Doria e a “broken windows”: não é só marketing

As políticas públicas em alta no campo social, como as de Doria, nunca aparecem descoladas da questão da ordem, da disciplina e sem estar  associadas a um certo moralismo. Na educação americana a situação é bem mais clara com a instalação de um movimento chamado “no excuses” – “sem desculpas” ou ainda “tolerância zero”.

Doria é um aprendiz de “Bloomberg”, magnata que administrou a Cidade de Nova York por 12 anos, adepto dessa teoria, e com quem acaba de se aconselhar em sua viagem aos USA.

Veja aqui a política “broken windows” implantada por Bloomberg.

Esta concepção de política pública está ligada à chamada teoria “broken windows” – ou em tradução livre “janelas quebradas”. Foi introduzida pelos cientistas sociais James Q. Wilson and George L. Kelling, em um artigo chamado exatamente de “Broken Windows” que apareceu em março de 1982 no The Atlantic Monthly.

Baixe aqui.

Veja também: Fixing Broken Windows: Restoring Order and Reducing Crime in Our Communities de George L. Kelling e Catherine Coles.

Resumo: “Com base em uma teoria inovadora de prevenção da criminalidade, este livro prático e empoderador mostra como cidadãos, empresários e policiais podem trabalhar juntos para garantir a segurança de suas comunidades. George Kelling, um dos principais criminologistas da América, provou o sucesso de seu método em todo o país, a partir dos metrôs de Nova York até os parques públicos de Seattle. Aqui, Kelling e a antropóloga urbana e advogada Catherine Coles demonstram que, controlando o comportamento desordenado em espaços públicos, podemos criar um ambiente onde os crimes graves não podem florescer, e eles explicam como adaptar estes métodos eficazes para uso em nossas próprias casas e comunidades.”

Os autores fazem um paralelo com um edifício dizendo que, se ele ficasse com algumas poucas janelas quebradas sem que fossem imediatamente substituídas, estas terminariam por estimular a que mais janelas fossem quebradas.

Depois de analisar políticas de segurança, concluem:

“Acima de tudo, temos que voltar a nosso ponto de vista amplamente abandonado de que a polícia deve proteger tanto as comunidades, como também aos indivíduos. Nossas estatísticas de criminalidade e pesquisas de vitimização medem as perdas individuais, mas não medem as perdas comunitárias. Da mesma forma que os médicos reconhecem agora a importância de fomentar a saúde em vez de simplesmente tratar a doença, da mesma forma a polícia e todos nós devemos reconhecer a importância de manter intactas as comunidades sem janelas quebradas.”

No caso Doria, isso se aplica a vários setores. Desde que assumiu, ele procura “limpar São Paulo” das janelas quebradas. Primeiro foram os grafites e as pichações, depois a virada cultural e as ciclovias (elas enfeiam e “quebram a ordem”) e agora a cracolândia. Tudo tem que ser feito dentro da “melhor” ordem, sob controle.

Logo será a vez da educação também, onde este movimento gera uma mensagem bem clara para os estudantes e pais: tolerância zero com a indisciplina e, por exemplo, com a falta de afazeres de casa. Leia-se: mais autoritarismo na escola e mais segregação. A mesma filosofia é responsável pelas escolas controladas pela Política Militar em Goiás. O conservadorismo destas ideias tem enorme repercussão para a sala de aula, contribuindo para colocar a criança mais pobres e seus pais de joelhos perante a escola e o professor – principalmente nestas camadas mais pobres.

Isso tem sido erradamente interpretado como uma “jogada de marketing”. Não é apenas isso. É uma filosofia de trato com os “problemas sociais”: pensa-se que tudo que está fora da “ordem” gera mais desordem. Manter as coisas em seu devido “lugar”, ou fora da vista dos outros, pelo menos onde interesse, contribui para que não se gere mais coisas “fora de lugar”. Para tal, há que se reprimir e “eliminar” de imediato qualquer desordem promovida pela pobreza, de preferência preventivamente, para evitar que seja imitada por outros, evitar que estimule mais ações “fora de lugar”. Enfim, é preciso organizar esta gentalha e tirá-la de lugares onde possam exercer um efeito multiplicador. Os “marginalizados” devem se enquadrar na “boa cultura”.

De costas para as políticas públicas que criticam ações como a sua, Doria já perdeu duas Secretárias desde que assumiu, ou seja, em menos de um ano. Quase perdeu também o Secretário de Educação. São Secretários que operam nas políticas sociais, e tiveram problemas. O próximo a desembarcar pode ser o Secretário de Transportes devido à pressão com as ciclovias.

As classes mais altas deliram com estas políticas e arrastam consigo até mesmo as classes menos privilegiadas. É o ideal do “macho man”, do “rambo” e, por que não, do próprio “prendo e arrebento” da ditadura militar. Quem sabe – pensam – problemas que geram secularmente incômodo sejam, finalmente, de forma decidida (ou seja sem tolerância) resolvidos por Doria? É a mesma compreensão que elegeu Trump.

A figura mais expressiva disso é a foto de Doria caminhando na cracolândia, vestindo seu blusão de couro, cercado de Secretários, em uma inspeção vigorosa no território do inimigo recém dominado, como general de guerra vitorioso. Por isso, chega até a ser pensado para a presidência do país.

Estas classes sociais gostariam de poder fazer um decreto que “impedisse a existência de pobres e de marginalizados” ou “que fixasse um lugar para eles viverem, longe dos olhos deles” .

Tudo isso é muito grave, pois aí estão os germens das políticas higienistas que em outras épocas estiveram na base do totalitarismo.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Doria na Prefeitura de SP, Segregação/exclusão. Bookmark o link permanente.

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