Volta às aulas: como desmobilizar a resistência

Os sistemas de ensino encontraram uma forma de se livrar da responsabilidade pelo retorno às aulas em plena pandemia. A forma que encontraram foi deslocar a decisão para os pais.

Mas, mais que isso, este encaminhamento pretende bloquear o movimento e a organização de professores, estudantes e pais contra a reabertura – sem contar que cria uma pressão sobre os próprios pais que são reticentes à volta às aulas: eles devem assumir a responsabilidade por não enviar o filho à escola – e assumir também a consequência. Tudo isso é desmobilizador da resistência. O problema deixa de ser coletivo e passa a ser individual.

Pais que estão pressionados pela necessidade de trabalhar, sem condições de se manter em casa, tenderão a enviar seu filho para a escola para poder trabalhar. Enquanto isso, aqueles que têm melhores condições econômicas, tenderão a não enviar seu filho à escola – preocupados com a contaminação e tendo como acompanhar o ensino remoto.

Além disso, quanto mais desfavorecido é o pai, mais tende a valorizar a escola, pois é o único espaço que o filho pode frequentar e que, supostamente, permitiria a ele melhorar de vida. Ficará em dúvida se deve impedir seu filho de ir à escola, assumindo sozinho a responsabilidade de deixá-lo em casa, pois desconhece as consequências e poderia estar tirando dele a oportunidade de progredir na vida.

Essas e outras razões vão fazer com que sejam, novamente, os mais desfavorecidos que irão se arriscar à contaminação reversa: mandam o filho para a escola e aumentam a contaminação daqueles que estão na sua residência – crianças acima de 10 anos transmitem o vírus tanto quanto os adultos – e espalharão o vírus em casa.

A tática de tornar decisões coletivas em individuais é antiga. Rompe o coletivo. Quando se quer desmobilizar uma organização coletiva, desloca-se a decisão para o indivíduo e, com isso, tira-se de cena a decisão coletiva que usualmente têm maior força.

Foi assim com a implantação das escolas militares. O governo apelou para a decisão direta dos pais dos estudantes. Eles deveriam dizer se queriam ou não a conversão da escola do filho em escola militar.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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9 respostas para Volta às aulas: como desmobilizar a resistência

  1. Raimundo disse:

    Texto bem interessante!

    • Lauricélia Ledesma Martins disse:

      Olá bom dia, com certeza este texto é muito interessante e não deixará de fazer sentido em nosso aprendizado. Parabéns professor

  2. Heloisa disse:

    É mesmo impressionante como eles encontram sempre estratégias perversas como esta.

  3. Educação e saúde enquanto dever do estado não podem ser de definição do âmbito privado… mais uma discussão que está no campo do direito à educação, como bem coletivo, social…
    A liberdade de escolha apregoada nos princípios do mercado, do capital, já entraram forte nos temas que são do campo da definição do poder público há muito tempo. Triste.

  4. Camilla disse:

    Texto pertinente para nos atentarmos às artimanhas da quebra de coletividade em uma sociedade cada vez mais individualista. Eu discordo em partes quando o senhor diz que os pais mais favorecidos tendem a ver na escola uma perspectiva de futuro melhor. O que eu venho observando é que, do desfavorecido ao abastado, a escola é sinônimo de depósito de crianças. Esses pais dizem não aguentar mais os filhos em casa. O fato é que os pais que mandarão seus filhos à escola serão aqueles que nunca vão às reuniões para saber dos filhos, são aqueles que nunca atendem aos chamados para tratar da disciplina e da questão pedagógica dos filhos, bem como são os menos favorecidos que optaram por autorizar seus filhos a trabalharem dois períodos durante a quarentena, pois o mercado de trabalho proporciona mais perspectiva de futuro a eles do que a escola.
    Infelizmente, o problema é, de fato, a quebra do coletivo e a constante desmoralização do professorado.

  5. Leandra Albrecht disse:

    Bom ,eu acho que nao deveria voltar as aulas,muitas crianças e aldutos circulando nas ruas e também numa sala tem no minimo 38 alunos mesmo que cada use álcool em gel ,mascara se contamina nao tem jeito bom essa é minha responta nao apoio a volta das aulas !!

  6. Ednir Melo Barbosa disse:

    Penso que este problema coletivo merece uma resposta individual. Sou eu que devo decidir que risco meu filho pode ou deve correr.
    Não tem como deixar isso para outros responderem…

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