Costin: caindo na real?… Talvez.

Pressionaram para que houvesse a todo custo e de forma rápida uma Base Nacional Comum obrigatória. Precisou vir uma americana dizer a eles que “esta é a parte mais fácil” e que o mais difícil é fazer a base chegar até a sala de aula. É o que nos revela Claudia Costin, hoje, na Folha de S. Paulo, depois de ouvir Joanne Weiss, que coordenou, no governo Obama, o esforço de elaboração de orientações curriculares da pré-escola ao ensino médio. Para Claudia:

“Não adianta ter uma Base apenas para mostrar aos visitantes. Ela precisa acontecer na sala de aula e isso requer envolver Estados, municípios e escolas na tradução da Base em currículos, preparar, com os professores, materiais instrucionais alinhados à Base, sejam livros, aulas digitais ou cadernos pedagógicos, e promover avaliações que forneçam informações aos docentes e aos gestores sobre a aprendizagem dos alunos.

No entanto teremos perdido uma grande oportunidade se não aproveitarmos este momento para rever a formação de professores no país. As licenciaturas estão ainda muito distantes da prática docente e não preparam para uma profissão, enquanto a formação continuada em serviço não valoriza a equipe de trabalho na escola e reforça o academicismo da formação inicial. Se não enfrentarmos essa questão com coragem, como fizeram os países que contam com bons sistemas educacionais, continuaremos patinando.”

Leia a íntegra do texto aqui.

Vamos deixar de lado que, com esta estratégia que ela indica para fazer a base chegar às escolas (materiais “alinhados” como se o professor fosse um ignorante, combinada com avaliação de professores e gestores, à moda americana), ela de fato nunca chegará. Poderá até ser imposta, mas tudo que é imposto tem prazo de validade.

Vamos para outra questão mais importante. O texto apresenta uma petição de princípio. Primeiro faz a afirmação: as licenciaturas estão distantes da prática docente e são academicistas. Em seguida diz: temos que fazer o que fazem os países que contam com bons sistemas educacionais. Consequência lógica: tais países eliminaram o academicismo da formação e agora estão focados em treinar para a prática da sala de aula. Certo? Errado.

Enquanto no Brasil o clã da reforma empresarial (mídia, empresários, MEC e seguidores) continua veiculando suas ideias simplificadas sobre a formação do educador, baseada no praticismo herdado dos estudos que chegam à equivocada conclusão de que há muita teoria nos cursos de formação de professores no Brasil – tomara tivessem razão – nos países avançados a conversa é exatamente outra.

Empowered educatorsO National Center on Education and the Economy (NCEE) acaba de divulgar um estudo chamado “Empowered Educators” que examina a pesquisa internacional sobre a preparação e desenvolvimento profissional de professores. Ela é liderada por uma das maiores pesquisadoras americanas da área, Linda Darling-Hammond, que com um grupo de pesquisadores reviu os sistemas da Finlândia, Singapura, Austrália, Canada e Shanghai. Os americanos foram estudar outros países porque eles estão insatisfeitos com seus próprios métodos de preparação de professores, que por aqui ainda encantam Costins. E o que se encontra no estudo? Na questão da formação de educadores, os autores destacam um aspecto que caminha bem na contramão do anti-academicismo de Costin. O que eles sugerem é que haja:

“1. Base sólida no conhecimento técnico e pedagógico

Na Finlândia, os candidatos professores são obrigados a completar uma graduação em pelo menos uma matéria acadêmica. Em seguida, eles continuam em um programa de nível de pós-graduação, onde eles aprendem métodos pedagógicos para ensinar o assunto a estudantes da educação básica. Darling-Hammond também observou que em alguns desses sistemas que foram estudados, o número de programas de certificação de professores é significativamente menor que o modelo dos EUA, enfatizando a qualidade em relação à quantidade. Na Finlândia, existem apenas 8 programas que estão alojados em universidades de pesquisa e em Cingapura há apenas um.

  1. Os professores são pesquisadores

Os professores em Cingapura são obrigados a realizar pesquisas todos os anos em suas escolas. Os professores trabalham em grupos em projetos de pesquisa que são então apresentados às universidades. Muitos dos projetos de pesquisa são publicados em periódicos acadêmicos e os principais pesquisadores de professores recebem prêmios por seu trabalho. Em Xangai, os professores de sala de aula também são obrigados a fazer pesquisas em suas escolas que muitas vezes são publicadas. Em ambos os sistemas, os professores recebem tempo suficiente no dia-a-dia da escola para trabalhar em seus projetos, resultando em menos tempo dedicado à instrução em sala de aula em comparação com o professor americano médio.

  1. Tutoria

Na Finlândia, os candidatos professores passam uma grande parte do tempo dos programas de preparação de professores universitários em escolas modelo. Essas escolas estão ligadas à universidade e são equipadas com professores de mestrado muito qualificados que treinam e modelam práticas de ensino baseadas em pesquisa. Em alguns casos, os programas de tutoria são estendidos aos professores do primeiro e segundo ano para continuar a ajudá-los a melhorar suas práticas de ensino.

  1. Carreira

Xangai e Cingapura criaram níveis de carreira formais para que o professor avance pela profissão. Cada um dos professores têm um plano individual com base em suas aspirações de longo prazo de continuar na escola, tornando-se um administrador ou um líder político.

Todos os sistemas estudados implementaram esses quatro princípios básicos de alguma forma. Eles tomaram ideias baseadas em pesquisas e as elaboraram para se adequarem ao contexto local. As políticas podem não ser copiadas explicitamente de um país ou estado para outro devido às vastas diferenças culturais e contextuais, mas a partilha de ideias bem sucedidas pode criar uma política geralmente mais informada. Agora a questão é, como os Estados Unidos podem usar essas ideias para levar nossos professores para o próximo estágio?”

O livro que pode ser encontrado aqui.

Enquanto os Estados Unidos, insatisfeito com seu nível de formação, quer avançar para outros estágios e estuda outros países, nós investimos em copiar fórmulas que não ajudaram aquele país. Mais ainda, não conseguimos identificar que a reforma empresarial  (à moda americana do material didático “alinhado”, regado a avaliações) é exatamente o grande fator que destruiu a educação americana.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação de professores, Links para pesquisas, Mendonça no Ministério, Meritocracia, Responsabilização/accountability e marcado , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Costin: caindo na real?… Talvez.

  1. Romeu Augusto de A. Bezerra disse:

    No estudo “Empowered Educators” uma das sugestões para a formação de professores toma como exemplo o caso da Finlândia. No tópico 3 encontramos que “Na Finlândia, os candidatos professores passam uma grande parte do tempo dos programas de preparação de professores universitários em escolas modelo. Essas escolas estão ligadas à universidade e são equipadas com professores de mestrado muito qualificados que treinam e modelam práticas de ensino baseadas em pesquisa.”
    Muitas vezes precisamos ir para o outro lado do planeta, para descobrir que aqui existe este tipo de escola: são os Colégios de Aplicação, vinculados às universidades federais, criados para serem campos de estágio e experimentação pedagógica. Fica a sugestão: um post sobre estas escolas.
    Romeu Augusto de Albuquerque Bezerra

  2. Maria Rocha disse:

    Olá, Freitas
    Obrigada por nos alimentar com discussões tão ricas.
    Olhando por um outro ângulo essa questão, a forma como os professores desses países são vistos: vindos de formação acadêmica longa e sólida, produtores de conhecimento, em profissão almejada. Quem conhece a realidade aqui de São Paulo, sabe onde estão esses professores aqui: na escolas privadas de elite. Porque lá têm recursos e salário que corresponde minimamente a seu tempo de estudo e às responsabilidades que assumem.
    Não há como falar de política pública para a educação sem o básico: essa profissão tem que ser almejada, bem paga, reconhecida socialmente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s