“Educação e produtividade”: para se divertir…

Eu costumo ler a Folha em momentos em que, imobilizado pelas necessidades de manutenção do corpo, não posso fazer outra coisa ou então para me divertir. Você também pode começar seu dia de hoje, 5-01-14, dando boas risadas lendo o artigo da Folha de São Paulo na página A17 que trata sobre “Educação e produtividade”.

O texto escrito por Samuel Pessôa, economista da FGV, mostra com clareza a filosofia dos reformadores empresariais da educação. Trata-se fundamentalmente da relação entre a qualidade da educação e o aumento da produtividade. Todos sabemos que produtividade é um índice que é produto de uma variada gama de fatores. Mas este economista da FGV reduziu tudo a uma variável: educação. Devia concorrer ao premio nobel.

Muitas vezes disse neste blog ser esta a principal preocupação dos reformadores. Eles não estão interessados na formação humana – isso é um brinde para esforçados. O cerne da proposta educacional pode ser lida no destaque que aparece no texto: Diz ele: “Saber bem as quatro operações e ler com rapidez, por exemplo, torna mais produtivo o trabalhador”.

É o básico que é focado. E um básico instrumental, destinado a produzir mais. Como liberal, ele deve achar que se o trabalhador produz mais, ganha mais e vive melhor. Mas são os próprios economistas, como já indiquei aqui, que divergem dele. Primeiro porque a função da educação para a produtividade é aumentar o número de pessoas disponíveis e aptos para trabalhar em determinadas atividades e com isso, pela lei da oferta e procura, os salários tendem, em média, a ser menores – mesmo que para um indivíduo específico até possa aumentar.

A explicação desta aparente contradição está dada no próprio texto do autor quando diz que “No limite, como ocorre nos Estados Unidos, um trabalhador em uma drogaria consegue fazer o trabalho de vários balconistas brasileiros. Possivelmente o salário será bem maior”. Mas, na média, tendo demitido vários trabalhadores, a massa salarial cai e dá para dar um pequeno aumento a quem fica e ainda turbinar os lucros. Aquilo que à primeira vista é pintado como um grande bem para aquele que estudou as quatro operações, aumento salarial, é feito às custas da demissão de outros que tornam-se supérfluos – ou pela tecnologia ou pelo desempenho de outros. O aumento salarial dado a um indivíduo é compensado na média geral dos gastos com recursos humanos das empresas, o qual diminui. (Ver aqui também.) Daí o aumento da produtividade defendido pelo autor.

O foco é sempre este: produtividade. Isso significa menos gente fazendo mais coisas a um salário, em média, menor, maximizando lucros. É claro que este não pode ser o objetivo da educação, pois é estreito demais, vinculando a preparação da juventude apenas ao aumento da produtividade.

Mas note como é interessante a lógica dos reformadores. Ele diz: “A dificuldade que temos de reconhecer essa ligação deve-se a uma visão muito estreita do papel da educação”. Pasme! Nós somos os estreitos!! O indivíduo só pensa naquilo: produtividade. Nós defendemos a educação para a formação humana, ampla – incluída nela a preparação para o trabalho. E nós é que temos visão estreita!!

O autor, para sustentar sua posição, tem que citar algum outro autor que corrobore “cientificamente” a proposta de relação entre educação e produtividade feita por ele. Seu autor preferido é Eric Hanushek, um reformador empresarial americano, economista, que usa modelagens para fazer predições. Uma delas, por exemplo, propõe que se demitirmos 10% dos piores professores, os Estados Unidos aumentariam em bilhões a geração de riqueza das futuras gerações. Mas todos estes malabarismos estatísticos não são comprováveis. São especulações feitas com ajuda de modelos matemáticos e estatísticos que servem mais para impressionar do que para produzir política pública válida.

Samuel Pessoa afirma, por exemplo, que atualmente o desempenho dos estudantes medidos em testes padronizados são o melhor preditor de aumento de produtividade – diz ele:  “… a variável importante para determinar a relação entre crescimento econômico e educação não é a quantidade de educação (escolaridade média) mas, sim, a qualidade, medida pelo desempenho de estudantes em provas padronizadas”.

Mas nem todos pensam assim no mundo da economia e muito menos no mundo dos educadores profissionais. Já mostrei aqui os estudos de Levin, um economista, que afirma, contrariamente a Hanusek e a Samuel Pessoa que não são os testes padronizados que indicam a possibilidade de maior sucesso econômico de um país. Os testes padronizados não medem habilidades intra e interpessoais que Levin considera fundamental, junto com a capacidade de criação, de produzir inovações – pedra angular da empresa contemporânea.

“O mais importante nas próximas décadas é a extensão em que vamos cultivar a criatividade, a engenhosidade, a curiosidade, a inovação e formas de pensar de forma diferentes. Estas qualidades têm produzido a genialidade da cultura americana. Essas características não são medidas por testes padronizados. Os alunos que aprendem a selecionar quadradinhos em uma questão de múltipla escolha não serão os inventores e inovadores do futuro.”

Ou seja, Samuel Pessoa é um replicador da ideologia dos reformadores empresariais da matriz americana e nem se dá ao trabalho de olhar para os estudos que se contrapõem às suas afirmações. Isso porque a reforma proposta por eles é ideológica e não tem nada com ciência. É na verdade “junk science” – má ciência.

Mas este é o poder da mídia. O autor do artigo faz afirmações sem ter a responsabilidade de argumentar com dados que correspondam à complexidade da matéria e ao sentido tendencial dos dados no conjunto das pesquisas disponíveis na literatura; por outro lado, o Jornal, diz que não se responsabiliza pelo que seus convidados escrevem. A desinformação prevalece e os objetivos ideológicos são atingidos. E a vida segue…

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Links para pesquisas, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para “Educação e produtividade”: para se divertir…

  1. Fabricia biaso disse:

    Professor, gostei muito da reflexão abordada pelo Senhor. Sou estudante de mestrado em educação na Universidade de Aveiro / Portugal e a relação escola/produtividade apresentada me lembra um pouco a imagem organizacional da EScola como empresa !abraços!

  2. Alex disse:

    Grande Luiz Carlos de Freitas. Sábias palavras/reflexão. Compartilhado.

  3. Cláudia Melo disse:

    Os economistas não são educadores, eles não estudam a ciência da educação. Concepções humanistas, ideais de democracia e autonomia não estão nas pautas dos economistas. É muito importante que pesquisadores do gabarito do senhor, façam a crítica às estatísticas e interpretações deturpadas da realidade, para que estes estudiosos revejam seus conceitos e concepções à cerca do complexo movimento da educação enquanto ciência da formação humana.
    Sou uma estudante de mestrado e gosto muito de ler suas produções.

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