A pós-verdade da avaliação censitária

Avaliações de larga escala, feitas para abranger municípios, estados ou mesmo uma nação podem ser feitas tanto de forma censitária, ou seja, envolvendo todas as escolas e estudantes, como de forma amostral, utilizando-se de procedimentos estatísticos fartamente conhecidos e utilizados em vários campos.

Em princípio, avaliações de larga escala devem servir para avaliar políticas educacionais dos governos, mas, com o advento das políticas neoliberais na educação – especialmente nos Estados Unidos, o campo da avaliação foi sequestrado por estas políticas e as avaliações passaram a ser voltadas para fiscalizar as escolas, invertendo sua direção. As políticas ficam ilesas e as escolas aparecem como as grandes culpadas.

A inversão da lógica obedeceu a um princípio: a qualidade da escola só melhorará se elas forem inseridas em um “mercado” concorrendo entre si. Exatamente por esta concepção mercadológica, a intenção sempre foi enfraquecer a escola pública (portanto, ao contrário do proclamado) e criar condições para inserir (por terceirização e/ou vouchers) as escolas na concorrência, privatizando-as.

A reforma empresarial da educação proclama que seus métodos servirão para melhorar a educação e toma como referência a nota dos estudantes, criando a ilusão de “nota mais alta é igual a melhoria na qualidade”. Mas os verdadeiros objetivos da reforma não são apenas quantitativos, são também qualitativos. Os objetivos quantitativos (melhoria das notas das escolas nos rankings) nunca foram alcançados, mas os objetivos qualitativos, sim. É por isso que, apesar de seu fracasso como política educacional destinada a melhorar quantitativamente a educação, ela continua.

O objetivo qualitativo não é outro senão introduzir a juventude na lógica concorrencial do mercado, formando a juventude no “espírito” da sociedade neoliberal onde cada indivíduo deve ser visto como um “empreendedor de si mesmo” concorrendo no mercado. Os exames estão permanentemente inserindo os jovens na competição, criando a lógica de uma verdadeira “corrida para nenhum lugar”. Os danos desta política são conhecidos: narcisismo, competição violenta, depressão. A solidariedade é substituída pela concorrência.

Esse resultado qualitativo só pode ser induzido com avaliações censitárias que envolvam todas as escolas e alunos, já que as avaliações amostrais não permitem que se chegue a uma escola específica ou a um determinado aluno ou turma. Daí que sempre que aparece a ideia de fazer uma avaliação amostral, os liberais e neoliberais reajam imediatamente contra.

Bastou o MEC informar que fará uma avaliação da alfabetização amostral este ano, para que a Folha de São Paulo reagisse explicitando a que vieram as avaliações censitárias no Brasil, introduzidas com a Prova Brasil e o IDEB:

“uma prova por amostragem é capaz de fornecer quadros regionais e estaduais, mas não de produzir indicadores precisos sobre cada cidade ou escola.”

Leia aqui.

Eis o que incomoda a Folha: o fato de não poder “produzir indicadores precisos” sobre cada escola. Eis o ponto. O objetivo é chegar até a escola e inserir todas na lógica mercadológica, de preferência colocando uma tabuleta na porta da escola com o IDEB alcançado por ela. Disso, da lógica natural do mercado, emergirá a qualidade da educação brasileira.

Uma mentira repetida mil vezes, tem o poder de transformar-se em uma pós-verdade. As avaliações de larga escala devem colocar em julgamento as políticas públicas dos governos e não voltar-se para culpabilizar escolas, professores e estudantes. Se o objetivo é analisar a política dos governos, então, não necessitam ser censitárias. Quando muito, os Estados e Municípios, que estão mais próximos da escola, podem fazer provas censitárias (mas nem isso seria em tese necessário para melhorar a educação brasileira).

Fazer avaliação amostral seria muito mais barato e igualmente eficaz. É assim que se faz na avaliação nacional dos Estados Unidos de onde gostamos de copiar coisas. Esta brincadeira censitária custa ao INEP 500 milhões de reais a cada dois anos. Dinheiro jogado no ralo e que poderia ser melhor aplicado no desenvolvimento da escola pública.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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