Gato por lebre…

Postado originalmente na Uol em 23/06/2010

Os jornais têm noticiado neste último mês que o desenvolvimento brasileiro acelerado está evidenciando um gargalo de mão de obra que pode impedi-lo. Primeiro foi uma entrevista com Gerdau (o magnata do aço )(Estado de São Paulo, 24/05/2010) onde ele diz:

“Não pagamos impostos para tanto? Eu diria que a gente paga imposto, sim. Mas quando se vive em um país em que a educação é a 6º prioridade, ou se trabalha nesse troço ou vamos viver o resto da vida sem condições competitivas mundiais. Como você acha que a Embraer disputa? Ela tem pessoas altamente capacitadas. Se deixar na mão do Estado, não chegamos a um resultado condizente. Essa questão tem um conceito mais amplo. Teoricamente, delegamos para o Estado. E o resultado é este que existe. Ou seja, é inaceitável.”

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-educacao-vem-em-sexto-lugar,555674,0.htm

Note a referência à educação: “ou se trabalha nesse troço”…

Note a idéia de privatização:  “Se deixar na mão do Estado, não chegamos a um resultado condizente. Essa questão tem um conceito mais amplo.”

Note o objetivo da educação: “preparar mão de obra para as empresas”.

Depois foi a questão da falta de engenheiros que a folha divulgou há dois dias.

Em meio a isso, aqui e acolá, notícias de que escolas assumidas por empresários (Folha, 20/06/2010) em SP e que tiveram melhoras no desempenho das crianças:

“Adotada pelo Grupo ABC, que tem o publicitário Nizan Guanaes como presidente, a escola Francisco Brasiliense Fusco, no Campo Limpo (zona sul de SP), teve o telhado reformado, o que tirou pombas e ratos dos corredores. A sala de informática, que tinha dez computadores antigos, passou a ter 40 modernos. Nizan, que também é colunista da Folha, chamou profissionais que trabalharam no projeto da sua própria casa para a reforma. Limpo e com arquitetura nova, o colégio era um daqueles que não decolavam nas notas. De 2007 para 2008, o índice da quarta série recuou. Naquele ano, a formação de docentes se intensificou. E o Idesp subiu 50%.”

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2006201011.htm

A questão é porque o estado de SP não pode fazer isso e precisa de uma empresa para tal? A resposta está nos níveis de investimento do Estado: em porcentagem de crescimento de arrecadação do Estado, investimos o mesmo que em 2002. Esta política faz com que, com o tempo, os alunos mais motivados sejam drenados para as escolas assistidas pelas empresas e os menos motivados ou com maiores dificuldades fiquem na escola pública.

Estou reconhecendo, nestas noticias, os Estados Unidos da América do Norte na última década. Lá também a questão da educação foi associada à manutenção da liderança econômica dos EUA no mundo. Uma avalanche de críticas desabou sobre o sistema educacional americano público, primeiro em 1983 com A Nation at Risk (Uma nação em risco), nome sugestivo; depois com o No Child Left Behind (Nenhuma criança para trás) em 2002. Neste segundo programa, as escolas tinham metas a serem cumpridas anualmente e até 2014 deveriam ter todas as crianças proficientes em português e matemática. Se uma escola não avança segundo o programado ela é objeto de atenção que varia de monitoramento até seu fechamento e entrega à iniciativa privada que passa a administrá-la.

Pois bem. Vale a pena que se saiba que com toda esta parafernália de ações sobre o sistema público de ensino, os EUA como mostrei em outra postagem estão empacados entre 2003 e 2006 no PISA, e no NAEP (Exame interno do país que equivale ao nosso SAEB) não há evidência de melhoria relevante entre 1992 e 2009 em leitura e matemática.

Por mais que nos Estados, isoladamente este ou aquele, por motivos políticos se divulguem grandes progressos dos alunos, o fato é que quando estes mesmos alunos são medidos ao nível nacional, o fracasso continua. A explicação para isso é que a Lei permite que cada estado defina o que entende por “ser proficiente” e pode fazer seu próprio teste. Claro, como existem consequências associadas ao cumprimento de metas, ou seja, acesso a grana federal, os Estados diminuem as exigências para um aluno ser considerado proficiente em suas provas como acontece em Nova Yorque.

Curiosamente, a Folha divulga os sucessos de Nova Yorque, mas nada fala sobre o fracasso dos seus alunos no NAEP americano.

Bem, em resumo, espero que, no Brasil, não se repita uma fórmula já testada no país que mais levou a lógica dos negócios e da administração privada para o sistema público de ensino, com os resultados que conhecemos.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s