O encanto neoliberal

O Brasil de Bolsonaro gosta de se auto definir como uma coalizão liberal/conservadora – e assim é – mas a base de sustentação de seu governo será dada pela visão neoliberal (forma que o liberalismo tomou nos países centrais nos anos 80 e que se encontra em declínio, especialmente depois da crise financeira de 2008) ancorada no apoio militar.

O neoliberalismo foi ensaiado na ditadura militar com Roberto Campos, depois com Collor, depois com FHC e agora volta com Bolsonaro/Guedes e apoio dos militares para tentar novamente restabelecer seu curso. O neoliberalismo encanta por suas fórmulas abstratas de um livre mercado auto regulado no qual se funda a liberdade pessoal em que o mérito é o limite.

Esta persistência se deve às contradições do sistema capitalista que se agravam com as permanentes dificuldades para manter as taxas de acumulação de riqueza, atingindo também a classe média, ao mesmo tempo que se ampliam as pressões dos movimentos sociais sobre a democracia liberal, fazendo com que as soluções preventivas pensadas no pós guerra fiquem cada vez mais duvidosas. O problema não é só local, mas mundial.

Em sua falência anunciada, mas não sem luta, o modelo arrastará mais uma vez os militares para outro fracasso. O anti-comunismo dos militares tornou-os presa fácil da argumentação de F. von Hayek (tipo de neoliberalismo que é representado no governo por Paulo Guedes) e está baseado menos na ameaça objetiva do comunismo real e mais na recusa generalizada a qualquer “planejamento da economia” – lido como intervencionismo do Estado – que conduziria ao controle do livre mercado o que também levaria, para estes, ao controle da liberdade pessoal e social – ou seja ao socialismo e ao comunismo. O livre mercado virou salvo-conduto para evitar o  comunismo.

É uma posição que, ao afastar qualquer forma de intervenção estatal, inclui uma recusa à proposta social democrata e não só ao socialismo. Os militares compraram a ideia de que garantindo o livre mercado, garantem que o comunismo não terá vez. Daí seu caráter reacionário. Mas, ou tutelam “ad eternum” a sociedade brasileira ou fracassarão. É fria.

Portanto, é a lenda do “homo economicus” auto-regulado e imerso nas “leis naturalizadas” da produção/consumo (o livre mercado), descolado das outras dimensões sociais, que precisa ser desmascarada como fórmula de manutenção do “status quo” da elite financeira econômica. É esta concepção que precisa ser combatida, preferencialmente, ao enfrentarmos Bolsonaro – mesmo com os perigosos retrocessos nos costumes e concepções da vida social. Restringir-se aos desatinos das Damares, Araujos e outros, será fatal.

São os desatinos no campo da economia que produzirão as consequências mais trágicas para os trabalhadores brasileiros. Não é uma questão voluntarista de querer ou não que dê  errado – é a lógica da proposta neoliberal.

O que estamos dizendo, só para não deixar dúvida, é que o ataque às concepções do bolsonarismo deve ser global e não centrado apenas nos costumes.

Embora o darwinismo do “homo economicus” proposto pelo neoliberalismo possa ser considerado uma forma inicial de fascismo (a lei do mais forte agindo em um livre mercado com o Estado ausente), esta argumentação não terá nenhum apelo neste momento. Atacar seus gurus que comodamente assistem ao desastre morando no exterior, menos ainda. Quando as recomendações dos gurus falham, eles atribuem o fracasso à  “burrice” dos seguidores e se isentam do fracasso.

Temos que submeter à análise as propostas que afetarão concretamente a produção da vida de milhões de trabalhadores, à luz do que já sabemos sobre o esgotamento destas políticas em outros países, uma das causas do fortalecimento da própria extrema-direita, que navega no vácuo das insuficiências do neoliberalismo e da social-democracia, fenômeno que poderá ser reproduzido por aqui à medida que o neoliberalismo não se mostre à altura das expectativas sócio-econômicas criadas pelo próprio bolsonarismo – com o perigoso aval militar.

Para evitar este desenlace, é necessário que existam propostas alternativas. O bolsonarismo aposta em uma teoria permanente da conspiração comunista contra o “homo economicus” para se manter.

Estamos recebendo, no Brasil de Bolsonaro, este tipo de liberalismo tardio duplamente superado: primeiro superado em sua forma clássica, no início do século passado e, agora, em sua forma neoliberal, quase 100 anos depois de seu primeiro fracasso. Nem por isso, as marcas e consequências que deixará serão menores do que foram nos países centrais ou se preferirmos por aqui mesmo, ao nosso lado, no Chile – a começar pela reforma da previdência.

A análise das formas de organização e governo da administração Bolsonaro, seus múltiplos núcleos, não pode ocultar o que deve ser considerado essencial neste novo arranjo que se inicia. Os vários núcleos do governo não têm todos o mesmo status.

Enquanto por aqui vamos enfrentar este neoliberalismo tardio que se entende muito bem com o conservadorismo, apesar de suas contradições, o debate em outros países que passaram por isso, principalmente nos Estados Unidos, está pautando para onde olhar no futuro, após a crise do neoliberalismo.

É sempre possível que desemboquemos no pior, no fascismo, por exemplo, mas é claro que este não é o nosso projeto. Considerando que por aqui este neoliberalismo tardio também irá se esgotar, o que vamos construir e propor? A análise do bolsonarismo só interessa para, a partir do conhecimento deste, construirmos a  contraposição política e econômica.

Análises de conjuntura não são transferíveis nem duradouras, mas sempre podemos aprender com o dilema dos outros, ainda que isso não leve diretamente à resolução de nossos problemas específicos.

Os  links de artigos (publicados no site Truthout) que seguem abaixo são exemplos que dão indicações de para onde as discussões estão indo, nos limites da esquerda americana.

The Death of Neoliberalism Is an Opportunity to Birth a New System (A morte do neoliberalismo é a oportunidade para o nascimento de um novo sistema)

The Search for a New Politics Beyond Neoliberalism and Social Democracy (A busca por uma nova política para além do neoliberalismo e da social democracia)

The Limits of Social Democracy Will Test the US Left (Os limites da social democracia testarão a esquerda americana)

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para O encanto neoliberal

  1. Zara disse:

    Três ordens de razões fazem do post um ótimo texto, a meu juízo, Professor. A delimitação clara do que seja neoliberalismo, já que virou um termo esvaziado, por falta de rigor teórico; a discussão de seu ocaso, já anunciado pela literatura; a ressignificação tardia no Brasil, com sua “tropicalização” e o questionamento propositivo de rumos por aqui.
    À lista de artigos sugeridos, acrescentaria, ainda, um de 2003, de Peter Evans, “O Estado como problema e solução”.
    Ótimo post! Obrigada!

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