O Manifesto: terceiro macrotema (XII)

Postado originalmente na Uol em janeiro/2011

O terceiro macrotema do Manifesto dos novos reformadores é destinado à Reforma da Estrutura da Escola e Novos Sistemas de Ensino.

O preâmbulo desta parte mostra a que veio. Os reformadores estão preocupados com o fato de que em 20 anos o Brasil poderá ser a quinta maior economia do mundo, e isso não é compatível com a sua classificação na área da educação. Neste ritmo, não haverá um salto qualitativo, dizem, como o de países como a China que estão priorizando a educação. Primeiro, não sabemos como está a educação na China. Sabemos como está na cidade de Shangai (uma cidade com características muito particulares), porque participou pela primeira vez do PISA de 2009. Foi bem colocada. Mas isso não é a situação da China. Segundo, todos sabemos que a China precisará de mais educação para apoiar o desenvolvimento econômico que já se torna visível. Muito se fala de direitos humanos, mas tente ter um sindicato que defenda os interesses dos trabalhadores na China. Curiosamente nenhum meio de comunicação sente a falta deles na China, apesar de noticiarem constantemente a não observância dos “direitos humanos” naquele pais. A situação dos trabalhadores é lamentável. Exemplo do dia aqui.

Mas ter mão de obra abundante, qualificada é apenas um dos motivos para se investir em educação e não o principal. Ocorre que a educação é vista, pelo liberais e conservadores, como um subsistema do setor produtivo. Por isso, limitam-se a esta questão. Daí frases ocas como “salto qualitativo almejado por um país que pretende se tornar a quinta maior economia do mundo em 20 anos” ou “preparar nossos alunos para o século 21”, etc. O que está em jogo é produzir mão de obra abundante, qualificada (nos termos das necessidades empresariais) e, o que é mais fundamental para as corporações: barata – se for pouca, encarece.

A petição de princípio continua – ou seja afirmações que não são demonstradas. Logo no início se lê, após listar as receitas para melhorar a escola brasileira: “essas são políticas já adotadas nos países desenvolvidos que apresentam os melhores resultados nas avaliações internacionais”. Pronto, está tudo justificado. O Manifesto é, como se vê, um texto preguiçoso. Nenhuma pesquisa é arrolada ou citada. Tudo está justificado pelo fato de ser usado pelos “países desenvolvidos”. Não serve nem para um TCC, ou seja, para um Trabalho de Conclusão de Curso – muito menos como texto orientador da política educacional brasileira.

Como já afirmamos, nenhuma das recomendações do Manifesto está livre de controvérsias. Mas, para os reformadores, basta dizer que “as pesquisas indicam que”, “está suficientemente comprovado pelas pesquisas” e por aí vai, sem se dar ao trabalho de indicar tais pesquisas para que possam ser examinadas.

É, portanto, um documento puramente ideológico.

Os reformadores precisam aprender a escrever uma proposta de trabalho como os liberais americanos, já que copiam tanta coisa deles. Lá, na matriz, há um “blueprint”, como o feito pelos nossos reformadores, mas há também a divulgação, em separado, das fontes de pesquisa que orientaram a elaboração do documento. Os links estão abaixo:

Para o Blueprint de Obama, plano diretivo do governo Obama para a Educação;

Para a pesquisa que sustenta a proposta do Blueprint.

Isso permite que os pesquisadores independentes acessem as bases de sustentação da proposta e possam verificar sua consistência, como fazem Mathis, W. J. e Welner, K.G. em “The Obama Education Blueprint: researchers examine the evidence” (2010).

O manifesto dos novos reformadores omite as pesquisas e quando se procura no link das apresentações pessoais dos participantes do evento que motivou o documento, não se encontram mais do que afirmações igualmente vazias de base empírica.

Para os reformadores, deve ser tão óbvio que estão com a verdade, que já dispensam ter que demostrar suas bases empíricas. Certamente acreditam que se nós não as conhecemos ainda, é porque estamos desinformados, ou somos “pedagogos”.

Mas não é assim que a ciência funciona. Não podemos acreditar nos reformadores por um ato de fé. Eles estão obrigados a desfilar suas fontes, pois há controvérsias em quase todas as receitas ali apresentadas.

Se os novos reformadores querem ser levados a sério, precisam fazer um documento sério que deixe de lado a fraseologia oca e ideológica e apresente dados que suportem suas receitas.

Apesar disso, vamos ao macrotema 3.

O que propõem:

1.       Educação infantil de qualidade

2.       Ampliar o número de horas dos alunos na escola – escola de período semi-integral.

3.       Viabilizar a existência de escolas públicas com gestão autônoma no Brasil, – ou seja, privatizar a escola pública.

4.       Estimular programas de reforço do aprendizado, aceleração de estudo e correção de fluxo escolar.

Este macrotema passa por um conjunto de questões que não tenho condições de examinar sozinho. Isso vale para temáticas anteriores também. Há especialistas em cada uma destas áreas que têm muito a dizer. Uma proposta para uma nação, não pode ser feita por um grupo de pessoas restrita, basicamente, a homens de negócio ou políticos com inserção em educação, precisam ser envolvidos especialistas com ampla base empírica e considerar outras visões de educação.

Entretanto, vou tentar dar uma contribuição em alguns destes pontos, em especial tentando trazer aquilo que os liberais ocultam – as controvérsias nestas temáticas, a partir da experiência dos “países desenvolvidos”.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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