Nenhuma consultoria para trás

Nos Estados Unidos há uma lei que se chama “Nenhuma Criança deixada para Trás”. A ideia foi obrigar as escolas a ensinar todas as crianças. Não funcionou e acabou virando chacota. Uma destas é ser chamada de “Nenhuma Consultoria deixada para Trás”. Isso porque, apesar de não ter funcionado com as escolas, serviu para engordar o orçamento de uma série de empresas educacionais que operam com consultoria educacional e avaliação.

No Brasil, este movimento está começando. Mostrei aqui em alguns posts recentes como uma série de personagens que passaram pelo governo, estão agora, fora dele, defendendo a privatização. Vários personagens da história da implementação de políticas de responsabilização no Brasil, quando deixam o governo, temos depois aparecem em empresas de assessoria educacional, Institutos etc. No governo, difundem e criam formas de fixar suas ideias privatizantes e criar mercado educacional, fora do governo, integram o corpo diretivo e acadêmico de empresas privadas educacionais.

Algo semelhante acontece também com o setor financeiro e até se criou uma regra chamada de “quarentena” que obriga as pessoas que saem deste setor a não integrar nenhuma empresa por um determinado período (curto) de tempo. Não serve para nada, mas atesta a preocupação.

Além de Ricardo Paes de Barros, hoje no Instituto Airton Senna, e que mencionei em post anterior, é o caso de outros dois personagens que ocuparam cargos no INEP e que hoje estão ligados a empresas. Um deles, Reynaldo Fernandes, conhecido como mentor do IDEB, recentemente apareceu defendendo as Escolas Charters e a privatização. Entre 2005 a 2009, Reynaldo foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), no Ministério da Educação e implantou o IDEB para as escolas públicas. Atualmente, ao mesmo tempo em que defende a privatização, pertence à iniciativa privada educacional. O outro é Amaury Gremaud que à época em que Reynaldo ocupava a Presidência do INEP, era Diretor de Avaliação da Educação Básica entre 2006 e 2008, portanto também trabalhou na implantação do IDEB.

Estes dois últimos, hoje, compõem o quadro da empresa de assessoria educacional chamada METAS avaliação e proposição de políticas sociais:

“A METAS elabora e avalia políticas sociais. Dispõe de produtos desenvolvidos internamente e customizados de acordo com o cliente, bem como atende às demandas de projetos personalizados para as necessidades de cada cliente. A empresa inova o conceito de consultoria na área de economia. O foco de atuação está em temas como educação, saúde, violência e desenvolvimento urbano.”

Note: não há nada demais em ser da iniciativa privada e defender tais ideias. Isso não diminui em nada estas pessoas. É uma atividade legítima. Mas é claro que têm uma visão de mundo e uma experiência que está muito distante da problemática diária das escolas públicas. São economistas, estatísticos entre outros e não profissionais da educação com experiência na área. E um detalhe: não sabem ouvir.  Suas ideias quando estão no governo, queiramos ou não, contribuem para criar um mercado educacional que depois é atendido por empresas privadas.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

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