Newark: “Por que não fazer a coisa certa?”

Dale Russakoff publicou recentemente o livro: “The prize: who’s in charge of america’s schools?” (2015). Neste livro, ele nos dá uma descrição do que foi a tentativa de Mark Zuckerberg, dono do Facebook, de estrear na filantropia apoiando a reforma empresarial da educação de Newark no estado de New Jersey. A ideia era transformar Newark em um símbolo da excelência educacional para toda a nação. Foram doados 100 milhões de dólares. Este dinheiro, segundo o autor, aparentemente “enriqueceu” muita gente, menos os estudantes de Newark.

Com a decisão de passar 40% das crianças para escolas charters a cidade viu seu sistema escolar público ser destruído. As escolas charters escolheram estudantes mais bem posicionados econômica ou motivacionalmente, deixando para as escolas públicas dos bairros (quando não foram fechadas) aqueles com maiores dificuldades.

O livro de Russakoff nos fala da experiência de Newark e de como uma liderança negra e popular foi alçada a instrumento de um plano para reformar as escolas públicas tentando transformá-las em um exemplo nacional. O desafio era fazer isso em uma localidade extremamente pobre para mostrar que as escolas charters eram melhores do que as escolas públicas consideradas caóticas. A conexão com as fundações e financiadores de Wall Street foi estabelecida para captar recursos privados que catapultassem a política de implantação de escolas charters transformando Newark na “capital das escolas charters” dos Estados Unidos. Serviria de exemplo nacional.

Entre dezembro de 2009 e julho de 2010 constroi-se um pacto entre o governador Chris Christie do estado de New Jersey e o prefeito de Newark, Cory Booker, uma liderança popular. Poucas cidades dos Estados Unidos sofreram um impacto da recessão econômica como Newark, gerando uma pobreza brutal e causando o êxito da população, especialmente branca. Apesar das diferenças entre o governador e o prefeito, o olhar destes para a educação pública era o mesmo: viam um sistema dominado pelos sindicatos e políticos que não focava nas crianças.

O modelo de intervenção foi: introdução de escolas charters, responsabilização no estilo usado nos negócios para diretores e professores baseada na pontuação dos testes dos estudantes, bônus para os melhores desempenhos. Houve debate e questionamento se estas medidas produziriam os efeitos que pensavam. Décadas de pesquisa apontavam para uma maior influência das experiências tidas no lar e na vizinhança, do que a influência da sala de aula poderia produzir.

Mas os reformadores estavam convencidos do contrário. Eles achavam que escolas bem administradas com flexibilidade para recrutar os melhores professores poderiam ter impacto superior aos efeitos da pobreza, lares desfeitos e exposição à violência. Booker e seus reformadores respondiam que “sabiam o que funcionava” e que estes argumentos estavam apenas procurando justificativa para não ensinar. O governador Christie então desafiou: “Por que não fazer a coisa certa?” E os filantropos foram então chamados para financiar o desafio.

Em um rascunho do plano de reforma da educação de Newark, Russakoff resgata a posição de Booker:

“Ele defende uma reforma impositiva de cima para baixo, alertando que um processo político mais aberto poderia ser capturado pelos sindicatos e pela máquina política.”

O autor conta como o prefeito de Newark obteve a doação, em um jantar com grandes nomes da filantropia americana, entre eles Zuckerberg que à época queria aplicar em uma grande ação na área educacional, em um local pobre, para servir de um efeito demonstração que provasse ser possível melhorar o desempenho de crianças pobres. Na verdade, Zuckerberg estava interessado em aprender sobre filantropia, era um novato no ramo.

O acordo para a doação foi construído em 2010 a partir de uma agenda produzida pela McKinsey. A implementação da proposta teve o cuidado de envolver a comunidade em uma campanha chamada “Parceiros da Educação de Newark”: o lema era “É nosso objetivo ouvir a voz de cada cidadão de Newark”. Mas, isso de fato foi menos um processo de envolvimento e muito mais “relações públicas”.

200 milhões de dólares, incluindo os 100 milhões de Zuckerberg, e cinco anos mais tarde, Howard Fuller resume o sentimento de frustração que tomou conta dos reformadores empresariais dizendo: “Penso que muitos de nós reformadores – e eu me incluo nisso – temos sido muito arrogantes.”

Na eleição de 2014 para substituir o prefeito Booker (agora um Senador), a educação foi uma questão chave. O vencedor foi Ras Baraka, um ex-diretor de colégio que tomou posição contra muitas das mudanças que estavam sendo feitas como resultado da doação de Zuckerberg.

Em outubro de 2015, Baraka, o atual prefeito, reagiu negativamente à possibilidade de expansão das escolas charters na cidade dizendo que isso seria algo altamente irresponsável. Ele considerou que a expansão se faz às custas dos recursos que deveriam ser gastos com 60% das escolas públicas ainda existentes em Newark. Mas para chegar a essa constatação, um longo caminho foi trilhado na pretensa “capital das escolas charters”. É isso que mostra o livro de Russakoff.

Para o sindicato dos professores de Newark, a expansão das charters continua a selecionar os alunos de melhor desempenho, deixando as escolas públicas com uma população mais concentrada de alunos com maiores dificuldades e mais caros para educar – ao mesmo tempo em que drena do sistema público os recursos financeiros necessários para fornecer a esses alunos uma educação de qualidade.

Zuckerberg está aprimorando seus métodos de filantropia e agora está interessado na Baía de San Francisco. Como fica o financiamento das escolas em Newark?

“No ano passado, Zuckerberg e sua esposa, Priscilla Chan, anunciaram uma doação de US $ 120 milhões para melhorar a educação, especialmente de estudantes de baixa renda, na área da Baía de San Francisco. A startup de Zuckerberg “Education Foundation” diz que está aplicando algumas lições aprendidas em Newark, especialmente sobre “a importância de parcerias comunitárias significativas.”

Entre o que diz ter aprendido está o entendimento de que deve trabalhar menos com políticos e com a burocracia e mais com a comunidade e com as escolas. Reformas de cima para baixo, não se sustentam ao longo do tempo.

Ao contrário do que afirmaram, aparentemente, os reformadores não sabiam “como fazer a coisa certa”. E não há garantias de que tenham de fato aprendido.

A aparente superioridade das charters em Newark é fortemente questionada.  (Ver aqui e aqui.) Jersey Jazzman, segundo Ravitch:

“Usando dados do estado, ele demonstra que as escolas públicas de Newark gastam mais em instrução do que as escolas charters da cidade; que elas gastam muito mais com serviços de Apoio ao Estudante – orientadores educacionais, enfermeiros, bibliotecários, psicólogos – do que as charters; que elas gastam mais com pessoal de apoio do que as charters; que elas têm menores custos administrativos do que qualquer charter em Newark; que os custos de salários administrativos é menor nas escolas públicas de Newark do que na maioria das charters de Newark.”

A tentação do atalho vai continuar motivando os reformadores empresariais a achar um caminho rápido para o sucesso contra a pobreza através da educação. Como mostrou Newark, não há. Melhorar as escolas e reduzir a pobreza são ações simultâneas.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para Newark: “Por que não fazer a coisa certa?”

  1. Remo Bastos disse:

    Ótima indicação, acabei de comprar! Outro livro do mesmo quilate, contemplando a papel nocivo da Fundação Gates na educação: No Such Thing as a Free Gift: The Gates Foundation and the Price of Philanthropy, da socióloga por Linsey McGoey, disponivel aqui: http://www.amazon.com.br/Such-Thing-Free-Gift-Philanthropy/dp/1784780839.

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