“Câmaras de eco” do próprio governo

Se a ideia é acelerar o desgaste do atual governo, diria que as ações deste no campo da educação estão corretas. Diziam que Dilma não fazia política e que não ouvia nem conversava. Só não entendo porque o “novo” governo transita pelo mesmo caminho promovendo uma “limpeza” nas câmaras de interface com a sociedade civil, transformando-as em “câmaras de eco” monocromáticas de si mesmo. De fato, isso não é novidade. Como aponta Ravitch:

“… os reformadores vivem em uma câmara de eco. Eles falam um com o outro, eles contam uns aos outros as mesmas histórias, eles não aprendem nada de novo.”

Silenciar a oposição nas câmaras não é nada diferente do desejo dos conservadores e liberais de transformar a própria escola em uma câmara de eco de suas próprias ideias, sem concorrentes, através da sua privatização e de iniciativas como a “escola sem partido”.

Na área da educação, mas não creio que seja uma exceção, o novo governo vai ao pote com muita sede, como me dizia um experiente colega, e coloca-se frontalmente e de forma ostensiva contra a comunidade educacional e sua representação. Só o enfrentamento usado pelos neocons (neoconservadores) americanos, se assemelha a isto. Não consta que tenham se saído bem.

Não foi assim nos governos anteriores. Estas câmaras tinham variadas vozes. Até mesmo cargos em escalões significativos do MEC, como o INEP, foram ocupados por simpatizantes das reformas empresariais da educação – neste caso, sob nosso protesto, pois tratava-se de cargo de confiança e não de câmaras formuladoras de políticas.

É só verificar quais foram os mais recentes presidentes do INEP para ver que não reinava no governo anterior um samba de uma nota só, ou, parafraseando Ravitch, uma câmara de eco dos próprios governistas.

Trata-se de uma atitude isolacionista e que deverá acelerar reações de toda sorte ao longo da comunidade educacional, indispondo o governo com a maioria dos educadores e só dificultando ainda mais o “day after”, pois não há espaço possível para a divergência e para o confronto de opiniões. Todas as pontes são deliberadamente queimadas.

Como em outras partes do mundo onde reinam, na visão dos reformadores empresariais que estão nos cargos atuais do governo, discutir com a área educacional é considerado uma perda de tempo. Para eles a comunidade educacional, entidades e sindicatos não são interlocutores válidos. Pois, são profissionais que, pela sua formação e conhecimento, não se dobram facilmente a quaisquer argumentos. Daí a sistemática eliminação destes dos fóruns de debate e da produção da política educacional e a promoção da inclusão monocromática daqueles que pensam do mesmo jeito. Participação, só sob controle e quando for inevitável.

Depois da “limpeza” do Conselho Nacional de Educação, agora será a vez da “limpeza” ser feita no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica. Depois, quem sabe, o próprio Fórum Nacional de Educação. Várias matérias aguardam andamento no Congresso Nacional onde o governo deverá impor também suas teses unilateralmente, até mesmo contra acordos que vinham sendo construídos anteriormente com as variadas posições.

No entanto, onde esta estratégia foi praticada, apesar de ter garantido a aplicação da política da reforma empresarial (p. ex. no Chile), à medida que o tempo passou, mostrou-se ineficaz para mobilizar as lideranças e a comunidade educacional para alavancar a qualidade da educação. Na última manifestação tínhamos no Chile mais de 100 mil pessoas contra estas políticas.  As consequências foram nefastas. A educação é uma atividade essencialmente colaborativa, participativa e democrática e não há como melhorar a qualidade da educação sem isso.

O retrocesso do governo nas relações com o campo educacional, aparelhando os órgãos em favor da política oficial, irá gerar apenas mais atraso na indispensável melhoria da educação, não importando quanto pareça ser eficaz à primeira hora.

Nenhuma reforma foi eficaz até agora quando feita contra os professores e a comunidade educacional e suas entidades. Conversar consigo mesmo, estando em cargos que demandam articulação e que demandam não só a ação daqueles que concordam com você, pode parecer esperto para quem está no governo, mas é uma burrice benvinda para a oposição, pois acelera a tomada de posição daqueles que se sentirão cada vez mais de fora da geração da política educacional – no caso, muitos, variados e representativos.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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