USA: Lições para o ENEM

Os americanos estão fazendo um pequeno movimento em direção à assimilação das críticas aos testes padronizados. O SAT – algo parecido com o nosso ENEM – vai passar por ajustes. Ainda que pequenos, revelam que certas críticas estão ganhando força nos EUA.

Um exemplo é o abandono das punições aos alunos que “chutam” uma resposta quando não sabem uma questão. Como publicamos aqui neste blog, um dos parâmetros da TRI, tecnologia que é a base das medições em testes hoje, é o chamado “chute”. Como a correção pela TRI não é pelo número de questões acertadas, mas leva em conta a dificuldade das questões, quando o aluno “chuta” ele pode ser penalizado no computo geral da pontuação.

“Dizendo que seus exames de admissão não focam o suficiente nas habilidades acadêmicas importantes, o College Board (organização que administra e avalia testes padronizados de aptidão para a admissão em universidades) anunciou na quarta-feira, 5, uma reavaliação fundamental do SAT (sigla em inglês para Teste de Aptidão Escolar, um exame nos formatos do Exame Nacional de Ensino Médio, o Enem, no Brasil) pondo fim à antiga punição por “chutes” errados, eliminando palavras obscuras do vocabulário e tornando opcional a redação.”

Tornar a redação opcional, não é bem um avanço, digamos. Soa mais como um retrocesso. É bem possível que aqui o que se quer é retirar de cena um aspecto da medição que é não só de difícil avaliação como também custoso.

Mas a principal crítica que agora é pelo menos reconhecida fica por conta dá própria incapacidade de um teste padronizado avaliar corretamente os alunos e a inadequação de não se considerar todo o esforço avaliativo dos professores do ensino médio que, sem dúvida, por terem acompanhado durante anos seus estudantes sabem melhor as capacidades desenvolvidas por eles. Para os organizadores:

“O novo SAT não vai aplacar todas as críticas aos testes padronizados. Há muito que os críticos assinalaram – e Coleman admitiu – que as notas no ensino secundário são um melhor indicador de sucesso universitário do que as pontuações em testes padronizados. Nos últimos anos, mais faculdades adotaram o caráter opcional dos testes, permitindo que estudantes dispensem os exames e entreguem suas notas, textos escritos e, talvez, um paper corrigido.”

Somente 20% dos professores do ensino secundário americano consideram que o SAT avalia melhor do que se as notas dos alunos obtidas nas suas disciplinas fossem consideradas. Possivelmente, a melhor solução esteja na possibilidade de se combinar todos estes esforços avaliativos de forma integrada.

Mas não há que se esquecer que o pano de fundo, de fato, é a reduzida quantidade de vagas ofertada em nosso ensino superior e a desigualdade social reproduzida ao longo do próprio sistema educacional.

Fica aí a experiência de quem usa testes padronizados há décadas para as autoridades brasileiras se inspirarem…

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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