Por que entrar se quem está dentro quer sair?

Como já indicamos em outros posts, o anúncio do desastre dos resultados da avaliação nacional da educação básica americana foi antecedida pela divulgação da substituição do Ministro da Educação Arne Duncan e por um documento da administração Obama noticiando uma proposta de mudança para a política de avaliação nacional. Veja alguns trechos da análise de Jesse Hagopian produzido para o Blog de Diane Ravitch:

Acesse o texto completo aqui.

“Em uma virada impressionante na semana passada o presidente Obama anunciou que “testes desnecessários” estão “consumindo muito tempo de instrução” e demandando “esforço impróprio de educadores e alunos.” Raramente há um presidente que tenha repudiado tão completamente um aspecto definidor da sua própria política pública educacional. Em um vídeo de três minutos anunciando esta reversão, Obama faz piadas sobre o quão estúpido é sobrecarregar os estudantes de testes, e recorda que os professores que tiveram maior influência sobre a sua vida não foram aqueles que o prepararam para os testes padronizados. Talvez Obama espere que esqueçamos que foi seu próprio Ministro da Educação, Arne Duncan, quem radicalmente reorganizou o sistema educacional americano em torno da todo-poderosa pontuação dos testes.

A declaração de Obama vem na sequência de mais um estudo revelando o número esmagador de testes padronizados que as crianças são forçadas a fazer: O aluno médio hoje é submetido a 112 testes padronizados entre a pré-escola e a conclusão do ensino médio. Porque é o que nós temos exigido e recompensado e o sistema educacional da América tornou-se completamente fixado em quão bem os alunos se desempenham em testes. Além disso, a maior concentração destes testes está em escolas que atendem alunos de baixa renda e estudantes de cor.” (…)

“Estas políticas, por sua vez produziram o maior levante contra testes de alto impacto da história dos EUA. Para dar-lhe apenas alguns exemplos do tamanho e escopo desta Luta sem precedentes: os alunos realizaram greves de testes em Portland, Chicago, Colorado, Novo México, e outros. Os professores de Seattle a Toledo a Nova York se recusaram a administrar testes. E o movimento dos pais retirou as crianças dos testes explodindo em um movimento social de massa, incluindo cerca de 60.000 famílias no estado de Washington e mais de 200.000 famílias em estado de Nova York.” (…)

“E deve ficar claro que este levante nacional, esta Primavera Educacional, forçou a testocracia a recuar e é a razão pela qual a administração Obama chegou à compreensão atual sobre os testes nas escolas.

No entanto, a testocracia, tendo acumulado tanto poder e riqueza, não vai apenas escapulir no silêncio da noite. Um vídeo no facebook de Obama não vai convencer a corporação Pearson a desistir dos seus $ 9 bilhões em lucros corporativos com testes e livros didáticos. O emaranhado de testes promulgados pelo governo federal agora está incorporado nos sistemas estaduais e distritais.” (…)

“O principal cúmplice de Obama na proliferação de testes caros, Arne Duncan, disse que “é importante que todos nós sejamos honestos conosco mesmos. No âmbito federal, estadual, e no nível local, todos nós apoiamos políticas que contribuíram para o implementação do problema. ” (…)

Sim, vamos todos ser honestos com nós mesmos. Honestidade requer o reconhecimento que as pontuações em testes padronizados demonstram principalmene o nível de renda familiar de um aluno, não o quão bem um professor treinou o aluno a preencher quadradinhos em testes. Honestidade exige que nós reconheçamos que o maior obstáculo para o sucesso dos nossos alunos é que os políticos não são responsabilizados pelo fato de que quase metade das crianças das escolas públicas agora vive na pobreza. O Congresso, que está debatendo a nova revisão da política de educação federal, deveria se concentrar na proposta de programas para apoiar as crianças desfavorecidas e deixar a política de avaliação para os educadores locais.

Eles demonstraram que não conhecem a melhor forma de avaliar os nossos alunos e agora admitiram isso. É hora de ouvir aqueles que como nós têm defendido colocar um fim à prática infindável de ranquear e classificar nossos jovens com testes de alto impacto. É hora do Congresso revogar a exigência de testes padronizados para cada nível de ensino. É hora de acabar com o reinado da testocracia e permitir que os pais, alunos e educadores implementem avaliações autênticas projetadas para ajudar a aprendizagem do aluno e desenvolver a criança como um todo.”

Este é um recado veemente para os nossos políticos brasileiros que estão empenhados em replicar, no Brasil, um caminho que a prática mostrou ser equivocado. Quanto mais rapidamente cheguemos a esta conclusão, mais rapidamente encontraremos o caminho para a real melhoria da nossa qualidade de ensino.

Engana-se, quem pensa que poderemos fazer melhor por aqui, trilhando o mesmo caminho. Não há versão 2.0. A força do mercado é quem comanda a testocracia.

O fracasso dos processos de avaliação de alto impacto é também o fracasso das estratégias adicionais americanas das escolas charters e das políticas de bonificação, bem como das práticas de alteração da carreira dos professores que lhes retiraram a estabilidade no emprego, para instalar políticas de pressão sobre o magistério. Estas políticas não fracassaram só nos Estados Unidos. Também fracassaram onde já foram copiadas nas últimas décadas, como no Chile (veja aqui e aqui) e a Suécia (veja aqui), por exemplo.

Os acontecimentos americanos coincidem com o anuncio de que Goiás vai terceirizar no formato das escolas charters americanas 30% da sua rede estadual.

Se quem entrou quer (ou teve que) sair, qual a razão para entrarmos?

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Meritocracia, Patria Educadora, Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

5 respostas para Por que entrar se quem está dentro quer sair?

  1. Fabricio disse:

    Caro professor, os teste de alto impacto não seria somente a periferia do problema, não deveríamos criar um movimento contra a gestão gerencial nas escolas públicas? O modelo da Gide é um exemplo disso, esse modelo se baseia no método PDCA, que utilizado nas empresas. Esse método serve como uma nova regulação do trabalho docente e tem intensificado a precarização do trabalho docente (LAMOSA e MACEDO, 2015).É uma questão para reflexão.

    • Os testes são o centro da política dos reformadores empresariais da educação e fazem parceria com a noção de base nacional comum. Um não vive sem o outro. Mas é claro que não esgotam todo o arsenal da política global proposta por eles. Sem dúvida temos que ter como referência o conjunto da proposição: avaliação, responsabilização, meritocracia e privatização. Abraço.

      • Tania Cristina Bassani Cecilio disse:

        O Estado tem inclusive “explorado” o setor particular. A exemplo disso, o governo do Estado de São Paulo, não repassa recursos (que contratou ) para as instituições se o aluno faltar da aula. Pratica comum no programa RETEC (que forma técnicos de nível médio). As instituições são tratadas simplesmente como fornecedores.

  2. Tania Cristina Bassani Cecilio disse:

    A avaliação formativa tem capacidade emancipatória, a regulação não. A avaliação institucional formativa pode contribuir para a melhoria da qualidade da educação. A regulação forma intencionalmente a opinião da sociedade contra os educadores e contra as escolas.

    • É o que se tem observado na prática e nas falas dos reformadores empresariais. A escola e seus profissionais são um dado “econômico” e que se mede pela “eficiência” e não pela sua natureza cultural. Na realidade se comportam como “vândalos culturais”, como no caso do Estado de São Paulo, fechando escolas.

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