Ofuscado pelo discurso de Dilma na sua posse, com uma fala esvaziada em relação às pautas educacionais e seus problemas, recheada de obviedades, a posse do novo ministro da educação vai passando para as páginas secundárias da mídia.
“Comparo com a saúde. Pesquisas mostram que há mais satisfação com a educação do que com a saúde. É um engano. Mas qual a sua causa? É que a saúde dispõe de um alarme, a dor. Quando dói, sabemos que precisamos de ajuda médica. Quase todas as doenças têm sintomas. Mas não há um alarme que dispara para a ignorância, o desconhecimento. O bom no doente é que ele sabe que precisa de cuidados e os procura. O ruim na educação é que justamente quem mais precisa dela é quem menos sabe disso. A ignorância não dói.” (…)
“Por isso conclamo todos os que estão conosco a economizar. Esta preocupação pode começar pelos atos mais simples. Vocês terão notado pequenos cartazes, neste prédio, pedindo que todos nós reduzamos gastos com energia elétrica e com impressão de papéis. Cada real poupado na impressão será conquistado para a educação. Desta maneira procuramos dar o exemplo de um empenho em preservar e ampliar o essencial, sacrificando o excesso. Queremos gerar símbolos para que as ações do MEC tenham o máximo retorno e estejam pautadas sempre pelo mérito na oferta e pela justiça na distribuição.”
Precisaremos mais do que símbolos. O discurso de posse é uma peça difusa que mais se dedica a ressaltar o papel da educação na sociedade e a situar o lugar da agenda do governo Dilma na evolução dos acontecimentos políticos.
Clovis Rossi lembrou neste domingo que em 2009, Janine propôs uma “grande coalizão” entre PT e PSDB. A página de chamada do MEC noticiando a posse do ministro insiste na ideia: “Janine Ribeiro pede união de toda a sociedade para que o Brasil possa avançar na educação“.
É verdade que as distinções estão se desfazendo há algum tempo. Mas se era inviável naquela época, só mesmo vivendo no reino de uma certa Filosofia, para achar que, hoje, com o aprofundamento da crise política, haveria espaço para este “diálogo”. Nem mesmo o PMDB quer muita conversa com o PT, imagine-se o PSDB.
Vivemos em um momento em que PSDB, PMDB e PSB começam a disputar o espólio político do PT. Esta é a dificuldade de manter o PMDB (e outros) quieto na base aliada. Ele não pode sair, pois tem a vice-presidência da República, mas quer distância do governo, porque quer chegar a 2018 livre e solto em relação ao PT. Setores do PMDB já anunciam que fará voo solo e terá candidato próprio. Por que ia querer chegar em 2018 carregando os problemas do PT? Isso deixaria caminho livre para o PSDB. Para sobreviver nesta dúbia situação, nada melhor do que o vice Temer – a esfinge.
Para ser candidato a “grande coalização” é preciso se ter um projeto crível e que tenha apoio. O projeto PT, pelo menos neste ciclo, está encerrado. Não há outro visível. Não é uma questão de “fases” de um projeto em andamento com agendas sucessivas, como sugere Janine em seu discurso. Ele acabou, simples assim.
Neste quadro, a coalização de Janine tem outro nome: capitulação. É fazer a política do outro para não morrer prematuramente. Quem ganha com isso? Certamente não a educação pública.
Não há no discurso do ministro nada que o identifique com a defesa da educação pública de gestão pública. Fala-se em obviedades como valorização do professor, qualidade da educação, etc. Mas tudo isso pode ser feito de muitas maneiras, inclusive apostando na privatização. A “grande coalização” para fazer a política do outro, não interessa às forças progressistas que estão na origem do projeto do PT.
Infelizmente a agenda educacional atual está dividida entre soluções tipo PSDB que puderam ser conhecidas nas últimas eleições (e nos estados e municípios administrados pelo PSDB) e em uma não-agenda do PT. Sempre apostamos na constituição desta agenda progressista. Era hora de definição. Hora de se colocar claramente a necessidade do fortalecimento do sistema público de educação – com gestão pública – e construir os meios para tal.
Bom que o ministro tenha se lembrado das Universidades Federais e de seu papel na educação, mas, a educação pública não será fortalecida com a improvisação de professores “temporários” recém formados prestando serviço obrigatório nas escolas em pagamento da formação universitária que receberam – e certamente junto aos que mais precisam, os pobres. Estes, principalmente, precisam de professores qualificados, mais experientes, bem remunerados, com perspectiva profissional, com carreira e outras coisas que já sabemos muito bem. Temos acúmulo de estudos na literatura sobre o uso de professores improvisados nos Estados Unidos, em modelo distinto mas de igual impacto, representado pela TFA – Teach For America. A educação não é coisa para serviço “voluntário”.
Uma coalização, nestas condições, é nada mais do que acolher uma “agenda suprapartidária” oculta que, no fundo, faz o projeto da centro-direita.
E aí, me desculpem os entusiastas do ministro, mas PNE não segura isso, pois lá estão embutidas todas as ferramentas para se realizar o projeto dos reformadores empresariais. E aguardem pela Lei de Responsabilidade Educacional.
Se caminharmos nesta direção, vamos ficar com saudades da “não-agenda” do PT.
Nunca depositei nenhuma esperança neste Ministro Epicurista Janine