As Instituições formadoras no Manifesto (IX)

Postado originalmente na Uol em janeiro/2011

 Antes de entrarmos na questão das agências formadoras, algumas palavras adicionais sobre o enfoque do Manifesto em relação aos profissionais da educação.

Ao invés de soluções baseadas no aumento da “confiança relacional” (Bryk, 2002, 2010) intra e extra escolar, no aumento do envolvimento dos profissionais na escola, as propostas do Manifesto promovem o uso de soluções que têm como base desconfiar e “envergonhar” a escola e os profissionais da educação como forma de obter resultados de curto prazo dos alunos nos testes (Taubman, 2009) independentemente das condições de trabalho e das crianças. Precarizado e envergonhado, o professor da escola pública passa a ser, paulatinamente, o único responsável por tudo, ocultando a responsabilidade das políticas públicas e das condições de vida da população. Este caminho, prepara a privatização subsequente da escola pública imersa em descrédito. Essa visão de uma escola controlada, faz com que um importante limitador da eficácia da escola não seja levado em conta pelos nossos reformadores: o professor horista. Mas como a aposta não é na escola como uma instituição e sim no controle das pessoas, esta condição não incomoda, pois não está em jogo o fortalecimento das relações profissionais.

Mesmo que os liberais admitam a existência de outros fatores que afetam o ensino, por ideologia, tendem a defender que a escola deve fazer com que o aluno supere estes fatores, o que seria até razoável se acompanhado de outras ações de política econômica e social, mas, em seguida, reduzem a ação da escola à ação do professor e o responsabilizam sozinho pela empreitada toda. Transformam desigualdade econômica e social em desigualdade acadêmica a ser eliminada pelo professor, “ignorando” os vínculos entre desigualdade acadêmica e social e ignorando os recentes estudos sobre o efeito da vizinhança da escola sobre ela. Feito isso, as impossibilidades de concretizar esta utopia são vistas como produto da falta de qualidade do professor e de sua formação. Se os mais pobres não aprendem é porque o professor não sabe ensinar. Há que “entusiasmá-lo” usando a lógica dos negócios.

Este modelo, é preciso insistir, também permite “justificar” processos de privatização da escola pública que embora não sejam tratados aqui neste item, o serão mais adiante no Manifesto com a proposição das Charter’s Schools americanas – de duvidosa eficácia – favorecendo as ONGs e Fundações – com ou sem fins lucrativos, justificada pela ideia da “escolha”.

Mas antes disso, eles precisarão destruir as atuais instituições formadores dos profissionais da educação e submetê-las igualmente a controle, o que será feito no item seguinte “A reforma das Faculdades de Educação e Revitalização dos Institutos Superiores de Educação”.

A solução apresentada para o tema das agências formadoras é fazer “uma revolução nas faculdades de educação e no seu currículo”. Segundo os reformadores, os futuros professores precisam “aprender bem os conteúdos [de ensino] e precisam de menos teoria e mais didática aplicada à sala de aula.”

A visão é, portanto, pragmática: formar professor não é formar um educador, é simplesmente formar alguém que saiba um conteúdo e tenha uma forma de apresentar o conteúdo didaticamente. Nisso se resume a concepção de educação dos novos reformadores. Eles acham que as agências formadoras “gastam tempo excessivo com teorias abstratas” e “gastam também muito tempo em discussões ideológicas e leituras sobre sistemas sociais”.

Os reformadores acham que eliminar a ideologia não é ideológico.

As propostas ainda incluem: “Estabelecer um currículo básico nacional”; “adequar os critérios do sistema de avaliação do MEC e da CAPES para cursos de formação de professores”, leia-se: certificação de cursos via Capes; e “implantar um programa nacional de residência docente” com ênfase no “manejo de classe” (sic) e técnicas modernas de ensino.

Entre as soluções “criativas” que sugere está a de criar “caminhos alternativos para a formação de um professor, como, por exemplo, a flexibilização dos critérios para conversão de um bacharel de outra disciplina em um professor de educação básica.  Como o foco é no conteúdo a ser ensinado e não no tempo vivido pelo aluno, esta “conversão” é vista como solução.

A proposta dos reformadores visa destruir a profissão e suas agências formadoras para adequá-las à lógica dos negócios. É aqui que a batalha ideológica é intensa, pois visa impedir a formação mais ampla – filosófica, sociológica – dos professores, deixando-os em condições de absorver as teses de mercado. Por fim, cabe observar que há pelo menos 30 anos a ANFOPE tem propostas para modificar a formação dos profissionais da educação, fato “ignorado” pelos reformadores.

Infelizmente, para os proponentes do Manifesto qualquer coisa que esteja fora da ideologia dos mercados, é corporativista – excetuando o próprio mercado – outra petição de princípio que se recusam a explicar. No fundo é a ideia de que o mercado é o grande saneador, imparcial e objetivo.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em A proposta, Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s