Wellington, Rio de janeiro

Postado originalmente na Uol em 8/04/2011

Há oito anos, a propósito de um massacre em uma escola alemã, escrevi este artigo e enviei para a Folha de São Paulo. Foi recusado. Apesar das diferenças entre os casos, a questão de fundo, permanece a mesma. Na Folha de São Paulo de hoje, (8-04-2011) Eliane Castanhêde escreve: “É preciso tentar entender o que se passa nas escolas brasileiras, que tipos de violência e humilhação Wellington sofreu vida afora e como a família adotiva e as pessoas próximas não viram se aproximar o tsunami de dor, desamparo e violência.” Igualmente, é preciso que nos questionemos sobre o projeto que temos a oferecer para a juventude. Hoje, é passar no ENEM, pouco para uma juventude que precisa, além de português e matemática, ser formada afetiva, criativa e emocionalmente. Como diz Eliane Castanhêde: “De nada adianta, porém, reduzir a tragédia ao drama pessoal e aos demônios de Wellington. (…) Há muito mais em jogo.”

 AOS “ROBERTs” COM CARINHO…

 Luiz Carlos de Freitas (escrito em 2002)

“Robert, já não faz sentido, mas atire em mim…” Estas teriam sido as palavras de um professor que tentava impedir que o ex-aluno Robert Steinhaeuser (19), expulso da escola em fevereiro, continuasse a fuzilar professores e alunos nesta mesma escola alemã esta semana. O fato chocou mais pela extensão dos atingidos do que pela sua existência, pois repete o acontecido em outros países como Japão e Estados Unidos onde também alunos revoltados resolveram “fazer justiça” com as próprias mãos. O assunto é polêmico e delicado. Certamente comporta vários ângulos de análise.

O que quero destacar aqui, sem prejuízo de outros aspectos, é que o motivo da revolta de Robert esteve, pelo menos em parte, ligado à sua expulsão da escola por faltas não justificadas – e não teria ocorrido por notas. Expulso, não poderia fazer o Abitur – exame que permite acesso a níveis superiores de educação. Com isso, o aluno sentiu-se com seus horizontes de vida limitados e teria reagido de forma drástica matando de sala em sala 17 pessoas, entre elas 13 dos 53 professores da escola (incluída a Vice-Diretora).

O fato deveria reacender uma discussão importante em relação à escola: para que estamos formando nossos estudantes? Ao contrário disso, ele está ganhando conotação policial e de controle de porte de armas… Sintoma de que algo não anda bem tanto na escola, como na nossa sociedade contemporânea.

O acontecido deve ser um alerta. Estamos apertando o cerco sobre a escola, sobre os professores e sobre os alunos. Os processos de reestruturação produtiva assumem a escola como um instrumento de facilitação da acumulação de riqueza e com isso imprimem novas exigências. Governos, assumindo esta tarefa, criam sistemas inteiros de “avaliação” que pretendem “controlar” a qualidade da educação esperada na “porta da fábrica”. Mas com que finalidade estamos formando? Para que estamos avaliando? Insistimos na verificação do domínio de português e matemática, mas e os outros aspectos da formação humana? Os pais pressionam, igualmente, para que as escolas instruam – querem que seus filhos passem nos vestibulares. Mas e a formação? Estamos correndo o risco de criar “maníacos do parque” bem instruídos em português e matemática. Processos de avaliação brincam com o futuro dos alunos num abrir e fechar de portas frenético ao sabor do mercado.

Há o lado moral. Vão dizer que estamos defendendo o assassinato como forma de reação. Mas é claro que isto é uma maneira de desconversar e sair do tema. A questão está ligada aos fins da formação humana, ao papel da escola como formadora e não apenas como instrutora. Não basta ensinar bem português e matemática é preciso, além disso, formar valores. Robert certamente aprendeu muitas coisas na escola, mas teve que ser alertado por um professor sobrevivente, em meio a uma situação dramática, de que não fazia sentido continuar matando. Trancou-se em uma sala e em seguida suicidou-se. A vida dos outros e a sua, igualmente, não tinham sentido para ele. A tentativa de ensinar valores a Robert talvez tenha chegado muito tarde.

Robert é uma exceção – dirão. Será? Bem, mesmo assim, esta exceção custou a vida de 17 pessoas. O maior massacre no pós-guerra da Alemanha. Mas como explicar a expulsão por faltas em um aluno com aproveitamento? Como explicar a própria expulsão em si como forma de educação – independentemente do desempenho?

Fico imaginando o drama de Robert. Sou solidário com ele – ainda que não com a forma usada. Os “Roberts” são produzidos por uma estrutura escolar e social que busca a excelência da instrução e se esquece de investir na excelência da formação humana. Talvez estas pessoas todas não tenham morrido em vão – depende de levarmos a sério o acontecimento e fazermos uma profunda reflexão sobre o que estamos querendo da escola – governo, pais, professores e alunos. Transformar o problema em uma questão de porte de armas não agrega nada. Como disse sabiamente o Chanceler alemão Gerhard Schroeder, a propósito do caso: “Eu acho que todos nós precisamos de tempo para superarmos isto em nossas mentes. Há questões aqui que a sociedade tem que responder como um todo”. Haverá tempo ou já estamos na barbárie?

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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