Uma versão deste post foi publicada em 12/08/2017 neste Blog. Na ocasião a preocupação estava voltada para uma possível candidatura de João Doria que à época era um representante próximo destas ideias. Mas em 2018 o capital optou por Jair Bolsonaro e hoje elas reaparecem como propostas de Flávio Bolsonaro, reafirmadas com o apoio do conservadorismo religioso, do neoliberalismo decadente e do libertarianismo. Como estamos vendo, esta “nova direita iliberal” põe a “direita liberal tradicional” em extinção: uma exigência sistêmica ditada pelas novas condições de operação do capital. Trump, Milei e Flávio, entre outros, representam um conjunto de ideias geradas ao longo do século passado e que se articulam, apesar das divergências, para resolver as crises do capital. No caso americano, o quadro político agrava-se ainda mais pelo desgaste acelerado da hegemonia americana e gera ações de autodefesa que envolvem toda a América Latina.

Nancy MacLean analisa em “Democracy in Chains: The Deep History of the Radical Right’s Stealth Plan for America”, as ideias de James McGill Buchanan que estão na base da formulação da nova direita americana. Para esta visão, a sociedade não pode conviver com a ideia de que uma parte dela, desprovida de recursos, seja ajudada pelos recursos produzidos pela outra parte. O governo não pode intermediar e sacrificar quem tem dinheiro, para atender as necessidades de quem não tem dinheiro. Buchanan escreveu em 2005: uma pessoa que fracassa em guardar dinheiro para suas necessidades futuras “deve ser tratada como um membro inferior da espécie, similar … aos animais que são dependentes”. Desde então, estas ideias foram fartamente financiadas pelos bilionários Koch e agora das Big Techs.
Nos tempos de Bolsonaro I, um economista neoliberal, Paulo Guedes, resumiu magistralmente a mensagem central destas políticas dizendo, em uma reunião de Ministros de Estado, a célebre frase: “deixe cada um se ferrar como quiser!”
Nesta perspectiva, tudo tem que ser privatizado para que o Estado deixe de atuar como uma forma de redistribuição de renda. Esta visão também coincide com outras análises que destacam que a retirada do Estado elimina o esquema de proteção (leis e serviços) que protege o trabalhador da abusiva exploração do capital. Se isso ocorre, retira do capital a capacidade de impor ao trabalhador uma super exploração. Sem a ação do Estado e das leis, o trabalhador fica sujeito aos ditames do capital tendo que aceitar as novas condições de trabalho criadas para dar sustentação às novas taxas de acumulação de riquezas.
Ainda há tempo de evitarmos que milhões de pessoas sejam “tratadas como animais”, nas palavras de James McGill Buchanan ou ainda que milhões de pessoas “se ferrem como quiserem”, nas palavras de Paulo Guedes.