TFA: voluntários mal treinados para escola de pobres …

Postado originalmente na Uol em 16/07/2010

O Portal UOL Educação trouxe no dia 14-07-2010 notícia sobre a Teach for America (TFA), uma ONG sem fins lucrativos, (mas que vive de polpudas doações, por exemplo, da Walton Family Foundation, uma das quatro ou cinco fundações as quais ditam a agenda educacional do governo americano) que busca voluntários para trabalhar em escolas públicas com índices elevados de pobreza.

A introdução no mercado de trabalho de milhares destes professores improvisados (junto com outras ações de credenciamento) pode aliviar a pressão pela formação adequada de mais professores e ajudar a aliviar a pressão por melhores salários, aumentando artificialmente a “oferta de professores” o que permite adiar investimento público. Ao mesmo tempo, professores melhores formados são movimentados para atender os alunos mais bem posicionados economicamente. O impacto, entretanto, no conjunto do sistema é pequeno. Os Estados Unidos têm 4 milhões de professores e a TFA lança no mercado em torno de 10.000 “professores” por ano. Levando-se em conta que 80% não ficam, tem-se uma dimensão do problema.

Para ser professor na ONG basta uma inscrição online, uma entrevista por telefone, a apresentação de um plano de aula, uma entrevista pessoal, um teste escrito e uma discussão em grupo monitorada.  Um curso de cinco semanas os prepara para atuar como professores. Não é preciso ser formado em pedagogia ou ter licenciatura. Fácil. Algo assim como aquela antiga “Operação Rondon” que os governos militares institucionalizaram, melhorada.

Afinal, é para a pobreza mesmo. Mas note que sempre que se quer ocultar a indústria educacional  a justificativa é a pobreza. Parte do mercado educacional se esconde atrás da pobreza ou busca nela sua “justificativa”. Trata-se na verdade de pessoal desempregado ou recém formado sem emprego que fica na ONG durante algum tempo até passar a crise e arrumar outro emprego.

A própria matéria do UOL diz que neste ano houve um aumento na demanda por vagas na TFA de 32% e explica porque: “há pouca dúvida de que os números foram alimentados pela crise econômica, que limitou as opções de emprego até mesmo para indivíduos que se formaram pelas melhores universidades nos Estados Unidos”.

80% destes desempregados mal treinados que entram na profissão de professor da TFA  abandonam-na  em até três anos (Boyd and Grossman; Kane and Rockoff).

Como diz Diane Ravitch, um professor demora dois ou três anos para se tornar qualificado, após devidamente formado, na prática. Se os professores da TFA saem em até três anos, deixam a escola exatamente no momento em que poderiam vir a ser mais eficientes no ensino (p. 191).  Para ela é uma “ilusão pensar que a TFA pode fechar a defasagem de desempenho” destes alunos situados em escolas mais pobres.

Sobre esta questão pode-se acessar também o debate entre Julie Mikuta e Arthur Wise, sobre a TFA.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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