Avaliação “adaptativa”: de volta ao passado?

Tentando fugir das críticas dirigidas aos processos de avaliação em larga escala, notadamente, a demora na devolução dos resultados das avaliações e sua pouca adaptabilidade ao desenvolvimento da aprendizagem das crianças, os produtores de avaliação estão retomando a antiga estratégia dos “sistemas de instrução personalizados”. O diferencial de hoje é o desenvolvimento tanto dos recursos tecnológicos usados na mediação do conhecimento com o aluno, como em uma série de ciências que dão suporte ao entendimento dos processos de aprendizagem.

Os anos de 1960 até 1980 foram pródigos nesta discussão, mas o desenvolvimento do PC, o computador pessoal, somente se firmaria paulatinamente a partir dos anos 80, quando este debate perdia força. Um dos impulsionadores desta temática foi B. F. Skinner que pretendia desenvolver uma “tecnologia do comportamento” que desse base para o desenho de sistemas personalizados de instrução – SPI. A área recebeu atenção da incipiente informatização da época e foi tratada sob o título de Computer Assisted Instruction – CAI. Com a contribuição de T. Gilbert, estes desenvolvimentos foram mais direcionados à área empresarial do que à educacional, nos anos seguintes.

A questão deve, agora, retornar com força. Os produtores de avaliação, por exemplo, já vislumbram, com apoio da atual tecnologia da área da informática e das comunicações, a retomada das “tecnologias de ensino adaptativas” veiculadas “on line”. Ecos disso, são as insistentes iniciativas de ampliação da “banda larga” para acesso à internet na área da educação, associadas à transformação das avaliações com lápis e papel (estáticas) em avaliações “on line” associadas a processos de aprendizagem ou não (chamadas dinâmicas ou adaptativas). Elas pretendem que o desenvolvimento do aluno seja guiado pelas avaliações, e se dê orientado pelo desenvolvimento progressivo da sua própria “competência” – daí alguns a chamarem de “competence-based-instruction”. O Estado de Nova York pretende gastar 40 milhões de dólares nisso para instrumentalizar sua rede.

Com isso, o processo de avaliação fica “embarcado” no próprio processo de aprendizagem e o aluno vai sendo posicionado imediatamente em relação às suas estratégias futuras de aprendizagem, bem como é permanentemente avaliado. Fugindo das críticas atuais às formas de avaliação estáticas, as formas dinâmicas vão trazer de volta um conjunto diverso de críticas para serem debatidas como: a redução da interação do professor no processo de aprendizagem da criança, a ilusão da substituição do professor como forma de obviar as dificuldades de formação e recrutamento, o isolamento da criança na aprendizagem, o estreitamento curricular, distúrbios de atenção e outras.

Recente relatório da RAND sobre instrução personalizada mediada por recursos tecnológicos, pretende turbinar o campo e foi revisto no NEPC do Colorado por Penuel e Johnson, evidenciando os problemas que aquele relatório apresenta para orientar política pública. O relatório explora três iniciativas financiadas pela Fundação Bill Gates destinada a implementar aprendizagem personalizada.

Segundo os revisores do relatório da RAND, a aprendizagem personalizada engloba uma gama de estratégias podendo significar muitas coisas diferentes. O relatório lista cinco estratégias:

  1. perfis de aluno com metas individualizadas, usando dados de várias fontes que os alunos e professores têm acesso;
  2. rotas de aprendizagem personalizadas, em que os alunos têm poder de escolha, obtêm apoio individualizado, e se envolvem com aprendizagens fora da escola;
  3. progressão baseada em competência;
  4. utilização flexível do tempo, espaço e tecnologia; e
  5. desenvolvimento de prontidão de habilidades acadêmicas e não acadêmicas para a faculdade.

Foram analisadas 62 escolas que aplicam estratégias de aprendizagem personalizada.

Em termos mais gerais, o estudo da RAND não definiu adequadamente o que qualificou como implementação de ensino personalizado nas escolas investigadas. Isto é particularmente importante porque algumas das estratégias, como “progressão baseada em competências”, raramente foram implementadas nas escolas estudadas.

O estudo também carece de ampla utilidade para julgar o valor da aprendizagem personalizada devido às características especiais das escolas da amostra. As escolas charter representaram 90% da amostra utilizada para analisar os resultados de aproveitamento dos alunos.

Os revisores concluem que os leitores devem ser céticos com as promessas do relatório RAND. O estudo sugere que algumas práticas de ensino personalizado estão associadas com alguns ganhos em pontuação de testes, mas essas práticas podem ser bastante diferentes daquelas promovidas sob a bandeira da aprendizagem personalizada.

Leia aqui o press release do NEPC.

Leia aqui a revisão do estudo da RAND.

Leia aqui o estudo da RAND.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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