Condições das escolas: também uma desculpa?

Um grupo criativo de pesquisadores aplicou a TRI – teoria da resposta ao item –  no cálculo da “proficiência” da infraestrutura das escolas brasileiras com informações do Censo Escolar da Educação Básica de 2011. Pouco divulgado, ele foi publicado em 2013. Participaram do estudo Dalton Francisco de Andrade, um dos maiores pesquisadores da TRI no Brasil; Joaquim José Soares Neto, ex-presidente do INEP; Girlene Ribeiro de Jesus e Camila Akemi Karino.

O que se constatou foi que apenas 14,9% das escolas brasileiras têm infraestrutura adequada para o ensino, ou seja, as escolas deste nível, em geral, possuem uma infraestrutura mais completa do que os níveis anteriores (elementar e básica), o que permite um ambiente mais propício para o ensino e aprendizagem. Essas escolas possuem, por exemplo, espaços como sala de professores, biblioteca, laboratório de informática e sanitário para educação infantil. Há também espaços que permitem o convício social e o desenvolvimento motor, tais como quadra esportiva e parque infantil. Além disso, são escolas que possuem equipamentos complementares como copiadora e acesso  à internet.

O estudo ainda constatou que somente 0,6% tem um estrutura considerada avançada, ou seja, as escolas neste nível, além dos itens presentes nos níveis anteriores, possuem uma infraestrutura escolar mais robusta e mais próxima do ideal, com a presença de laboratório de ciências e dependências adequadas para atender estudantes com necessidades especiais. Veja resumo do estudo abaixo.

“Promover a educação requer a garantia de um ambiente com condições para que a aprendizagem possa ocorrer. É importante proporcionar um ambiente físico, aqui denominado infraestrutura escolar, que estimule e viabilize o aprendizado, além de favorecer as interações humanas. Este artigo apresenta uma escala de infraestrutura escolar que foi construída utilizando como ferramenta a Teoria de Resposta ao Item e baseando-se em informações referentes às escolas obtidas no Censo Escolar da Educação Básica 2011. Foram estabelecidas quatro categorias: Elementar, Básica, Adequada e Avançada. Com base na escala, foi feita uma análise comparativa da infraestrutura escolar por região do país e por dependência administrativa. Acreditamos que os resultados obtidos podem ser úteis para orientar as políticas públicas de educação e para fundamentar estudos futuros sobre o impacto das condições materiais das escolas na qualidade do ensino.”

Baixe aqui o estudo completo.

O estudo é o melhor antidoto para estas falas feitas por reformadores dizendo que não falta dinheiro na educação, e sim falta gestão, empenho dos profissionais da educação. Recentemente, Viviane Senna defendeu ser uma desculpa considerar a interferência da pobreza na aprendizagem.

Agora estamos vendo também que é nestas condições das escolas que se pretende intensificar a pressão sobre os professores, estudantes e gestores com processos meritocráticos.

Não bastam os efeitos negativos das condições de vida dos estudantes fora das escolas, somam-se a estas as condições internas de infraestrutura das escolas brasileiras. Isto também é desculpa?

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Links para pesquisas, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s