Fernando Veloso ou ‘meu mundo caiu’…

Postado originalmente na Uol em 5/02/2011

O livro de Diane Ravitch deixou conservadores e liberais – em especial o pessoal que circula pelas Secretaria de Educação ganhando dinheiro para montar sistemas de meritocracia –, literalmente, “com a brocha na mão”. Venderam atalhos e  ilusões baseadas na ideologia de mercado e dos negócios pelo Brasil afora e, de repente, uma implementadora das mesmas idéias deles diz: Opa! Isso não funciona. Diane teve a honestidade intelectual que falta a estes senhores.

O livro de Diane tem 280 páginas de argumentos, dados e fatos sobre o fracasso das políticas meritocráticas e de responsabilização americanas. Não bastasse isso, é possível encontrar nos centros de pesquisas americanos independentes dúzias de estudos que dizem o mesmo, conforme tenho disponibilizado neste Blog. Mas os liberais tentam apagar as chamas…

O artigo de Veloso na Folha de Hoje (5-02-2011) “Meritocracia na Educação” sobre o livro de Diane (A morte e a vida do grande sistema educacional americano) é a maior fraude interpretativa de uma produção literária de que já tive conhecimento.

Diane vai listando ao longo de seu livro situações inúmeras de falácias produzidas pelas políticas de meritocracia e responsabilização e, com sua objetividade científica, não encontrada em Veloso e típica dos liberais, passa também por experiências que apontam alguma evidência de sucesso – claramente minoritárias. Mas tudo isso, tem uma direção: o capítulo final do livro cujo título sugestivo é : Lições Aprendidas. E quais são as lições que Diane aprendeu (pgs. 224 – 242 em tradução livre abaixo) e que Veloso não quer aprender:

1.       É pouco provável que as políticas que nós estamos seguindo hoje melhorem nossas escolas. Ao contrário, muito do que os formuladores de política demandam hoje muito provavelmente tornarão as escolas menos eficazes e podem futuramente rebaixar a capacidade intelectual de nossos cidadãos.

2.       Os fundamentos da boa educação são encontrados na sala de aula, em casa, na comunidade e na cultura, mas os reformadores de nosso tempo continuam a procurar por atalhos e respostas rápidas.

3.       Nossos problemas educacionais são função de nossa falta de visão educacional, não um problema de gestão que requer o recrutamento de uma armada de consultores de negócios .

4.       Nossas escolas não vão melhorar se funcionários indicados se intrometem no território pedagógico e tomam decisões que apropriadamente deveriam ser tomadas por educadores profissionais. O Congresso e legisladores estaduais não deveriam dizer a professores como ensinar, mais do que eles dizem aos médicos sobre como realizar uma operação.

5.       Nossas escolas não melhorarão se nós continuarmos a focar somente o ensino de matemática e leitura enquanto ignoramos os outros estudos que são elementos essenciais da boa educação.

6.       Nossas escolas não melhorarão se nós focarmos exclusivamente nos testes para como meio para decidir o destino de estudantes, professores, diretores e escolas.

7.       Nossas escolas não melhorarão se nós continuarmos a fechar escolas nas comunidades em nome da reforma.

8.       Nossas escolas não melhorarão se nós as introduzirmos no mágico mundo do mercado. Mercados têm ganhadores e perdedores .

9.       Nossas escolas não melhorarão se as escolas charter continuarem a sugar das escolas públicas regulares os alunos mais motivados e suas famílias nas comunidades mais pobres.

10.   Nossas escolas não melhorarão se esperamos delas que atuem como empresas privadas, lucrativas. Escolas não são negócios, elas são um bem público. O objetivo da educação não é produzir altas pontuações, mas educar as crianças para serem pessoas responsáveis com pensamento bem desenvolvido e bom caracter. Não se deve esperar que as escolas produzam lucro na forma de pontuações de valor agregado.

11.   Nossas escolas não vão melhorar se nós a usarmos para todo e qualquer propósito (…) As escolas devem trabalhar com outras instituições e não substituí-las.

12.   Se nos queremos melhorar a educação, nós antes de tudo temos que ter uma visão do que é uma boa educação.

13.   O objetivo da avaliação não é identificar escolas que devem ser fechadas, mas identificar escolas que precisam de ajuda.

14.   O mercado não é o mecanismo correto para fornecer proteção policial ou proteção contra fogo, nem é o mecanismo correto para fornecer educação pública.

Veloso deveria reler o livro. Se estas lições aprendidas não questionam sua meritocracia é porque sua ideologia – e não os fatos – não o permite.

Ora, de onde vem a meritocracia: da área dos negócios, de um entendimento de que o ser humano tem que ser administrado por consequências: positivas através de bônus, negativas através de demissão. É assim que funciona a iniciativa privada.

Daine é clara em dizer que o mundo dos negócios não funciona em educação.

Mais polêmicas interpretativas à parte, há um argumento muito simples para demolir as expectativas de Veloso com a meritocracia: ele não melhorou o desempenho dos Estados Unidos no PISA – o “santo” e “inquestionável” PISA dos próprios liberais. Antes da meritocracia e responsabilização americanas os Estados Unidos estavam na média do PISA, dez anos depois destas políticas, continuam na média do PISA.

O Brasil, ainda que abaixo da média, pelo menos avançou significativamente. Finlândia, Shangai e outras que estão no topo do PISA não usam a meritocracia de Veloso.

O mundo dos negócios educacionais brasileiro está em chamas…

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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