Sem desculpas para aprender

Henry Giroux escreve sobre um fato ocorrido em uma escola de Kentucky e que é revelador deste clima de violência institucionalizada contra jovens e crianças que estamos assistindo em vários países. Lá nos Estados Unidos há cadeias inteiras de escolas charters que operam sob as normas conhecidas como “no excuses” que comentei em um post há algum tempo. Trata-se de um endurecimento da disciplina nas escolas, na esteira da aliança liberal/conservadora em curso para retomada do Estado, inclusive no Brasil.

Aqui, recentemente, viu-se endurecimento semelhante nas declarações que deu Viviane Senna a jornais: “Ninguém vai aprender se não for responsável, se não ralar”. Estes sinais apontam – juntamente com a discussão sobre a redução da maioridade penal em curso – para reflexos destas políticas no Brasil.

Tal ideologia que está sendo difundida pode vir a incentivar situações como a relatada por Giroux nos Estados Unidos:

“Estas práticas duras foram infligidas desproporcionalmente para as crianças pobres e as crianças negras que sofrem de problemas de saúde psicológica, tais como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Isto foi o que se viu na mídia social com um vídeo que divulgou um menino de 8 anos de idade na terceira série em uma sala de aula da escola primária em Covington, Kentucky, gritando de dor, porque ele estava sendo algemado com os braços colocados atrás de suas costas. De pé ao lado da criança está um policial, o policial Kevin Sumner, que manda uma mensagem assustadora: “Ou você se comporta da maneira que é esperada ou você sofre as consequências.” A criança, mais tarde descobriu-se, sofria de uma deficiência de aprendizagem.

De acordo com o The Guardian’s Ed Pilkington, “Charles Korzenborn, o Chefe da Polícia de Covington, Kentucky … defendeu o oficial … alegando que o ele não tinha feito absolutamente nada de errado.” O xerife disse que o policial tinha feito “o que ele jurou fazer e em conformidade com todas as normas de aplicação da lei constitucional e …. eu firmemente apoio o policial Sumner que respondeu ao pedido de ajuda da escola. Sumner é um policial altamente respeitado e experiente, e é um instrumento da comunidade e daqueles que ele serve. ” Alegadamente, Sumner estava respondendo ao apelo da escola para conter “uma ameaça.”

É difícil imaginar que tipo de ameaça representa uma criança de uma escola primária com 8 anos de idade seja para a escola ou para a polícia. Nesta situação aqui não há apenas um tipo de racionalidade bizarra em que uma pessoa se torna um trunfo para a comunidade por algemar e prender um menino de 8 anos de idade, mas também o flagelo de uma ignorância deliberada que é a recusa em conhecer ou reconhecer quando um ato de violência está sendo cometido contra uma criança.”

Devemos lembrar também a questão dos colégios em Goias que estão sendo administrados pela polícia militar.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Sem desculpas para aprender

  1. geraldo disse:

    “A guerra ao terror” chega as escolas.

  2. M. Estela Sigrist Betini disse:

    É assustador, a violência institucionalizada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s