USA: a luta contra o lobby das charter$

O Wall Street Journal, o Jornal dos investidores americanos, publica um artigo de Chester Finn, Jr., Bruno Manno e Brandon L. Wright que defende a ideia de que as escolas públicas e os conselhos de escolas eleitos são coisas do passado e estão fadados a desaparecer nos Estados Unidos e serem substituídos pelas escolas charters e seu novo jeito de “governar” a educação. O artigo antecedeu o lançamento de um livro dos autores. Não é sem razão que o artigo apareça no Wall Street Journal – leitura obrigatória para grandes investidores.

Os três autores, é bom situar, são associados a organizações que apoiam e financiam a ideia das escolas charters, ou seja, ao Thomas B. Fordham Institute e à Walton Family Foundation.

Segundo os autores, existem hoje cerca de 7.000 escolas charters nos Estados Unidos atendendo 3 milhões de alunos em 43 estados. Só entre 2010 e 2015 foram criadas 1500 novas escolas charters. O movimento das escolas charters tenta maximizar-se e está de olho nos outros 50 milhões de estudantes que frequentam a educação básica em escolas públicas americanas e que possuem um orçamento anual de cerca de 600 bilhões de dólares. Eis a questão: mercado.

O movimento não assusta pela quantidade e muito menos pela sua qualidade contestada em vários estudos, mas pela movimentação de grandes fortunas mobilizadas para introduzir uma ideia errada sobre como se faz educação.

Como aponta Mercedes Schneider não há movimento de massa em favor das escolas charters. Ao invés disso, há um movimento comprado e pago por bilionários, milionários e outros que abraçam a causa da ideologia do livre mercado na educação.

“Finn et al, são apenas parte de uma massa de grupos de apoiadores (think tanks) da reforma empresarial da educação, bilionários e investidores de fundos hedge que tentam impor reformas para os americanos em nome de uma “revolução silenciosa”.”

Segundo Ravitch, o movimento das escolas charters cresceu por causa de investimentos massivos de bilionários como Bill Gates, Broad e Walton, com o suporte político de grupos de direita como o American Legislative Exchange Council (ALEC), governos de direita e o infeliz apoio da administração Obama.

Para os autores do polêmico artigo no Wall Street Journal, defensores da extinção da escola pública:

“O arranjo predominante nas 14.000 redes de ensino da América começa com um conselho eleito. O conselho nomeia um superintendente que administra escolas públicas mais ou menos uniformes, compostas por uma força de trabalho sindicalizada de funcionários do governo. Esta configuração funcionou bem para uma sociedade agrária e de cidades pequenas em que as pessoas passavam a sua vida inteira em um só lugar, as cidades pagavam por suas próprias escolas, e as escolas atendiam à maioria das necessidades da força de trabalho da comunidade local.

Este arranjo não funciona tão bem em um país de cidadãos móveis e cosmopolitas, onde os Estados fazem a maioria das regras de educação e fornecem a maior parte do dinheiro, onde o governo se intromete de inúmeras formas, e onde o descontentamento com os resultados da educação é galopante. Ele não atende as exigências de pessoas que mudam de bairros e cidades, bem como empregos e carreiras, e é inadequado para uma era de agitação fervorosa sobre equalização – e compensação – do tratamento de crianças de diferentes origens, locais e necessidades.”

“A governança destas redes não funciona bem quando conselhos eleitos têm evoluído de painéis de líderes cívicos com espírito público para gangues de aspirantes a políticos e substitutos de professores sindicalizados.”

Para os autores, as escolas charters têm outra organização mais eficaz:

“Como os conselhos [das charters] funcionam mais como organizações sem fins lucrativos do que como órgãos políticos ou órgãos públicos, os seus membros não precisam se candidatar às eleições. Sendo geralmente uma união livre, eles não têm dores de cabeça com negociação coletiva. E com a liberdade que têm de contratar e demitir diretores e professores, e para ajustar o orçamento, currículo e instrução para tornar seus alunos melhores, as escolas charters estão atraindo para seus quadros cidadãos abnegados e líderes comunitários que encontram uma chance plausível para promover a mudança.”

Depois de decretar o fim das relações trabalhistas e da democracia na escola, os autores passam a louvar os bons resultados obtidos pelas charters:

“Suas notas estão disponíveis, e através dos melhores estudos mostram fortes efeitos positivos para as crianças pobres e minorias. Financiado com cerca de três quartos dos dólares por aluno que as escolas tradicionais recebem, muitas charters têm dificuldades para fazer face às despesas e dependem fortemente de filantropia privada e energia empreendedora.”

Tais resultados alardeados, não são corroborados pela pesquisa, como mostra o material reunido neste blog e como resume Ravitch:

“A educação pública, aberta a todos, foi durante muitos anos considerada uma instituição democrática essencial e uma das causas principais do grande sucesso econômico, social e cultural de nossa nação. Finn & amigos esperam e comemoram o seu desaparecimento. Eles tacitamente reconhecem que as escolas charter não têm pontuações mais elevadas do que as escolas públicas. Eles observam que alguns operadores de charters são fraudes. O que eles não admitem é que elas acolhem a hyper-segregação da sociedade americana. Uma das razões pelas quais nossa sociedade funciona é porque as escolas públicas conduzem as crianças de diferentes origens em conjunto, para além das linhas de raça, religião, classe, gênero e etnia. Isso não acontece o suficiente, mas os autores não se importam se isso acontece de fato. Saúdam o retorno da segregação como um passo à frente, não como retrocesso nos nossos ideais.

Da mesma forma, eles não atribuem valor à democracia. Conselhos escolares eleitos são um exercício fundamental da democracia. Eles estão estabelecidos nas constituições estaduais. No entanto, os autores gostariam de substituí-los com a privatização.”

“Quando o movimento charter começou, Finn e Manno escreveram sobre a promessa de escolas charters: em troca de dinheiro público, eles seriam responsáveis por melhores resultados a custos mais baixos. Agora nós sabemos que as charters não são responsáveis, não produzem melhores resultados, a menos que selecionem os estudantes, e não custam menos.”

Para Mercedes Schneider, os autores, ao citarem a cadeia de charters Eva Moskowitz Success Academies como um modelo de escola charter, deixam de dizer que:

 “O Conselho da Moskowitz Success Academies inclui numerosos investidores de fundos hedge. Contudo, se a imagem que se tem de “líderes comunitários” inclui os pais, é melhor olhar para outro lugar. Os membros do conselho da Moskowitz não são o tipo de pessoa cujos filhos estão propensos a frequentar uma escola daquela cadeia charter (ou qualquer coisa abaixo de uma escola pública com ingresso seletivo).

A expansão das charters é muito mais um animal político com os principais endinheirados a promovê-la. Eles não reinventam o controle local. Eles o compram e o substituem.”

Leia também Peter Greene: Chester Finn, the Death of Democracy, and Opposites Day.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Mercadante no Ministério, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado , . Guardar link permanente.

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