Meritocracia articulada com terceirização

Recebi a seguinte propaganda de uma empresa de treinamento hoje: “O que é meritocracia?” A empresa oferece um conjunto de DVDs com a seguinte descrição:

A gestão pela meritocracia é o modelo de negócios que está conquistando o mundo. O principal benefício desse modelo é que ele incentiva as pessoas a ultrapassar os limites e atingir resultados acima da média, sabendo que com isso cria novos patamares de excelência dentro da empresa. Esse modelo tem foco absoluto no resultado; ninguém fica sem metas, cumpriu: elogios e prêmios – não cumpriu: demissão. Eles são implacáveis com a mediocridade. Nessa coleção você ficará conhecendo os princípios e a prática do sistema meritocrático de gestão de pessoas e empresa.”

Eis porque o ponto de vista dos negócios não serve para a educação. Lá, pode haver ganhadores e perdedores. Em educação não: só ganhadores. E isso vale para todos os que participam do processo. Portanto, o enfoque é construtivo e não baseado na segregação.

A sinopse do filme 2 é interessante:

“O que Steve Jobs, o maior empresário do mundo nas últimas décadas e Jorge Paulo Lehman, o empresário brasileiro que tem a maior cervejaria do mundo, têm em comum? Eles são implacáveis com as pessoas medíocres. Suas empresas se tornaram gigantes baseadas no seguinte princípio: quem entrega o resultado esperado está dentro, quem não entrega está fora.”

Há quem pense que meritocracia é ganhar bônus quando a nota média da escola aumenta e não ganhar quando não aumenta, mantendo o emprego. Neste sistema não existe esta possibilidade e a ideia é bem mais que isto. Esta é a filosofia pela metade. Na meritocracia quem não ganha bônus acaba demitido.

No quadro atual do serviço público a forma como a meritocracia é usada hoje é a possível. Não dá para demitir. No entanto, os reformadores trabalham para mudar este quadro pela terceirização das escolas para organizações sociais (uma modalidade de privatização). Estas poderiam contratar e demitir e portanto aplicar a gestão por meritocracia plenamente.

Como hoje a legislação impede a terceirização das atividades fins e permite apenas a terceirização de atividades meio, eles trabalham intensamente – com apoio do Ministro Levy – para mudar esta lei e permitir terceirização das atividades fins. Veja a Folha de São Paulo na página 3, de hoje (31-01-15) aqui e aqui.

Enquanto esta lei não for aprovada, para esconder o problema de terceirizar atividades fins que não são permitidas e não chamar a atenção do Ministério Público, as Secretarias de Educação divulgam que não estão terceirizando o pedagógico e que estão terceirizando somente a gestão – como se isso fosse possível de ser separado em uma escola.

A nova lei, além de resolver isso, vai permitir inclusive que empresas se associem para participar de licitações. Vem aí uma grande festa para os empresários brasileiros.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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3 respostas para Meritocracia articulada com terceirização

  1. Edson Almeida disse:

    Perspectiva terrível, para fazer uma comparação simples: há alguns anos, a terceirização nas escolas públicas estaduais de São Paulo atingiu os funcionários do quadro de apoio (inspetores, auxiliares de secretaria etc.), o salário era medíocre, desrespeitoso até, pela importância desses profissionais na escola. O que veio a seguir, então, foi o pior, mas esperado: a grande maioria das empresas contratadas deram calote nos trabalhadores, algumas desapareceram e o ministério público estadual teve que negociar uma solução com a SEE-SP. Acredito que, no caso dos docentes, pode acontecer o mesmo: salários baixos, humilhações e a obrigação de atingir metas e resultados que nunca serão alcançados dadas as circunstâncias precárias da rede pública. Mas as empresas terão que justificar sua contratação, aí deverá entrar em ação a fraude no sistema de avaliação, certamente…

  2. Nisia Maria da Silva Neto disse:

    Prof.Luiz Carlos, gosto muito de suas postagem que nos levam à sérias reflexões. Esse sistema de bônus mérito em São Paulo só aumentou o descontentamento entre professores e gestores e incentivou diversos tipos de fraudes. (Fui Diretora de uma imensa escola pública até 2012). O que presenciei em termos de fraude para que a escola atingisse a meta, todos que estão fora da escola podem duvidar e até mesmo Deus. #absurdos#artimanhas. Na atual conjuntura nem sei se é melhor privatizar ou não. A Escola Pública está à deriva e nem mais podemos dizer á que se destina essa escola #Só de pobres muito pobres. Não acredito mais que o seu destino possa ser mudado. Quero ter Esperança, inda que vã, como diz o grande poeta Fernando Pessoa . Abraços

  3. A meritocracia não aumenta a qualidade na Educação, em Foz do Iguaçu PR, a implantação da meritocracia (que consiste no pagamento de 14º e 15º salário vinculado a metas de IDEB) foi paradoxal, por um lado aumentou o IDEB das escolas mas por outro lado gerou alguns efeitos colaterais que não tem nada a ver com qualidade da educação.

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