“Remédios” sem evidência

“Milagres educacionais” batem às portas das Secretarias de Educação todos os dias pela mão de mocinhos engravatados de pastinha na mão. Reportagem de hoje na Folha de SP (17-4-2014) no caderno Cotidiano diz: “governo não deve gastar com remédios sem evidência”. Refere-se a reportagem a uma rede de cientistas independentes que avalia a efetividade dos remédios na área da saúde chamada Cochrane Collaboration. No caso específico a investigação foi sobre a efetividade do Tamiflu. Diz a reportagem que “nesse ano a Cochrane desenvolverá uma lista de 200 assuntos prioritários para ajudar os formuladores de políticas de saúde, médios e pesquisadores a tomar decisões com base na medicina de evidência.

Não estou seguro se a evidência pode resolver todos os casos da medicina e muito menos os da educação, mas está claro que na educação há um descontrole geral sobre os “remédios” que Estados e Municípios compram da indústria educacional ou de ONGs, muitas vezes tendo a eficiência atestada pelos próprios vendedores ou por pesquisas encomendadas por eles mesmos e sem nenhum controle independente.

É fundamental que as universidades públicas – e as Faculdades de Educação – desenvolvam estudos independentes sobre a adequação das soluções que os vendedores educacionais estão ofertando a peso de ouro para Municípios e Estados. Isto inclui a venda de pacotes de avaliação e testes. A sociedade ficaria horrorizada se soubesse como os testes padronizados podem ser imprecisos. Mais ainda, se soubessem como seus filhos estão tendo suas vidas modificadas por testes nem sempre bem formulados.

A valorização dos professores das redes de ensino deveria incluir a criação de condições para que os próprios docentes da rede pudessem envolver-se com o desenvolvimento de materiais pedagógicos ao invés de optar pela cômoda e arriscada compra de produtos-padrão sem nenhum dado independente sobre sua efetividade. Ou ter que gastar dinheiro de qualquer forma na compra destes materiais para não ter problemas com os Tribunais de Contas por não atingir o mínimo obrigatório nos gastos com a educação. E quem sabe em muitos casos, engordar o caixa 2 das campanhas eleitorais.

E não é só o caso de materiais educacionais. Não raro estão sendo aplicadas soluções “ideológicas” cuja evidência empírica é nula – caso típico dos bônus meritocráticos distribuídos pelas redes de ensino – e que estão expandindo-se para outras áreas dos governos.

Embora sendo um setor diferente da medicina, a educação precisa apertar o cerco nos vendedores de produtos e “milagres” educacionais que diariamente batem às portas das Secretarias de Ensino. Temos que incentivar a avaliação independente das propostas e soluções que circulam pelas redes.

O mercado é bilionário – nos Estados Unidos atinge 800 bilhões de dólares/ano – e constitui, junto com a mídia, a base de defesa das teses dos reformadores empresariais da educação. Os reformadores criam as justificativas teóricas incluindo suas próprias “evidências”, o mercado fatura, a mídia enaltece e os políticos se reelegem. Tudo em nome do direito das crianças aprenderem, é claro. E o salário, ó…

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About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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3 Responses to “Remédios” sem evidência

  1. Avatar de Fabio Galvão Fabio Galvão disse:

    Caro Prof. Freitas: o senhor tem conhecimento de algum estudo sobre a eficácia destas apostilas empresariais? O senhor sabe se o estudo da Profa. Lisete Arelaro a respeito do sistema do Instituto Ayrton Senna, presente em 1.172 municípios brasileiros, comprova se ele é eficaz? Veja em http://www.iea.usp.br/noticias/pesquisadora-traca-panorama-do-ensino-publico-no-brasil

    • Prezado Galvão, a matéria da Prof. Lisete discute a questão da privatização e não a questão da eficácia das apostilas. O alerta em relação à falta de comprovação da eficácia de materiais comercializados nas Secretarias de Educação prende-se exatamente à dificuldade de se estabelecer modelos de verificação adequados para isolar o efeito de tais materiais sobre a aprendizagem dos estudantes. A educação é uma área onde os efeitos costumam estar associados simultaneamente a várias causas e não apenas a uma, no caso a introdução ou não de um material apostilado. Dai que seja difícil acreditar nas soluções que vendedores apresentam às Secretarias sem ter um estudo cuidadoso e validado independentemente por outros pesquisadores que não os interessados na comercialização. Existem muitos pesquisadores acompanhando o processo de privatização, mas a questão da eficácia prende-se a esta dificuldade objetiva de isolar variáveis o que torna os “milagres” apresentados às Secretarias mais desejo de vendedor do que realidade.

      • Avatar de fabío galvao fabío galvao disse:

        Entendo, professor Freitas. Apenas gostaria de saber se há alguma pesquisa que aponte se os alunos apredem alguma coisa com estas apostilas de sistemas privados. Se tivermos a comprovação de que elas não funcionam, será um bom argumento para tentar impedir que as secretarias comprem estes miliagres.

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