Seminário Unibanco: a reunião do “clube” – II

No post anterior vimos como o Seminário do Unibanco elimina o contraditório seja pela omissão daqueles que praticam de fato a gestão escolar nas escolas, seja por aqueles que pensam teoricamente a gestão escolar. Terminávamos perguntando o porquê de se ver na gestão da escola uma variável “radical”. A resposta é que para estes especialistas, gestão é igual a controle.

Alguém dirá que eles até falam de “autonomia”. Sim, mas a autonomia que recomendam é a da privatização, da flexibilidade para demitir, da retirada da estabilidade no emprego. Propugnam por uma autonomia de gestão que visa retirar, no momento seguinte,  a autonomia pedagógica do professor e fazer dele um seguidor de “protocolos”. Isso aparece nas discussões do seminário como sendo ligado à gestão, e no documento da Pátria Educadora de Mangabeira aparece como “protocolos de ensino”. Gestão e ensino por protocolos, é desta autonomia que falam.

Para os proponentes do seminário, autonomia da gestão equivale a contratar Organizações Sociais para gerir as redes e permitir que elas contratem e demitam diretamente os professores e demais agentes, ou seja, “administrem com mais autonomia a escola”. Estão pensando nas “Escolas Independentes” e no aparato de “inspeção escolar” da Inglaterra. Para eles, esse é o significado de “entregar autonomia”. É um conceito restrito e autoritário de gestão. Sua autonomia é igual a aumento do controle transferido para a ponta, ou seja, para o diretor, para o gestor privado. Por isso, quando eles dizem “gestão” querem de fato praticar “controle”. Quando dizem “autonomia”, querem dizer “maior autonomia para controlar”.

O executivo do Instituto Unibanco frisa que a gestão não é a “solução mágica” para todos os problemas da educação do país, mas que um “componente pouco glamourizado” e “uma variável radicalmente necessária” para o sistema. “A [boa] gestão pode harmonizar o processo e o uso dos recursos disponíveis. Ela permite, face a todas as adversidades estruturais, um padrão mínimo de qualidade.””

Na frase seguinte do executivo, aparece o real sentido oculto:

“A principal vantagem, segundo o especialista, é que possibilita criar um método no qual os padrões regulatórios e protocolos de ação possam ser reproduzidos e que, sobretudo, promovam a corresponsabilização dos atores envolvidos no processo educativo.” (Grifos meus.)

No entanto, esta agenda testada em variados países, não conduziu por lá a resultados com equidade e nem a melhorias persistentes. Produzem soluços nas curvas de aprendizagem e empacam, além de aumentar a segregação escolar. O Seminário, no entanto, evita trazer para o debate os resultados concretos obtidos por tais propostas. Nada é dito sobre isso. Não convém. Ocorre que não é de resultados que se está falando neste seminário e sim de “interesses” – estas propostas movimentam todo um mercado educacional e por outro lado atendem a interesses ideológicos de grupos econômicos que disputam a agenda educacional. Para Pedro Malan, por exemplo, tais experiências são dadas como exitosas (mesmo sem ele demonstrar tais êxitos) e portanto “não há que se inventar a roda”. Ou seja, não percamos tempo com demonstrações de resultados. É crença associada a interesses.

Um encontro como este, sem contraditório, perde credibilidade, vira “clube” e destina-se a passar a falsa ideia de que as soluções estão à mão, bastando a vontade para implementá-las – ou seja, bastando a adesão da “alta gerência”. Apropriam-se do “sentimento de subalternidade” que toma conta do país para trazer “o novo” praticado em outros países, e pegar carona na baixa estima nacional. Escolhem o que consideram “países modelos”, ou “países de referência” de acordo com a conveniência de suas ideias e interesses.

As receitas recomendadas – alardeadas como modelo para o Brasil – importadas de países onde elas mesmas não são bem-sucedidas, são produzidas de costas para os profissionais da educação das redes e das próprias universidades brasileiras. Para este “clube”, os profissionais das redes não sabem formular soluções e resolver os problemas educacionais com os quais convivem diariamente. Centenas de pesquisas feitas em nossas universidades, pagas com recursos públicos, descrevem o cenário da gestão nas nossas escolas. Mas estas pesquisas não servem para o “clube” que prefere suas próprias “pesquisas”.

Ignoram os resultados da Conferência Nacional de Educação – CONAE. Pasmem: nem o Ministro e nem seus Secretários presentes lembraram da CONAE que eles mesmos financiaram. Lá há todo um eixo relativo à gestão. O Ministro faz cara de paisagem e aborda generalidades inócuas que não se convertem em política e que já está cansado de repetir, cansando por tabela a “patuleia”, enquanto os reformadores empresariais do Ministério, notadamente Manuel Palácios e Francisco Soares, correm soltos implementando suas ideias.

Soares anunciou a Plataforma de Devolutivas no seminário da UNDIME, mas não o fez no dia seguinte no Seminário de Educação promovido pelo CEDES, com uma plateia de educadores de vários estados. Palácios esteve com as entidades educacionais antes do Seminário do Unibanco, mas não anunciou a elas a certificação de Diretores. Preferiu fazê-lo durante o próprio Seminário do Unibanco. O que estamos esperando para tirar conclusões? Com quem é o compromisso?

Continua no post seguinte.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Janine no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Seminário Unibanco: a reunião do “clube” – II

  1. Ivany Pino disse:

    Luiz só li o enunciado do seu texto mas o lerei daqui a pouco. De fato o que está acontecendo é a incorporação da Nova Gestão Pública, movimento que começou na Inglaterra com a Dama de Ferro. Esse movimento chegou no Brasil através das avaliações por resultado, o que exige o Direito à aprendizagem, como forma de resolver o direito à Educação (art. 205 da Constituição) e que trouxe consigo a BNC Curricular, mas agora está chegando o outro braço que é o controle da gestão o que o Instituto Senna defende depois de vários anos……

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