Ditadura de transição: o terrorismo neoliberal

Em 8 de junho de 2019 escrevi um post a propósito das declarações elogiosas que Guedes e Weintraub faziam, à época, ao Chile. Nele escrevi:

O Ministro da Economia tem afirmado que o Chile é um exemplo de sucesso pois seu PIB – produto interno bruto – é alto. Idem a renda per capita. Ele atribui a alta ao modelo neoliberal. O Ministro da Educação, Weintraub, fez afirmação semelhante quando comparou o Brasil com outros países desenvolvidos, ao participar do Congresso de extrema-direita em Foz do Iguaçu, antes de ser nomeado. De fato, a história não é bem assim.

O PIB é a soma de todos os produtos e serviços produzidos dentro de um país, mas ele não diz quem se apropria dos resultados econômicos desta atividade produtiva global. Ou seja, o PIB não é um indicador da desigualdade social existente em um país e dessa forma, não mede o bem-estar social da população de um país. O mesmo vale para a renda média per capita.

Heather Boushey, diretor executivo e economista chefe do Washington Center for Equitable Growth, explica esta limitação tomando os Estados Unidos como base:

“A economia [americana] está ficando maior, mas não melhor. Não para a maioria dos americanos, pelo menos. Nos Estados Unidos, a receita adicional de produtividade e crescimento vem sendo maioritariamente para aqueles que estão no topo da escala de renda e riqueza. Entre 1979 e 2016, a renda nacional dos EUA cresceu quase 60%, mas depois de contabilizar impostos e transferências, a metade inferior da distribuição de renda registrou aumento de renda de 22%, enquanto os 10% mais ricos tiveram ganhos de renda quase cinco vezes mais – 100%.”

Guedes é um Chicago Boy. Estudou em Chicago (USA) pela escola neoliberal de M. Friedman, voltou ao Brasil e como não houvesse, naquele momento, anos 70, lugar para suas ideias por aqui, foi exercitá-las no Chile – conforme é relatado em matéria de El País.

Esta semana, o “excelente” modelo econômico chileno – para as elites – transformou-se em pesadelo pelas suas consequências desastrosas para a população chilena, a qual comparece às ruas de Santiago de Chile para protestar exaurida por décadas de descaso e roubo.

Veja no video abaixo o desastre neoliberal chileno.

Mais de um milhão de pessoas foram protestar na famosa Plaza de Itália, às margens do Rio Mapocho, rio onde os aparatos militares e para-militares da ditadura de Pinochet jogavam corpos de cidadãos torturados e assassinados, que apareciam boiando nas suas águas.

Um milhão de pessoas – terroristas segundo o “bozo da corte” brasileiro – atestou, ontem, às mesmas margens do Rio Mapocho, que aqueles que foram assassinados nas suas águas não morreram em vão. A única culpa que tinham era sua presciência de que a ditadura chilena não representava uma promessa de vida melhor.

Foi em uma visita de M. Friedman ao Chile que ele convenceu Pinochet a ser radical na economia – como ademais já era na política. O terrorismo neoliberal se firmou durante a ditadura e sua lógica nunca foi modificada. Portanto, tais políticas aterrorizaram a sucessivas gerações que agora se revoltam legitimamente. O alerta que Chile emite para a América Latina é que o neoliberalismo tem consequências gravíssimas não apenas para a atual geração, mas também para as futuras gerações.

Friedman teve boa escola – seu mestre F. Hayek. Também em visita ao Chile, em entrevista ao El Mercurio – a Globo do Chile – ele revela sua teoria da “ditadura de transição”. O jornal chileno El Mercurio indaga Hayek sobre o que pensa das ditaduras. Hayek responde:

“Como instituições de longo prazo, sou totalmente contra as ditaduras. Mas uma ditadura pode ser um sistema necessário para um período de transição. Às vezes é necessário que um país tenha por um tempo, alguma forma ou outra de poder ditatorial. Como você entenderá, é possível que um ditador governe de maneira liberal … Minha impressão pessoal … é que no Chile … testemunharemos uma transição de um governo ditatorial para um governo liberal … Durante essa transição, pode ser necessário manter certos poderes ditatoriais, não como algo permanente, mas como um arranjo temporário.” (El Mercurio, 1981, citado em Biebricher, 2018.)

O neoliberalismo convive muito bem com o autoritarismo – o que explica sua conexão com militares e conservadores, também no Brasil. Explica o grau de repressão atual do governo chileno às manifestações populares (“estamos em guerra”, diz Piñera) e explica porque, no Brasil, o “bozo da corte” e seu general de plantão declaram, em visita à China, que os militares brasileiros estão atentos e se preparam para impedir situações como a chilena, que possam vir a ocorrer no Brasil.

Nada melhor do que o próprio Guedes para explicar a relação entre conservadores e neoliberais. Diz ele: a função dos conservadores é colocar ordem. A função dos [neo]liberais é colocar o progresso.

O Chile que o diga.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Weintraub no Ministério e marcado . Guardar link permanente.

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