fukuyama:

“… líderes populistas nacionalistas usam esse terceiro pilar [eleições livres] para chegar ao poder e, a partir de dentro, corroer os outros dois [um Estado que concentra poder e o utiliza pelo bem dos cidadãos; a igualdade de todos perante a lei]. Ou seja, a legitimidade do processo democrático transforma-se em arma contra a própria democracia.”

A gravidade por aqui é que isso ocorre com o apoio dos próprios liberais.

Estive no Chile em outubro. Lá se temia pela possibilidade de Bolsonaro virar presidente do Brasil. A manchete do jornal “La segunda” estampava: “Alarme liberal contra Bolsonaro“.  Na matéria podia se ler a fala de Lucia Santa Cruz:

“Incomoda-me muito que uma boa política econômica fique em mãos de pessoas que concebem o liberalismo de forma muito limitada. As posições não econômicas de Bolsonaro atentam contra todos os princípios fundamentais do liberalismo” (p. 12).

Entre eles eram arrolados: igualdade ante a lei, respeito, tolerância, democracia, direitos humanos. Eis aí o alerta do liberalismo chileno para a liberalismo brasileiro.

A direita brasileira já está complicada porque colocou em prática um plano golpista o qual começou quando ela perdeu as eleições em 2014, arquitetou o golpe de 2016 e liberou a lava-jato para o “lawfare” que atingiria a todos no momento seguinte e permitiria o crescimento de Bolsonaro. Um belo tiro no pé, pois Bolsonaro derrotou não só a esquerda, mas também a própria direita liberal, colocando o liberalismo econômico autoritário em primeiro plano.

Resta à direita liberal, agora, para sobreviver, empenhar-se para tornar a posição de Bolsonaro em uma posição liberal palatável. Se a direita verdadeiramente liberal for sábia, fica no apoio crítico. A posição é confortável já que os erros serão atribuídos a Bolsonaro, que por sua vez atribuirá as dificuldades à era PT, e os acertos serão capitalizados também pela direita, no momento seguinte, retendo o que lhe convier.

Isso não significa que não existirão “custas a pagar”. A direita terá que fazer uma espécie de “autocrítica” para recuperar os princípios do verdadeiro liberalismo, a menos que faça como parte do Partido Republicano americano tem feito e também traia tais princípios.

Bolsonaro é um conservador autoritário, um oportunista de última hora que, por votos, assumiu ares de liberal. A vitória de Bolsonaro foi construída cercada pela truculência, pela mentira, pela omissão do debate e pelo medo. O liberalismo econômico compactuou com isso. Fechou os olhos para passar suas ideias, repetindo o que fez no Chile na ditadura de Pinochet – afinal o que conta é o livre mercado. Com isso, corrompeu o próprio liberalismo.

O conservadorismo populista de Bolsonaro foi usado pela direita liberal para assustar a classe média anti-petista e catalisar o ódio. Passadas as eleições, isso já não tem a mesma importância, ainda que sempre voltará a cada crise do governo com a retórica intimidadora de que “o PT vai voltar“. O liberalismo vai tentar controlar o conservadorismo – ainda que não necessariamente o autoritarismo social embutido nas suas propostas econômicas. O governo Bolsonaro promete muitas contradições.

No caso da educação, a primeira tentativa da centro direita liberal foi colocar Mozart no Ministério da Educação. Mas apesar da batalha na educação ter sido perdida para o conservadorismo de Velez Rodriguez, a guerra continuará (veja aqui).

Para a centro-direita liberal é perda de tempo lidar com questões postas pelo “escola sem partido”, por exemplo. Segundo o Jornal Estadão – porta voz do liberalismo -, o novo governo deveria se preocupar com o seguinte: 1) Os alunos precisam melhorar no PISA; 2) O ensino (fundamental e médio) está em más condições?; 3) É preciso adaptar o ensino “às condições impostas (sim, impostas) pela chamada revolução 4.0”; 4) Os professores devem ser preparados para formar alunos capazes de “atuar com sucesso na economia do século 21”; e 5) É preciso verificar como as “experiências bem-sucedidas no exterior poderiam proporcionar elementos a um programa de modernização educacional”.

Leia aqui.

Este é o programa da centro-direita para a educação e que implica em transformar a posição de Bolsonaro em uma direita palatável onde o peso do movimento “escola sem partido” seja diluído e se coloque como objetivo a reforma empresarial da educação (com vouchers e escolas charters, como pede o PSL).

A educação vai ser colocada a serviço do liberalismo econômico de Paulo Guedes. Por este caminho, ela será posta na trilha da privatização e como tal, deixará de ser um risco do ponto de vista ideológico, já que estará sob comando dos empresários da educação. Quem precisará do Escola sem Partido?

Para a direita o que importa é a economia e Paulo Guedes é a sua ancoragem, não devendo ser atrapalhado com bravatas do conservadorismo autoritário (leia aqui posição de ACM Neto, presidente do Partido DEM).

No entanto, como alerta o liberalismo chileno, ao se identificar com Bolsonaro, a direita liberal está contribuindo para a deturpação de todos os princípios fundamentais do liberalismo e, com isso, podemos agregar, ajudará na consolidação das posições de esquerda. De quebra, contribuirá para agravar a já combalida democracia liberal que ela mesma ajudou a criar.

É o tipo de posicionamento burro que se constituirá no futuro em um novo tiro no pé. Nós da esquerda, devemos agradecer aos “iliberais”. Bolsonaro fragiliza o próprio liberalismo. A mensagem que passa é de descrédito até mesmo para com uma limitada e incompleta democracia liberal – não há melhor propaganda para a esquerda.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para Uma burrice iliberal

  1. M. Estela Sigrist Betini disse:

    “A vitória de Bolsonaro foi construída cercada pela truculência, pela mentira, pela omissão do debate e pelo medo”, acrescentaria, pela utilização do sentimento religioso do povo, de modo especial.

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