A velha face da avaliação “sob nova direção”

As novas formas de controle pela avaliação estão sendo desenhadas com ajuda da tecnologia. Introduz-se tecnologia na “modernização” dos processos, mas em essência tudo continua igual. Nunca foi mais adequada a expressão: “modernização conservadora”.

Vem dos Estados Unidos o alerta. Valerie Strauss chama a atenção para mudanças no campo da tecnologia da avaliação embarcada em plataformas de aprendizagem. Em seu blog, apresenta um texto de Lisa Guisbond bastante esclarecedor. Lisa aponta um estudo do National Center for Fair and Open Testing, a FairTest, que considera estas mudanças um retrocesso que anulará os poucos progressos que os movimentos contra testes excessivos fizeram nos Estados Unidos no ano de 2016, conseguindo alguns avanços na revisão da lei conhecida como No Child Left Behind, agora chamada de ESSA – Every Student Succeeds Act – como já comentamos aqui.

“Hoje, o aumento dos testes on-line ou por computador ameaça inverter qualquer progresso feito no último ano para a redução do número de testes. O National Center for Fair and Open Testing, conhecido como FairTest, uma organização que trabalha para acabar com o abuso e uso indevido de testes padronizados, publicou um novo release que diz:

“Os formuladores de políticas de educação e os provedores de tecnologia uniram forças para acelerar um impulso de longo prazo para intervenções educacionais baseadas em “testes”. Ambos os setores desenvolvem currículos baseados em computador e em dados coletados com testes on-line para controlar salas de aula e definir resultados educacionais.

Embora envolta em uma linguagem humanística sobre “personalização” do ensino, tal transformação está levando a testes padronizados ainda mais frequentes. Isso estreita e joga o ensino para baixo, para o nível em que os testes podem medir, reduz o engajamento do aluno e produz indicadores imprecisos de aprendizagem.”

Segundo o FairTest, agora devemos estar vigilantes e preparados para lutar contra essas novas ameaças:

  • O novo impulso para o uso de testes on line ou por computador ameaça inverter o progresso recente com a redução de testes e com a diminuição dos impactos a eles associados.
  • Em vez de escolas com educadores capacitados para usar sua experiência profissional para personalizar a aprendizagem para os alunos, esses programas perpetuam o ensino e a aprendizagem padronizados, baseados em testes, agora automatizados para “eficiência”.
  • Avaliações frequentes de estudantes on-line exigem que os professores revisem grandes quantidades de dados, em vez de ensinar, observar e relacionar-se com os alunos.
  • Na aprendizagem verdadeiramente centrada no aluno, as crianças são guiadas por professores e podem escolher entre tópicos, materiais e livros com base nos seus interesses. Mas a visão promovida por muitos fornecedores e proponentes de tecnologia de educação é de uso de materiais de aprendizagem de alunos selecionados por avaliações adaptativas on-line ou computadorizadas.
  • As empresas e agências governamentais estão acumulando quantidades sem precedentes de dados sobre os estudantes através de plataformas de aprendizagem e testes on-line. Existe uma preocupação generalizada sobre a acessibilidade destes dados por terceiros e de violações de privacidade dos dados. Grupos de pais e outros defendem uma legislação para fornecer transparência e proteger os dados contra o uso indevido. Entretanto, as violações de segurança ou a partilha de dados são riscos graves.
  • Freqüentes testes on-line criam obstáculos para o movimento de retirada dos estudantes dos testes conduzidos pelos pais, como uma forma de chamar a atenção para a sobrecarga de testes. Um forte movimento nacional dos pais retirando seus filhos dos testes (opt out) criou uma enorme pressão para mudança. Mas o recurso aos exames on-line cria novos obstáculos para os pais que querem impedir seus filhos de fazer testes.
  • Depois de várias décadas, os pesquisadores têm visto pouco impacto positivo no uso de tecnologia educacional. Enquanto isso, os pesquisadores alertam para uma série de conseqüências negativas da super-exposição à tecnologia e ao tempo que o aluno passa na tela dos dispositivos. Estes incluem danos ao desenvolvimento intelectual, físico e emocional, ameaças à privacidade e, ironicamente, maior padronização.

O que os pais, alunos e educadores podem fazer?

  • Para combater o assalto do currículo com mais testes embarcados, bem como a coleta de dados pessoais, pais e educadores devem aprender mais sobre as novas formas de tecnologia que estão sendo usadas na sala de aula.
  • Os pais podem coletivamente exigir transparência das escolas, distritos e estados, diretamente dos professores e administradores ou por meio de órgãos de formulação de políticas, como conselhos escolares e departamentos de educação.
  • Os pais podem solicitar – ou exigir – que os distritos não comprem ou demandem esses pacotes e que seu filho não exceda a quantidade máxima de tempo de tela por dia ou semana.
  • Os pais, educadores, estudantes e seus aliados podem organizar uma legislação que impede o uso de tais pacotes, proteja os dados dos alunos, limite o tempo de exibição e proíba a adoção de tecnologia de educação cara e não comprovada.
  • Todos os pais podem exigir que aos seus filhos seja dada permissão para optar por não fazer testes intercalados em softwares ou informatizados.

O relatório do movimento Parents Across America sobre os perigos da tecnologia da educação sugere perguntas que os pais podem fazer e que incluem:

  • quais dispositivos e programas estão sendo usados;
  • quanto tempo as crianças gastam em dispositivos eletrônicos e que tipo de dados estão sendo coletados;
  • os pais também devem perguntar se as avaliações são na sua maioria de múltipla escolha, quantas vezes são administradas, se alguns alunos (por exemplo, alunos com necessidades especiais ou que estão aprendendo o inglês como segunda língua) são testados com mais frequência que outros e quem controla os dados e como eles estão sendo usados;
  • armados com informações detalhadas, os pais podem lutar contra o uso indevido da tecnologia, bem como contra o seu uso excessivo.

Eis as preocupações que estão rolando por lá.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação na Educação Infantil, Estreitamento Curricular, Exames e índices, Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para A velha face da avaliação “sob nova direção”

  1. Marina Gonçalves de Souza disse:

    De acordo com Dalila Andrade, organização do trabalho escolar deve ser compreendida como um conceito econômico, referente à divisão do trabalho na escola, ou seja, ‘’como a forma que o trabalho do professor e demais trabalhadores da escola é organizada buscando atingir objetivos da escola ou do sistema’’ (OLIVEIRA, D.A. 2010).
    Deve-se pensar que a organização do trabalho escolar é dependente da organização escolar, ou seja, como a educação escolar está estruturada, por exemplo, se é por regime seriado ou por ciclos e quais são as formas de avaliação. Assim, o conceito de organização escolar abrange o de organização do trabalho escolar por ser mais amplo. Luiz Carlos de Freitas (2004) afirma que a consequência de se ter diversas visões de mundo é a existência de várias propostas divergentes para organizar a escola. Dessa forma, a LDB define que a escola pode escolher qual será a forma de organização escolar que ela quer adotar.
    A partir da década de 90 houve uma grande ênfase nas políticas públicas educacionais. Foram nesses embates que surgiram as modificações conhecidas como progressão continuada e ciclos. Assim, no que diz respeito ao tempo, a escola pode optar pelo regime seriado ou de ciclos, já em relação às formas de avaliação tem-se a progressão continuada ou a promoção automática. Esses são apenas alguns exemplos de regimes de tempo e de formas de avaliação existentes no sistema educacional.
    A série é um padrão fixo, padronizado, em que todos os alunos devem se adaptar ao ritmo da escola, por isso vários estudiosos afirmam que esse regime não respeita o ritmo do aluno. Na seriação adota-se a promoção anual como forma de avaliação, em que no final do ano a escola decide se o aluno será aprovado para a próxima série ou reprovado.
    O regime de ciclos busca romper com a seriação, uma vez que se amplia o tempo do aluno em consonância com o tempo de vida do mesmo. Assim, o regime ciclado agrupa os alunos por faixa etária, considerando o estágio de desenvolvimento cognitivo das crianças e dos adolescentes. A escola que decide quanto tempo vai durar cada ciclo. ‘’O tempo da escola é encarado cada vez mais como oportunidade de uma socialização’’ (FREITAS, L. C. 2004). Nesse regime as avaliações ocorrem durante todo o ciclo, e não apenas no final. O aluno só pode ser reprovado no fim do ciclo.
    Normalmente utiliza-se a progressão continuada como forma de avaliação dos ciclos, em que ‘’o aluno avança em seu percurso escolar em razão de ter se apropriado, pela ação da escola, de novas formas de pensar, sentir e agir’’ (FREITAS, L. C. 2004), ou seja, o aluno é avaliado continuamente durante cada ciclo, pois se acredita que toda criança é capaz de aprender, mesmo que em ritmos diferentes. Isso faz com que aumente as oportunidades das crianças aprenderem, além de que elas não serão pressionadas a obterem uma média a fim de serem aprovadas no final do ano.
    Por outro lado, existe também o modelo de promoção automática, que é a ‘’reprovação zero’’ independente da aprendizagem do aluno, ou seja, ocorrem 100% de aprovação. De acordo com os pesquisadores, esse modelo gera desmotivação total aos alunos, uma vez que eles faltam muito e não se dedicam porque sabem que serão aprovados. Por isso, afirmam que é uma ‘’enganação coletiva’’, uma vez que os alunos continuam com erros graves.
    Faz-se necessário pensar que ‘’a finalidade do processo de avaliação nunca foi apenas verificar a aprendizagem, mas sim estabelecer um rigoroso controle sobre o comportamento dos alunos e seus valores e atitudes. ’’ (FREITAS, L. C. 2004) É lamentável que a maioria dos professores só se sente seguros em sala de aula por terem o controle da avaliação do aluno, utilizando desse poder como chantagem, assim, um recurso que deveria ser utilizado para benefício dos alunos no processo de aprendizagem na maioria das vezes é usado contra eles.
    Perrenoud afirma que existem duas formas de avaliação, a formal, constituída por ‘’técnicas e procedimentos paupáveis de avaliação com provas e trabalhos que conduzem a uma nota’’, e a informal, ‘’que estão os juízos de valor invisíveis e que acabam por influenciar os resultados das avaliações formais finais, sendo construídos pelos professores e alunos nas interações diárias’’. (FREITAS, L. C. 2004) Ambas apresentam aspectos perversos que atuam pela exclusão dos alunos, atingindo, assim, a auto-estima dos mesmos.
    De acordo com a postagem ‘’ A velha face da avaliação “sob nova direção”, Freitas afirma que ‘’as novas formas de controle pela avaliação estão sendo desenhadas com ajuda da tecnologia. ’’ (FREITAS, L. C. 2017) Como qualquer atitude existe os pontos positivos e os negativos. Nessa postagem o professor ressalta que precisamos ficar atentos a esse dado, pois houve um aumento significativo dos testes online ou por computador que consequentemente ameaçam o progresso dos últimos anos de redução dos números de testes. Além de que eles são utilizados para controlar as salas de aula e definir resultados educacionais, com isso reiterando padrões.
    Acredito que não há nada contra utilizar esses testes, eles também são ferramentas válidas para o processo de ensino-aprendizagem, mas a partir do momento que a escola se baseia neles para definir resultados educacionais a situação entra em crise. Como foi mencionado anteriormente, para que o processo de ensino-aprendizagem do aluno tenha êxito ele deve ser contínuo, conter formas variadas de avaliação e respeitar o ritmo do aluno, uma vez que a intenção real da avaliação é verificar o aprendizado do mesmo. Assim, se basear nesses testes é o mesmo que desconsiderar todos os avanços do aluno.
    Outra crítica que o próprio autor faz é em relação à super-exposição dos alunos às tecnologias. É extremamente enriquecedor o uso da tecnologia em sala de aula, pois ela apresenta inúmeros benefícios, como a agilidade, a diversidade de informações, a praticidade, dentre outros. No entanto, deve-se ficar atento ao tempo que as crianças passam conectadas, podendo gerar consequências como ‘’danos ao desenvolvimento intelectual, físico e emocional, ameaças à privacidade e, ironicamente, maior padronização. ’’ (FREITAS, L. C. 2017) Por isso é crucial que os pais mantenham-se presentes na educação escolar dos seus filhos, a fim de evitar tais danos.
    Esse assunto é extremamente importante para a busca de uma educação melhor. Assim, devemos pensar em estratégias cada vez mais eficazes para o nosso sistema educacional que respeitem a diversidade existente nele. Como Elizabeth afirma ‘’Não são apenas os ‘’diferentes’’ que são privados de suas vidas para se enquadrarem na mesmidade universal, todos perdem o seu direito à diferença ao serem integrados na promessa de todos como um. ’’ (MACEDO, E. 2015)
    Marina Gonçalves de Souza, estudante de Pedagogia da UFMG.

    Referências:
    FREITAS, L. C. Ciclo ou séries? O que muda quando se altera a forma de organizar os tempos-espaços da escola? In: 27ª Reunião Anual da ANPEd. Caxambu, 2004.
    MACEDO, E. Base Nacional Comum para Currículos: direitos de aprendizagem e desenvolvimento para quem? Educ. Soc., Campinas, v. 36, nº. 133, p. 891-908, out.-dez., 2015.
    OLIVEIRA, D.A. Organização do trabalho escolar. In: OLIVEIRA, D.A.; DUARTE, A.M.C.; VIEIRA, L.M.F. DICIONÁRIO: trabalho, profissão e condição docente. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Educação, 2010. CDROM.

  2. Valentino disse:

    Procurem por uma plataforma conhecida aqui no Brasil como Geekie, ou GeekieTest.

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