INEP institui prêmio de jornalismo. Acredite.

Depois do anúncio do cálculo da média de quanto ganham os professores no Brasil, a página do INEP até agora não registra a divulgação do estudo completo. Mas a mídia já engatou análises sobre os dados divulgados. É o caso da Folha de São Paulo que em seu editorial não perdeu tempo para fazer eco e sugerir que o professor, apesar de não ganhar bem, não deve receber aumentos lineares, mas sim prêmio por desempenho. Como isso é uma questão de fé e não de ciência, pois os dados mostram que a estratégia é inócua, não adianta discutir esta questão com a Folha. Já a abordamos exaustivamente aqui. Basta consultar a tag “bônus” e a página de bibliografia. Além disso, o próprio sistema educacional do Estado de São Paulo, como bem sabe a Folha, usa bônus há mais de década e não se pode dizer que melhorou.

Mas chama a atenção que o INEP, um órgão ligado a medidas educacionais, não saiba lidar com mera estatística descritiva. Como conheço a qualidade dos técnicos do INEP, sei que não é por culpa deles. Portanto, penso que é intencional que a Direção do INEP divulgue dados sobre médias sem indicar os limites de desvio da média. E claro, os valores obtidos para cada um dos estados brasileiros associados à rede de ensino, tempo de experiência, composição de renda e natureza do contrato do professor (número de horas que trabalha).

Mas aprendemos com a lava-jato e com o Golpe de 2016 como o jogo casado entre parlamentares, judiciário e mídia foi decisivo na constituição do senso comum da população. A reforma empresarial também faz uso desta conexão muito bem. O INEP, atento a isso, instituiu um prêmio de jornalismo.

“Serão premiadas as reportagens, ou séries de reportagens, que melhor contribuírem para o entendimento, pela sociedade e pelo poder público, da importância das avaliações e estatísticas para o monitoramento e desenvolvimento das políticas públicas de educação. Em sua primeira edição, o Prêmio Inep de Jornalismo – Avaliações e Estatísticas Educacionais vai premiar os três melhores trabalhos de três categorias: Avaliações da Educação Básica, Avaliações da Educação Superior e Estatísticas Educacionais.

Serão distribuídos, no total, R$ 145 mil em prêmios. Os primeiros lugares de cada categoria receberão o prêmio de R$ 20 mil e troféus. Os segundos lugares receberão o prêmio de R$ 15 mil e certificados, e os terceiros lugares, o prêmio de R$ 10 mil e certificados. O regulamento do prêmio será divulgado, em formato de edital, em portaria a ser publicada no Diário Oficial da União até 31 de março. Poderão concorrer matérias produzidas entre 13 de janeiro e 13 de novembro de 2017.”

Agora, a questão é como teremos boas reportagens na mídia se a Direção do INEP, principal órgão de medição da educação nacional, tem dificuldade em lidar com estatística descritiva elementar. E não é só. Continuamos sem saber qual a “saúde” das provas nacionais aplicadas aos nossos estudantes, pois os dados sobre confiabilidade, dificuldade dos itens, curvas características, etc. continuam secretos. As terceirizadas que elaboram as provas sabem mais sobre isso do que o público. Sem falar da ausência de estudos longitudinais de painel. A medição da educação nacional além de ser estreita, é uma incógnita quanto à sua qualidade, está baseada ainda em “fotografias”, quando estão disponíveis técnicas de acompanhamento que nos fariam ver o “filme todo”.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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