Eis a questão

Já abordamos neste blog as razões para os empresários estarem altamente interessados na questão da educação. Embora os empresários sempre estivessem de olho na educação, por razões ideológicas, agora temos um interesse distintivo se comparamos com outras épocas. Ele continua sendo ideológico, mas tem um sentido de urgência novo: derrubar custos da mão de obra, criando uma reserva maior de oferta. É o que reconhecem os economistas que estão processando dados do último PNAD:

“Isso tem diminuído o “estoque” de trabalhadores pouco qualificados, ainda mais em uma época de desemprego baixo, em que não há mão de obra “reserva” à disposição. Há agora, nas palavras de Marcelo Neri, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, sinais da existência de um gargalo.

Nas pranchetas dos economistas, esse gargalo –oferta pequena perante a demanda– significa maior remuneração.”

Leia aqui.

O fato é que, segundo esta reportagem, os salários cresceram 169% nos últimos 10 anos e a produtividade somente 1%. Eis a questão.

Na verdade, não importa ao empresário se todo o “estoque” tem qualidade. Ele selecionará, depois, os mais qualificados. Importa, agora, aumentar este “estoque” quantitativamente para que afete o salário médio pago pelas empresas, por um lado. Por outro, elevar em algum nível a qualificação relativa da força de trabalho de forma a fazer frente – aqueles que conseguirem emprego – às novas demandas tecnológicas e de gestão da força de trabalho, além de apoiar o desenvolvimento do ramo de serviços.

A atual situação derruba o lucro das empresas e força os empresários a encontrar estratégias de aumento da produtividade. Para agravar o quadro, o Brasil caiu 8 pontos no ranking dos países produtivos, segundo a última classificação.

“O Brasil perdeu oito posições no ranking global de competitividade, segundo o Relatório Global de Competitividade do Fórum Econômico Mundial. Na edição de 2013/2014 do ranking, o país aparece na 56ª posição entre 148 nações, contra a 48ª posição em 2012. Na prática, o país voltou para a colocação que exibia em 2009.”

Leia aqui.

Com um passivo educacional enorme, o atalho das políticas de responsabilização aparece como algo tentador e suficiente para alavancar os objetivos imediatistas dos empresários. É por isso que são os principais financiadores dos variados “Compromissos pela Educação” que pipocam em municípios e estados.

No topo desta pirâmide pelo “bem da educação” está o Movimento Todos pela Educação. Sua liderança máxima: Gerdau, o magnata da produção de aço, sentado à direita de Dilma Roussef.

O governo e o PT abandonaram seu projeto educacional original – se tinham algum. Pelo menos, pode-se dizer que alguns petistas tinham um projeto – a maioria fora dos quadros atuais do PT. Em algum blog anterior eu fazia esta crítica e perguntava o que aconteceria se Eduardo Campos deslanchasse. Com a articulação Marina/Campos, isso fica mais visível. O PT precisaria voltar às origens. Precisaria ligar-se aos movimentos sociais e à população em geral. Isso foi dito ao longo dos últimos 10 anos. Boa parte das entidades sindicais e acadêmicas se acomodaram na relação com o governo e não fizeram a crítica quando deviam, ou a fizeram de forma protocolar, sem a necessária mobilização social.

Em matéria de educação temos as propostas Haddad/Mercadante. Ambas insuficientes.

Mas não nos entusiasmemos com Marina/Campos. Campos representa o desenvolvimentismo de JK dos anos 50, agora tardio. Marina é cada vez mais uma oportunista que fala em “verde” e em “ecologia”, mas não tem em sua perspectiva a luta, por exemplo, pela agroecologia e não se liga com as lutas dos trabalhadores sem terra por um novo modelo de produção agrícola. Reforma agrária nem pensar. Portanto, não se distingue do agronegócio que destrói as terras e se apropria das sementes privadamente, transformando-as em “patentes transgênicas”. Agora, aliando-se com Campos, isso fica mais claro.

Na educação, Campos (do PSB) é o proponente da implantação em Pernambuco das escolas charters dos reformadores empresariais americanos, ou seja, da privatização da gestão das escolas públicas. Foi Campos que entusiasmou Alckmin a experimentá-las também em São Paulo. Claro que há uma plateia local que também apoia.

“Trata-se de um novo modelo de gestão pública não-governamental. Uma nova forma de institucionalidade foi estabelecida, por meio da qual o setor privado, representado pelo ICE, participa de forma solidária e co-responsável do conteúdo, método e gestão dos Centros. Não se trata de um mero aporte de recursos para complementar deficiências de caixa do governo. O ICE é um parceiro ativo que aporta uma proposta concreta para lidar com as questões de conteúdo, método e gestão dos Centros. No entanto, há também um compromisso financeiro explícito: o setor privado, por meio do ICE, compromete-se a assegurar recursos de apoio à implementação dos laboratórios, bibliotecas e salas emáticas. Excepcionalmente, participa também de investimentos na recuperação de instalações físicas, embora esse aspecto, em princípio, caiba como prioridade do governo estadual. Esta nova institucionalidade também prevê a participação dos municípios como co-responsáveis pelos Centros além, como já dito, das instituições locais da sociedade civil.”

Leia aqui.

Enfim, enquanto batemos cabeça, pela direita a oposição avança.

Talvez seja isso mesmo. Talvez esteja na hora de reabrirmos esta contradição novamente, fora do controle do PT. Continuar a apoiar a coalisão petista só valeria a pena se ficasse evidente que estamos avançando em matéria de educação para outra posição – diferente da empresarial. Isso não faz parte da evidência empírica disponível, por mais que entidades cooptadas e encantadas com o atual governo digam que é assim – é mais desejo do que realidade.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para Eis a questão

  1. ILANA CARDOSO DE GOUVEIA disse:

    SOBRE O PROJETO DE LEI QUE QUER REGULAMENTAR O TRABALHO TERCEIRIZADO!!

    CAMPANHA NÃO AO PL 4330

  2. ILANA CARDOSO DE GOUVEIA disse:

    Parece que você também se sente assim, professor Freitas:

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