E era só uma pandemia…

Dois eventos, verdadeiros raios gêmeos, ocorridos nos últimos trinta dias, mostram mais uma faceta da crise estrutural do capital: a consolidação da aliança China-Rússia e a guerra na Ucrânia – uma guerra que se dá no campo intercapitalista cujos lados estão representados pela Rússia e pela OTAN (leia-se Estados Unidos). Os Estados Unidos sempre fazem guerra no quintal dos outros, nunca no seu.

A China tem possibilidade de superar a economia americana até 2027 e a Rússia já é a maior potência mundial em tecnologia para armamentos de guerra. As guerras (e seus lucros com a comercialização de armamentos) sempre foram um recurso do capital para postergar suas crises; e a paz capitalista, como gostam de dizer os militares, sempre foi uma “concessão do mais forte”.

É nas guerras que se destrói para reconstruir abrindo mercados. É por elas que se redefine a influência dos monopólios, redefinem-se hegemonias e se afastam lideranças prevendo cenários geopolíticos, protegendo recursos geológicos indispensáveis à produção.

A guerra da Ucrânia é uma disputa entre o capital nascente pós União Soviética e o capital imperial americano, que vem embutida em um enfoque antropológico (criado por A. Dugin, assessor informal do Kremlin – ver Dugin, 2012), ou seja, a defesa de que a Rússia está fora do alcance da hegemonia americana e tem direito às fronteiras historicamente construídas e que foram, nas palavras de Putin, desvirtuadas por Lenin quando concordou em dar autonomia às repúblicas que constituíam a União Soviética, já que a Ucrânia é um país multiétnico e que por circunstâncias históricas tem população também eslava.

De fato, aqui tem-se o impacto da globalização neoliberal sobre as nações, que tende a padronizar mundialmente os valores e comportamentos – um impacto que gera reações especialmente no oriente e que é visto por ele como uma contaminação cultural que degrada o oriente – celeiro que precisaria ser preservado.

Putin, presciente de uma crise que ele não consegue ver como sendo do capital, mas que considera uma crise do liberalismo, tem dito que “o liberalismo tornou-se obsoleto”, em uma linha parecida à constatação de alguns conservadores como Deneen.

Isso posto, é fato que o capital em crise não recusará aliados – incluindo neonazistas e demais grupos radicais de extrema direita. A Ucrânia é um exemplo disso e você poderá se informar sobre isso acessando este vídeo. A Rússia, que já nos salvou de Hitler na segunda guerra mundial, tenta, entre outras motivações geopolíticas, conter o crescimento nazi na Ucrânia, estimulado por Biden desde que era vice de Obama. A mídia ocidental perigosamente oculta esta faceta da guerra.

Pandemias e guerras – este é o mundo que nos oferece a era do capital e sua crise estrutural, a qual se agrava, mas que ao mesmo tempo, torna urgente e abre possibilidades para que pensemos em formas alternativas de organização social – única maneira de evitarmos a extinção da própria humanidade.

Não pode passar sem ser apontado o papel que os grupos econômicos que operam transversalmente no mundo global neoliberal, em especial as big-techs, estão tendo na Ucrânia e na Rússia: elas têm lado e como bem analisa o Intercept Brasil:

“As big techs são, cada vez mais, atores políticos e econômicos com um poder incalculável nas mãos, capazes de mover placas tectônicas e aprofundar crises geopolíticas se tomarem as decisões erradas. O mundo está assistindo, horrorizado, em tempo real, essas consequências.”

E, infelizmente, é nas mãos das big techs que a esquerda pós-moderna quer colocar a resistência, terceirizando a luta para bolhas em aplicativos, copiando a pós-modernização da direita (ver Mcmanus, 2020).

Se estes eventos servirem para aumentar nossa sensibilidade às condições objetivas que estamos vivendo no mundo de hoje e nos levar a pensar nas positividades que eles abrem, apesar de todo o desastre embutido neles, eles poderão ter um efeito positivo em nosso futuro. Caso contrário, terão sido apenas sofrimento.

Em todo caso, eles trazem advertências claras: 1. não confie nas big techs, pois em momentos decisivos elas estarão do outro lado bloqueando e tergiversando as informações – inclusive da mídia alternativa que dependa da mesma infraestrutura; 2. à medida que o tempo passa, a crise estrutural do capital se agrava e a humanidade está cada vez mais exposta a riscos incalculáveis.

A pandemia foi só um lembrete da crise estrutural.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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