Seminário Unibanco: a reunião do “clube” – I

Reformadores empresariais, gestores públicos em postos de comando e convidados estrangeiros reuniram-se esta semana sob a batuta do Instituto Unibanco para legitimar ideias antigas sobre gestão escolar (na ausência dos reais gestores das escolas). Elas são apenas reprise do que já foi alardeado em outras ocasiões: na base da análise, o pressuposto de que o “controle da escola” nos salvará. A isto chamam “gestão”.

Tudo com direito a amplificação de suas brilhantes soluções pela grande mídia, capitaneada pela Folha de São Paulo. Mas detalhe: sem discutir os resultados práticos obtidos por tais ideias, já antigas no cenário internacional e sem incluir aqueles que pensam diferentemente, ou seja, sem a presença do contraditório. Cenário ideal para o “clube” debater ideias que não podem ser, pela via da ciência, fundamentadas em pesquisa. Boa parte delas é “junk science“.

O Unibanco é antigo conhecido. Em 2012, registramos aqui no Blog que o então Ministro da Educação Aloisio Mercadante anunciava parceria com este Banco na área da gestão via Ensino Médio Inovador:

“Pará, Ceará, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo e Piauí unidades da Federação que participam do programa Ensino Médio Inovador, do governo federal, também irão integrar o Projeto Jovem de Futuro, que é uma iniciativa do Instituto Unibanco. Estes estados vão receber apoio técnico para qualificar a gestão do ensino médio. Um termo de cooperação técnica, assinado nesta terça-feira, 14, entre o Ministério da Educação e o Instituto Unibanco, garante a parceria.

De acordo com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, o índice de evasão no ensino médio é muito grande e os governos da União e dos estados precisam ampliar as parcerias em busca de soluções para o problema. Desde 2009, quando foi instituído o Ensino Médio Inovador, o MEC repassa recursos para que as secretarias estaduais de educação reestruturem os currículos e aumentem progressivamente o número de horas de aula anuais.”

“A superintendente executiva diz que a meta deste ano é trabalhar com 789 escolas públicas de ensino médio; em 2013, com 2.185, e em 2014, com 4.125 dos estados participantes. Ela estima que o instituto vai investir, nos próximo cinco anos, R$ 233 milhões em assistência técnica no projeto.”

Agora, três anos depois, o mesmo Instituto Unibanco promove um Seminário sobre Gestão Escolar para amplificar suas recomendações para a educação e, como sempre, procura um Jornal de grande circulação para colar nele tais recomendações e sugerir soluções para os problemas não resolvidos. Note, nem sequer se propõe a iniciar tal seminário com a apresentação de um relatório do que fez até agora e de seus sucessos e insucessos. Quer mais.

Neste esforço por disputar a agenda educacional, na forma típica de atuação dos reformadores empresariais, o Instituto Unibanco convida o Ministério da Educação e Secretários de Educação alinhados com tais ideias – responsáveis pela articulação da política educacional – e a Folha de São Paulo – como forma de difusão de suas ideias. Os pesquisadores convidados são apenas os que têm carteirinha no clube dos reformadores empresariais da educação. Elimina-se vergonhosamente o contraditório e coloca-se o pensamento único na base da reflexão. Eventuais divergências que escapam são minimizadas e retraduzidas para a fala oficial do “clube”.

Mas vejamos se você reconhece os “especialistas brasileiros em gestão escolar” que foram reunidos pelo Seminário do Unibanco/Folha, para discutir gestão escolar:

Julio Cesar da Costa Alexandre – Secretário Municipal de Educação de Sobral (CE); Maurício Holanda Maia – Secretário da Educação do Estado do Ceará (CE); Priscila Cruz – Diretora Executiva do Movimento Todos pela Educação; Maria Helena Guimarães Castro – Diretora Executiva da Fundação Seade (SP); Reynaldo de Barros – Economista e membro da empresa METAS; Ricardo Paes de Barros – Economista, Professor do INSPER e membro do Instituto Airton Senna; Francisco Soares – Presidente do INEP e Estatístico; Vinícius Mota – Secretário de Redação da Folha; Ricardo Madeira – Professor de Economia da USP; Raquel Teixeira – Secretária de Educação do Estado de Goiás (GO); Lucia Couto – Gerente de Desenvolvimento e Conteúdos do Instituto Unibanco; Claudia Costin – Diretora sênior para Educação do Banco Mundial; Manuel Palácios – Secretário de Educação Básica do MEC, membro do CAED de opera no mercado de avaliação educacional; Ricardo Henriques – Superintendente Executivo do Instituto Unibanco; Ana Estela Souza Pinto – Diretora de Mercado da Folha; Pedro Malan – Vice-Presidente do Conselho do Instituto Unibanco;Mirela de Carvalho – Gerente de Gestão do Conhecimento do Instituto Unibanco; Sergio Roberto Gomes de Souza – Diretor de valorização dos profissionais da educação da SASE – MEC; Daniel Cara – Coordenador geral da Campanha Nacional pelo direito à Educação; Renato Janine Ribeiro – Ministro da Educação do Brasil.

Estes profissionais, todos respeitáveis em suas respectivas profissões, mas cuja imensa maioria conhece a escola apenas por ter passado por ela quando era criancinha (ou através de seus filhos, na vida adulta), têm soluções e falas lapidares para e sobre a gestão da escola pública. Comportam-se como se estivessem administrado escolas públicas por décadas. Exemplos:

“Educar é tirar de dentro o potencial que todo ser humano tem ao nascer” – Raquel Teixeira

“Há 20 anos o SAEB mostra que não cumprimos nossa missão histórica que é garantir a aprendizagem” – Lucia Couto

“Temos que pensar em entregar autonomia e proteger a educação da captura política” – Ricardo Madeira

“O Brasil tem dificuldade com as palavras “sucesso” e “resultado”, mas os dados provam que, onde há sucesso, é em razão de uma boa gestão” – Francisco Soares (MEC -INEP)

“Se o Brasil quiser seguir nessa forma de provisão da educação pelo Estado, temos que pensar em entregar autonomia e proteger a educação da captura política” – Ricardo Paes de Barros

“O segredo do sucesso parece estar na gestão e no monitoramento das aprendizagens…” -Maria Helena G. Castro da Fundação Seade.

Estas são as tônicas. Há outras falas, mas são “capturadas” por estas falas hegemônicas e retraduzidas para o entendimento de que a gestão nos salvará. Por quê?

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Janine no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

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