O método da “direita neoliberal”

O método da direita neoliberal tem incluído, em países onde já estão há mais tempo, uma agressão generalizada a toda forma de organização sindical e dos movimentos sociais que lutam em defesa de direitos. Esta ação permite que o “poder neoliberal”, tendo destruído a democracia representativa, converse diretamente com o “cidadão”. Com isso, ele passa por cima dos sindicatos e outras organizações, desmobiliza-os e negocia diretamente com os “interessados” de forma isolada.

Esta ação é acompanhada, simultaneamente, pelo incentivo dado para que organizações sociais e grupos de apoio às ideias neoliberais, financiados por bilionários ou por empresas, assumam o trabalho de viabilizar o convencimento dos “interessados”, induzindo-os à aceitação das ideias neoliberais.

É um jogo casado que ao mesmo tempo que diz empoderar o cidadão, desarticula as suas representações e instrumentos de defesa coletiva e que têm mais força. Vende o empoderamento do cidadão, mas aposta na sua fragmentação e no seu enfraquecimento. É isso que significa “empoderar o cidadão” e, ao mesmo, destruir os movimentos sociais e cooptar as lideranças locais. É por isso que o ministro da educação diz que “é preciso mais Brasil e menos Brasília”.

Uma das manifestações deste método é o que está anunciado pela Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, permitindo que as escolas, por exemplo, decidam se querem ou não policiais armados dentro delas. Será criado, é claro, algum método de consulta: adesão direta, manifestação nos conselhos, ou algo assim, que formalizará a opção  da escola.

Assim, aos poucos, as ações vão sendo deslocadas para a ponta e implementadas em várias frentes. A luta fica fragmentada e o orçamento da educação vai sendo usado para financiar este tipo de ação periférica o que leva, junto a outras medidas de privatização, ao sub-financiamento e à extinção da escola pública: chega-se ao paradoxo de que não se tem dinheiro para montar uma biblioteca, mas se tem para pagar um policial que nas horas de folga permaneça armado dentro da escola colocando em risco a vida de todos.

Nos Estados Unidos este método é usado em alguns estados e distritos também para decidir se uma escola deve ou não ser privatizada (transformada em “escola charter” ou se deve ser incluída no programa de “escolha” através do uso de “vouchers). O esquema atua identificando as lideranças locais e procurando convencê-las (ou até mesmo corrompê-las com fartos recursos) de forma que elas arrastem outros pais ou membros dos conselhos.

O trabalho destas agências neoliberais é feito com muito recurso financeiro, com a mídia apoiando e com organizações sociais ou “think tanks” que geram as justificativas e fazem a advocacia das ideias neoliberais. Contrapor-se a isso, exigirá esforço significativo e paciência.

Esta forma de luta da direita neoliberal exige que seja desenvolvida uma ação de campo – não apenas via grupos nas mídias, mas junto aos pais, professores e estudantes locais com o objetivo de disputar a aceitação das ideias contrárias ao neoliberalismo (incluído aí o combate ao próprio conservadorismo). Da mesma forma, exige que os sindicatos ou centrais sindicais, bem como os movimentos sociais tenham uma organização ou representação ramificada e local para coordenar lutas específicas e locais.

Mas a vantagem é que, hoje, sabemos como a direita neoliberal opera. Além disso, os métodos que podem ser usados contra a escola pública, também podem ser usados para construir a maioria a favor dela, no interior das lutas locais – ainda que em condições adversas. É assim que nos Estados Unidos os referendos, conselhos escolares nos distritos ou nas escolas estão, em muitos estados organizando a resistência e iniciando um processo de contenção da privatização e têm obstado a entrada de suas escolas públicas em programas suicidas que visam sub-financiar e destruir a escola pública.

A guerra é longa, e é feita de muitas batalhas. É preciso construir um grande arco de alianças nas comunidades locais e nas escolas em defesa da escola pública estatal. Assim que começarem a aparecer os resultados negativos desta ideias nas comunidades, a adesão à luta irá se ampliar. O neoliberalismo (e suas ideias educacionais), apesar de sua arrogância, tem pés de barro.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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