Efeito Tuiuti e a “nova” direita

Para delírio do “bolsonarismo”, 54 anos depois da ditadura militar, voltamos a ver a figura de militares carrancudos nas capas dos jornais e revistas, sendo encarregados da gestão pública, lembrando a população que é preciso ter “ordem e progresso”, bem ao estilo de “batman” e outros “justiceiros”. O presidente, que se arvora ter tirado o país da recessão e restabelecido o “progresso”, agora tem novos planos: restabelecer a “ordem”. Muitos advertiram: sabe-se como começa um golpe, mas não se sabe como termina.

O país pós-golpe é um país mergulhado na insegurança jurídica, política e em vários estados até das pessoas. As reformas em curso vão agravar este cenário e é esta pré-ciência do agravamento da crise pelas reformas que faz com que o Rio seja tomado como “campo experimental” e ao mesmo tempo “como advertência”. É isso, mas não só isso: pela fala do Presidente, o plano vai além do Rio de Janeiro, e soa mais como uma nova “pinguela para o futuro” do MDB, partido do Presidente, e faz lembrar os discursos imponentes dos ditadores da revolução militar de 64:

“Nós que já resgatamos o progresso no nosso país e retiramos, sabem todos, o país da pior recessão da sua história, nós agora vamos reestabelecer a ordem. Nossos presídios não serão mais escritórios de bandidos, nem nossas praças continuarão a ser salões de festa do crime organizado. Nossas estradas devem ser rota segura para motoristas honestos, nas vias, e nunca via de transporte de drogas ou roubo de cargas.”

O Exército quer “carta branca” pois sabe que pode ter que pagar a conta da aventura:

“O documento diz que Villas Boas [Comandante do exército] “em face da gravidade da crise, entende que a solução exigirá comprometimento, sinergia e sacrifício dos poderes constitucionais, das instituições e, eventualmente, da população.”

Na esteira da intervenção, virão outras medidas no Congresso:

“Três propostas entrarão na pauta: a criação do Sistema Único de Segurança, a revisão do estatuto do desarmamento e a proposta de Alexandre de Moraes, do STF, que endurece medidas contra o tráfico de armas e drogas.”

A “bancada da bala”, certamente, vai se movimentar e os privatistas da segurança também, pois o SUS da segurança é uma ótima oportunidade para financiar a terceirização de serviços.

O caminho menos errado (já que não havia motivo concreto para retirar a Presidenta) foi abandonado no impeachment, quando a elite recusou convocar novas eleições, e preferiu fazer as reformas que o mercado queria a toque de caixa, às custas de encontrar um oportunista que dizia não estar preocupado com popularidade: ingrediente típico de ditadores. Este núcleo de poder quer continuar (com ou sem Temer) e procura credenciar-se.

A nova direita é radical, golpista quando necessário e autoritária por natureza. Age em defesa dos seus interesses econômicos e tem escárnio pelo contraditório. Usa o ódio como alavanca de auto-promoção.

A aventura iniciada no impeachment prossegue: em um cenário com Lula preso, Huck fora do páreo, Doria travado pelo PSDB, Bolsonaro considerado folclórico, Alckmin (e demais políticos) sem confiança perante a nova direita (que quer um puro sangue oriundo das fileiras do empresariado), o “mercado” pode optar por manter o atual núcleo que está no poder optando pela sua continuidade, face à ausência de um nome de confiança: “mais vale um pássaro nas mãos do que dois voando” – diz o ditado. Recentemente, os jornais têm anunciado que os economistas liberais estão se distanciando de Alckmin. FHC, de seu observatório, se dá conta dos riscos: tentou puxar Huck, agora ensaia outros nomes do empresariado. Está à procura de um fiador perante a nova direita. Com a ação no Rio de Janeiro, Temer e seu núcleo de poder tentam entrar neste tabuleiro.

A questão para a nova direita é: como garantir que as eleições de 18 não conduzam a um retrocesso nas reformas que o “mercado” deseja. Não seria a primeira vez que ela optaria por manter os autores de um golpe no poder. Lembremo-nos que o golpe de 64, segundo seus idealizadores, era para pouco tempo. Chegava-se a falar em manter as eleições para o ano seguinte, 1965. Foi por isso que Juscelino Kubitschek foi acusado, como Lula, de ter um apartamento pago por um empresário, pois era o único candidato com potencial para ganhar as eleições. As eleições não ocorreram e em 1968 um golpe dentro do golpe, radicalizou a ditadura.

Seja lá o que pense a nova direita, há consequências para o Rio. Lembram-se daqueles primeiros dias da gestão Doria quando ele ainda tinha interesse em administrar a Prefeitura de São Paulo? Ele resolveu “arrumar” o centro da cidade de São Paulo e expulsar os que se reuniam na cracolândia. Este é o tipo de ação que caracteriza a nova direita: a política de “tolerância zero”, leia-se, autoritária.

O que se conseguiu foi desestruturar a atuação preventiva que se fazia e espalhar os habitantes da cracolândia por vários outros espaços da capital. A orientação adotada era ter tolerância zero para com a droga, instituindo pontos de revista e reprimindo. No melhor dos casos, a entrada do exército no Rio fará o crime organizado tirar umas férias indo para outros Estados. Esta é a preocupação pela qual os secretários de Segurança dos Estados vizinhos ao Rio de Janeiro (MG, ES e SP) já pediram uma reunião com o ministro da Justiça para examinar eventual mudança do crime organizado para estes Estados.

A “tolerância zero” também chegará nas escolas. Ela é a produtora dos Nicolas Cruz que nos Estados Unidos produziram o massacre de Parkland, o décimo oitavo massacre americano só em 2018. Não é sem razão que em Goiás escolas sejam administradas pela Polícia Militar. A intervenção no Rio é filha desta radicalização da nova direita, que não pensa duas vezes para acionar mecanismos de repressão: na escola ou na sociedade.

O Estado do Rio de Janeiro desestruturou a sua segurança com cortes de recursos e falta de política séria para a segurança. Agora apela-se para a repressão. A estadia do exército no Rio não deixará mais dinheiro para a Secretaria de Segurança e nem um procedimento de gestão mais avançado para ela. Os problemas persistirão agravados, pois quando o exército sair, os “bandidos” estarão lá.

A intervenção vai colocar a população dos morros entre dois fogos: entre a pressão do exército e a pressão do crime organizado. Só que o crime organizado continuará lá, depois que o exército sair, e a população sabe disso. Portanto, não se espere aplausos dos habitantes dos morros e nem cooperação. No máximo silenciarão. A juventude mais pobre e negra, bi-discriminada, vai ser alvo de repressão e criar ressentimentos ainda mais duradouros, alimentando o ciclo da violência.

Como em São Paulo com Doria, nada se resolverá e se dará mais um passo em direção à radicalização dos enfrentamentos que terminarão penalizando as populações mais pobres. Mas as elites terão cumprido seus objetivos.

A criminalidade no Rio não é produto da alegada corrupção institucional dos últimos anos. Ela já existia antes e vai continuar aumentando com a política econômica de Temer. E isto a Tuiuti escancarou na avenida durante o Carnaval.

A Tuiuti mostrou que a população pode surpreender as elites com seu entendimento do que está de fato acontecendo no Brasil. O “efeito Tuiuti” calou a nova direita. Obrigou a rede Globo a falar do que não queria. Silenciou o governo. E se o “efeito Tuiuti” se alastrar? A resposta veio agora, como sempre com apelo à repressão – única forma de defesa que ela tem quando o povo se organiza e se fortalece. Valeu Rio de Janeiro.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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4 respostas para Efeito Tuiuti e a “nova” direita

  1. Ivanete Bellucci disse:

    Ola

  2. Aline Greb disse:

    Olá professor
    Estou a procura de uma reflexão crítica sobre o novo Currículo da Cidade de São Paulo implementado na gestão Dória recentemente. Tens indicação?

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