Espírito Santo: magistério precisa defender seus jovens

A propósito da situação dos professores do estado do Espírito Santo, e de milhares de professores em outros estados assim que a BNCC for implantada, expropriados de sua autonomia, me lembrei de um post de Diane Ravitch que comentei em 2015.

No Brasil firma-se cada vez mais a ideia de que para melhorar a educação (leia-se: indicadores numéricos) é preciso controlar o trabalho do professor através de um sem número de avaliações e bases nacionais e submeter os estudantes a tensão permanente com avaliações. Sobral, no Ceará, é o exemplo destas práticas anabolizantes destinadas a elevar índices para políticos exibirem. Com isso, se fere de morte aquilo que é essencial na boa educação: a autonomia profissional e a relação professor/estudante. Pode-se conceber um médico que não tenha autonomia profissional para tomar decisões?

O Estado do Espírito Santo está importando e radicalizando um modelo ultrapassado e que não tem paralelo nem mesmo na matriz americana: montar uma rede de avaliação trimestral dos estudantes do ensino médio, externa e independente do professor, cujos resultados ele tem que levar em conta ao avaliar o seu aluno. Nenhuma rede merece tal grau de desmoralização e nem seus estudantes tal massacre. As entidades defensoras do magistério bem como os profissionais da educação e os pais dos estudantes não podem concordar com esta situação. Isso atinge diretamente a autonomia e a atuação do professor no processo pedagógico, na sua relação pedagógica com o estudante.

As próprias terceirizadas que realizam estas ondas de exames, deveriam, profissionalmente, mostrar a inadequação desta proposta às Secretarias de Educação: não são especialistas em avaliação? No entanto, fala mais alto o faturamento. Os estudantes passam o ano inteiro sob tensão dos exames o que afeta sua própria constituição psicológica. Vamos ter que montar uma rede protetora dos nossos jovens para livrá-los de ações de políticos que querem exibir índices numéricos para continuar ganhando votos e das empresas educacionais que só olham para o faturamento – independentemente do que isso gera para a saúde psicológica de nossas crianças e jovens.

Há que considerar ainda que a rede pública tenderá a desenvolver simulados formal ou informalmente que acabarão, junto com o tempo gasto em exames, retirando tempo precioso da própria atividade de aprendizagem nas salas de aulas – sem falar dos recursos pagos às terceirizadas. Ao final, configura-se um sistema de treinar para provas e não um sistema destinado a formar e ensinar os estudantes. Esta situação vai se agravar consideravelmente após a promulgação da Lei de Responsabilidade Educacional em tramitação.

A defesa da autonomia do magistério e da saúde de nossas crianças e jovens devem entrar na pauta das entidades. Os pais devem ser esclarecidos e chamados para esta luta, bem como os próprios estudantes. No plano nacional, é preciso lutar por um código de ética de avaliação educacional.

Diane Ravitch veiculou em 2015 em seu blog post em que comentou a comparação feita por Pasi Sahlberg entre a autonomia que os professores americanos têm e a que os professores finlandeses têm. Pasi mostra o que está errado na educação americana. Como o Brasil optou por copiar os reformadores americanos (ou os Australianos, sucursal da reforma americana), inclusive na elaboração de uma base nacional comum, é importante que fique claro para onde estamos caminhando. Seguem os comentários de Diane.

Pasi Sahlberg é atualmente professor visitante na Graduate School of Education em Harvard, e foi diretor geral do Ministério da Educação da Finlândia. Em sua comparação entre os professores americanos e os da Finlândia, Pasi destaca que o que mais chama a atenção dos visitantes das escolas finlandesas é exatamente a autonomia que os professores têm em seu trabalho:

“O ambiente nas escolas [na Finlândia] é informal e descontraído. Os professores têm tempo na escola para fazer outras coisas além de ensinar. E as pessoas confiam umas nas outras.”

Os professores finlandeses parecem ter muito mais autonomia profissional para ajudar os estudantes a aprender e a se sentir bem, do que os professores americanos. Para isso:

“Os professores na Finlândia têm menos horas dedicadas ao ensino por semana do que têm os professores nos EUA. Primeiro, os professores nos EUA trabalham mais horas (45 horas/semana) do que seus pares na Finlândia (32 horas/semana). Eles também ensinam mais horas por semana, 27 horas em comparação às 21 horas na Finlândia.

Isto significa que os professores americanos, em média, têm muito menos tempo para fazer algo mais do que cumprir suas obrigações de ensino (seja sozinho ou com colegas) do que outros professores na maioria dos países da OCDE. Assim, observa-se que os professores na Finlândia são mais propensos a ensinar em conjunto com outros professores do que seus pares nos EUA.

Na Finlândia, os professores costumam dizer que eles são profissionais semelhantes a médicos, arquitetos e advogados. Isto – explica -, significa que os professores esperam comportar-se em seus locais de trabalho como profissionais: usando julgamento profissional, criatividade e autonomia individualmente e em conjunto com outros professores, de forma a encontrar as melhores maneiras de ajudar os seus alunos a aprender.

Na ausência de padrões de ensino comuns, os professores finlandeses projetam seus próprios currículos escolares orientados por um marco nacional flexível. Mais importante ainda, ao visitar escolas, eu ouvi dos professores finlandeses que, devido à ausência de exames padronizados, eles podem ensinar e avaliar seus alunos nas escolas como eles acham que seja mais adequado.

A palavra-chave entre professores e autoridades na Finlândia é confiança. Com efeito, a autonomia profissional requer confiança, e confiança torna viva a autonomia do professor.

Pasi Sahlberg conclui:

Eu não acho que o problema principal na educação americana é a falta de qualidade do professor, ou que parte da solução seria encontrar os melhores e mais brilhantes para se tornarem professores. A qualidade de um sistema educativo pode exceder a qualidade de seus professores, se o ensino é visto como um trabalho de equipe e não como uma corrida individual.

E esta é talvez a lição mais poderosa que os EUA podem aprender com os sistemas de educação de melhor desempenho: os professores precisam de uma maior autonomia profissional coletiva e mais apoio para trabalhar um com o outro.”

E bem que o Brasil (e o estado do Espírito Santo) poderia aprender mais rapidamente sobre isso, ao invés de copiar os americanos ou australianos, atrasando ainda mais o desenvolvimento da educação brasileira.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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