Bônus em SP: recriando a criatura… de novo

Postado originalmente na Uol em 27/05/2011

A política de bônus em SP empacou. Será reformulada. Vão introduzir no atual cálculo do bônus um índice de nível sócio-econômico da escola, segundo dizem.  Acontece que um teste, destes feitos no SARESP, não mede só o desempenho da criança, nele já está espelhado o nível sócio econômico dela. Não se sabe ao certo o que será feito, mas o risco é oficiar exigências para escola de pobres e exigências para escolas de ricos. Complementarmente, pode-se derrubar a motivação dos que trabalham nas escolas dos alunos com melhor nível sócio econômico. O sonho dos liberais é encontrar uma fórmula que controle o esfoço dos atores da escola. Começaram dando bônus individualmente para professores. Não funcionou. Passaram a dar bônus coletivo para a equipe da escola. Não funcionou. Tentaram colocar a equidade dentro da fórmula de cálculo do bônus (IDESP atual). Não funcionou. Agora vão tentar uma nova fórmula estatística.

No ano passado, em 2010, cerca de 510 escolas não receberam bônus. Neste ano este número passou para 1.474 unidades que não atingiram as metas previstas e ficaram sem bônus. Em dinheiro, o gasto caiu de 655 milhões para 340 milhões. Ao invés de ver nisso uma inadequação da proposta de bônus, vão tentar ressuscitar o morto. Como sempre, chamaram o pessoal da estatística para resolver a questão.

A premissa é que está errada. O bônus parte da ideia de que os professores são preguiçosos e que precisam de bônus para que se esforcem mais. Parte da ideia de que se você expuser a escola e seus profissionais à execração pública da sociedade, o ensino melhora. Ocorre que dinheiro e vergonha, não motivam professor – não os que fazem a diferença. É a lógica dos negócios aplicada à educação. Mas educação é diferente de negócio. Isso para não dizer que educação de qualidade não é sinônimo de notas altas em testes do SARESP.

Duas possibilidades: 1. O bônus continua não motivando ou sendo inatingível devido a condições de trabalho, e/ou 2. Vai se criar mais um índice para ser corrompido: o cálculo do nível sócio-econômico – junto com os outros existentes e que já estão sendo, hoje, motivo de fraude na rede. Introduzir uma “desculpa” no cálculo, não altera as condições em que a educação está sendo realizada nas escolas. A questão não é de engenharia estatística.

Mais ainda, a questão é que qualquer indicador ao qual se associar uma recompensa ou punição, terá alta probabilidade de ser corrompido pelo poder que tem em permitir o acesso à recompensa ou a eliminação da punição (D. Campbell, 1971). Este “behaviorismo tardio” não vai dar resultado e só vai ser mais uma “experimentação” que se faz com toda a rede. Tais políticas não estão consolidadas, vivem “fazendo água” e sendo reformatadas.

Para os professores a política de bônus não interessa. O que tem que ser assegurado é salário digno, formação e condições de trabalho. Felizmente, a APOESP – sindicato da categoria – tem clareza disso.

Mas, aguardemos pela “nova fórmula”…

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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