Enem digital

A ideia de transformar as avaliações do ENEM em avaliações digitais ganha força. Duas reportagens resumem as dificuldades e vantagens de transformar as avaliações feitas em papel em avaliações feitas em computador. Destaco a discussão entre as tecnologias que apenas digitalizam os testes e as tecnologias que tornam o teste “adaptativo”.

“Segundo os especialistas, uma prova pode ser simplesmente uma versão em suporte digital do que antes era impresso (ou seja, um “teste baseado em computador”, ou TBC), mas também pode ser um “teste adaptativo informatizado” (TAI, também chamado de CAT, na sigla em inglês). Nesse segundo caso, o computador vai adaptando o teste em tempo real e para cada participante, à medida que ele acerta ou erra as questões apresentadas.”

TAI é a tecnologia que, associada à inteligência artificial, no futuro integrará as plataformas de aprendizagem on line que serão disponibilizadas por corporações privadas que operam na educação, nas quais a avaliação será uma “tecnologia embarcada” à disposição do aluno no ato da sua aprendizagem.

Quando estiver integrada a plataformas on line de ensino, ela será apresentada como “ensino personalizado”, mas como salienta Diane Ravitch é, de fato, “ensino despersonalizado” previamente desenhado em base a algoritmos que definem possíveis caminhos para a aprendizagem do aluno, tentando imitar a atividade do professor.

Tais algoritmos não são públicos, pois são propriedade das empresas educacionais on line que operam em escala planetária. Não sendo públicos, não se sabe exatamente as decisões que tomam. O grau de controle do trabalho do professor e o estreitamento curricular será potencializado.

As vítimas serão a autonomia do estudante e do professor, ambos voltados para assegurar respostas previamente definidas de forma a maximizar o desempenho nos testes. Em um momento em que se fala de “autonomia do estudante” e em “inovações”, não deixa de ser contraditório.

É por isso que há um forte movimento nos Estados Unidos para que os algoritmos de aprendizagem constantes nestes sistemas sejam abertos à análise de especialistas independentes.

Acesse abaixo as duas reportagens:

Enem digital é melhor que Enem em papel? Veja o que dizem especialistas.

O que é o Enem Digital. E quais suas vantagens e desafios.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Enem, Privatização, Responsabilização/accountability, Weintraub no Ministério e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Enem digital

  1. Jean Piton disse:

    Prezado Prof. Freitas. Já o conheci pessoalmente, há alguns anos, quando fui apresentado pelos meus orientadores Profa. Ângela Miorim e Prof. Antônio Miguel e sempre venho seguindo suas leituras. Trabalho há 18 anos com Testes Adaptativos e gostaria de comentar alguns pontos importantes sobre o que a imprensa vem relatando. A proposta de um teste computadorizado (TC) para o ENEM teve inicio no governo da Dilma, mas por alguns aspectos não aconteceu. Hoje essa possibilidade voltou com mais força e com interesses que vão além da possível melhoria da prova (não pretendo discutir aqui sobre isso). Tecnicamente, o TAI (ou CAT – Computer Adaptive Test, como é conhecido lá fora) tem um sério problema quando se trata de avaliação somativa (como é o caso do ENEM): o candidato recebe o item (questão), responde e vem a próxima. Não existe como “voltar” à questão anterior. Um outro problema é que os itens não podem ser expostos, como ocorre no ENEM atual (que há a divulgação da prova e do gabarito), o que faz com que o processo de auditagem seja extremamente complicado e isso vai além da parte computacional. Enquanto esclarecimento, os algoritmos até podem ser auditados (como ocorrem na urna eletrônica), mas, ainda assim, no CAT é muito complicado esse procedimento. Existem diversas abordagens de CAT, mas pelo o que tenho visto e conversado com o pessoal da área em eventos, o ENEM adotará o CAT baseado na TRI (Teoria de Resposta ao Item). Aqui https://www.dm.ufscar.br/profs/jpiton/testes.html explico um pouco mais sobre o seu funcionamento. Se isso ocorrer, de fato, há a possibilidade sim do candidato responder à um número menor de itens (essa é a grande vantagem do CAT), mantendo a precisão na estimação (posterior escore); mas se adotarem o modelo de CAT variável, isso será um verdadeiro problema. Ou seja, cada examinado responderá à um número diferente de itens. Como justificar que um candidato A obteve uma “nota” maior respondendo a, digamos 15 itens, e o candidato B obteve uma “nota” menor respondendo a 20 itens? A ETS já passou por este problema. Espero que a equipe técnica do INEP/MEC implementem estas problemas com muita responsabilidade, pois ela ser adaptativa exige uma série de procedimentos e métodos que poucos dominam seriamente neste país. Desculpe escrever tanto, mas achei que é o momento de externar alguns pontos. Att

  2. Pingback: Educação em debate, edição 244 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

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