A esquizofrenia educacional dos reformadores

Samuel Pessoa comenta hoje (18-01-15) na Folha de SP o livro de Amanda Ripley “As crianças mais inteligentes do mundo”. É editado pela Três Letras, também do Grupo Folha de SP. Comentei o livro neste blog há algum tempo, pois sabia que ele ia parar na mídia sendo apropriado para justificar a política de reformadores empresariais como Samuel o faz. Samuel foi membro do grupo que organizou o programa de Aécio Neves (PSDB) e que recentemente lançou um “manifesto” pró reformas chamado Sob a Luz do Sol.

Comecemos por evidenciar que o trabalho de Amanda é jornalístico e não científico. Ela não faz uma pesquisa de educação comparada, como teria que ser. Apenas, como reconhece Samuel “oferece-nos uma viagem para três sistemas educacionais, dois de elevado desempenho, os casos sul-coreano e finlandês e um que tem apresentado progresso expressivo, o polonês”. Mas tal reconhecimento da natureza do trabalho de Amanda, infelizmente, não relativiza as conclusões de Samuel que, em seguida, fará recomendações de política pública a partir do sequestro das conclusões da autora em prol das ideias de reforma educacional empresarial.

Note-se de partida que a autora, e também Samuel, juntam sistemas que têm propostas de política educacional diferentes – sem falar das diferenças culturais. A Finlândia se destaca exatamente por negar a política dos reformadores empresariais da educação, pois não faz nenhum exame até que a criança termine o equivalente ao nosso ensino médio. Tem uma política de formação de professores de alto nível e controla o número de alunos em sala de aula em torno de 20, sem falar do salário. Nada disso emociona Samuel, no entanto. Sequer é mencionado.

Quando lembra da Finlândia é para dizer que:

“Na Finlândia, um dos melhores sistemas educacionais, segundo PISA, metade dos alunos com 17 anos em algum momento da vida escolar necessitou de aulas especiais e de recuperação. Nem por isso ficaram estigmatizados.”

Sem dúvida, pois não são expostos a avaliações ridículas que pretendem medir ano a ano a média das escolas ou dos alunos e controlar o trabalho dos professores. As avaliações de larga escala, quando existem, são amostrais, não identificam nem pressionam escolas e o professor é o condutor da avaliação de seus alunos. A filosofia é de confiança nos professores e não de certificar, avaliar e pagar bônus por desempenho como ele (e agora o Ministro da Educação Cid Gomes) propõe. Note que é isso que o sistema educacional americano fez nos últimos 30 anos e não deu certo. Tanto que Amanda corre o mundo procurando por soluções…

Mas Samuel prefere sequestrar a política educacional Finlandesa naquilo que lhe interessa para justificar suas teses já amplamente demonstradas ineficazes na literatura disponível. O ponto central desta crença é que notas mais altas são sinônimo de boa educação. Diz ele:

“Educação de qualidade significa que os alunos têm desempenho elevado em testes internacionais de proficiência como o PISA.”

Como já demonstramos, com a opinião de outro economista americano, Levin:

Na realidade, as relações entre os resultados medidos em testes e os ganhos de produtividade são modestas e explicam uma parcela relativamente pequena da maior ligação entre nível educacional e os resultados econômicos. O que é omitido em tais avaliações estreitas são os efeitos que a educação tem sobre o desenvolvimento das capacidades e habilidades interpessoais e intrapessoais e que afetam a qualidade e a produtividade da força de trabalho.”

Segundo Samuel (que concorda com Amanda) o PISA é bom porque: a) “as questões são formuladas para avaliar competências básicas nas soluções de problemas com que nos defrontamos ao longo da vida profissional e pessoal. Não se perde tempo com decorebas e erudição inútil.” E b) “até onde é possível haver “comprovação” empírica em ciência social, há sólida evidência de que desempenho elevado em testes como o PISA resulta em maiores taxas de crescimento. Como já apontei (…) educação é um dos fatores mais importantes a explicar as diferenças de produtividade do trabalho entre países.”

Tudo isso afirmado sem ter que demonstrar nada pois em linguagem jornalística isso fica liberado. Mas basta ler Levin, citado acima, para ver que não é bem assim. Pode-se consultar também os neurocientistas para ver a opinião deles sobre os testes padronizados e desenvolvimento intelectual.

A contradição vem do próprio texto “é bom porque as questões são formuladas para avaliar competências básicas”. Este é o nível de exigência dos testes padronizados, o que contrastará com o clamor por exigências de desempenho dos pobres mais adiante formulado por ele mesmo:

“As baixas expectativas do sistema – pais, professores e gestores – sobre o desempenho dos filhos, especialmente o dos alunos negros e pobres, constitui poderosa armadilha de pobreza”.

Ou seja, como já comentei aqui: a pobreza tem que ser “disciplinada” para poder aprender. Mas a exigência feita aos pobres não combina com a montagem de testes a partir de “competências básicas” como visto acima. Sem contar que é exatamente a falta de “erudição” considerada inútil, que pode nos levar à carência de um dos aspectos mais importantes do crescimento econômico dos países: a inovação.

Ou ainda como aponta Ravitch:

“O mais importante nas próximas décadas é a extensão em que vamos cultivar a criatividade, a engenhosidade, a curiosidade, a inovação e formas de pensar de forma diferentes. Estas qualidades têm produzido a genialidade da cultura americana. Essas características não são medidas por testes padronizados. Os alunos que aprendem a selecionar quadradinhos em uma questão de múltipla escolha não serão os inventores e inovadores do futuro”. Veja aqui.

Finalmente, cabe assinalar como reconhece Samuel que:

“O livro não apresenta o mapa do tesouro para chegar à educação de qualidade para todos. Qualquer pessoa que já gastou algum tempo nesse tema descobriu que não há bala de prata e que as soluções serão locais e a partir do que se tem. Mas há alguns princípios gerais que são comuns aos sistemas bem sucedidos.”

Os princípios gerais dizem respeito a “bom recrutamento de professores”, leia-se “altamente seletivo” e “haver elevada expectativa sobre o resultado e cobrança estrita de desempenho”. Tudo que a Finlândia faz, mas não a partir da teste-mania, mas sim da confiança nos seus professores. Finlândia é a antítese da proposta dos empresários.

Para completar o sequestro das ideias finlandesas, colocadas agora sob a direção dos reformadores empresariais, Samuel recomenda que o leitor depois de ler Amanda, leia João Batista Araujo e Oliveira, ou seja, um reformador empresarial. Como Amanda não é conclusiva, ele sugere que o leitor agora chegue às conclusões que ela não chega lendo João Batista, empresário e diretor do Instituto Alfa e Beto. O peixe morre pela boca.

Como mostra Amanda, a Finlândia vai bem, obrigado. Os americanos vão mal, tanto que estão vasculhando quem tem sucesso para copiar. A pergunta que não cala é por que os reformadores empresariais brasileiros e agora o MEC seguem nesta esquizofrenia educacional de copiar as soluções americanas que NÃO deram certo e deixam de considerar a política educacional finlandesa que dá certo.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Cid no Ministério, Links para pesquisas, Meritocracia, Pisa, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para A esquizofrenia educacional dos reformadores

  1. Silvio Benitez disse:

    os reformadores empresariais da educação buscam por “soluções mágicas” e com isso movimentam quantias consideráveis dos recursos com palestras, livros e cursos, em Foz do Iguaçu tentaram “vender” a idéia da alfabetização pelo método fônico, gastaram tubos e no final os professores aproveitaram muito pouco dessa “técnica”. O que chama a atenção é o filão que chegará a 10% do PIB, quanto a educação de fato com bons professores, salários dignos como no caso da Finlândia eles não tão muito preocupados.

  2. Pingback: Factcheck: resultados em testes e produtividade | AVALIAÇÃO EDUCACIONAL – Blog do Freitas

  3. ivanete cesar klimesch disse:

    .Prof.Luiz Carlos….cheguei até seu blog,por mera causalidade,isso pq,estava lendo a revista Carta Fundamental 07/08 de 2014,onde está um artigo ,de sua autoria:”Mobilizar a Comunidade”,ao lado de um outro artigo”Que tal Acreditar”,escrito por um prof.lá de Cocal dos Alves,no Piaui,que embora sendo profª de Geografia,estou bastante distante…Onde entra o meu comentário ? Na palavra Educação…pois toda vez que leio ou escrevo essa palavra,o meu cérebro arrepia….e me faz correr para uma livraria,ou reler meus apontamentos..sei lá quero acertar e isso estando à caminho do compulsório e ainda na ativa com classes de 8º e9º anos…Estando há 45 anos dentro da sala de aula,sem se fossilizar,cheguei a uma ou várias conclusões:o Estado gasta errado,não valoriza os seus profª,permite o acúmulo de cargos em diferentes esferas,dando preferência,por lei ,à eles um horário nada pedagógico,não obediência dos próprios prof.ao PPPE,questão do próprio planejamento,heterogeinidade das classes,pela própria mobilidade dos alunos,e a própria esquizofrenia pela matemática e lingua portuguesa…e os alunos terminam o ano ,dizendo nois vai e nois vorta e confirmando que 6 x 7 = 58….Por causa da sua análise , não vou correndo comprar o livro,embora sem perder as esperanças vou procurar mais um.. como motivar um aluno ou novas dinâmicas de convivência,pois 02/02 está perto…..!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s