A “excelência” de Xangai

A Folha de São Paulo ficou impressionada com um estudo que examina o desempenho de Xangai no PISA e acabou comprando a ideia de que ele tem algo a recomendar para o Brasil, sem atentar para a realidade chinesa:

“A qualidade do ensino é o ingrediente mais importante para o sucesso de Xangai em educação, segundo um estudo do Banco Mundial. Os estudantes da metrópole chinesa ocupam os postos mais altos em exames escolares internacionais, e o Banco Mundial, que oferece assistência financeira e técnica a países em desenvolvimento, publicou um relatório sobre o êxito acadêmico do município.”

Segundo o jornal, ainda:

“Em Xangai, que é a maior cidade do país em população, 30% da renda do professor pode ser formada por pagamentos de bônus adicionais ao salário base, que dependem do nível em que ensinam.”

Nos Estados Unidos, não há furor em relação ao desempenho de Xangai no PISA. Ao contrário, há contestação.

O Blog Answer Sheet de Valerie Strauss no Washington Post destrói a educação chinesa. Xangai não representa a China, mas é uma das maiores cidades dela e padece dos mesmos problemas sociais que afetam o país. (Para uma avaliação da China, clique aqui.)

O blog relata que, recentemente, uma reportagem mostrou um pai em Beijing que ateou fogo ao corpo em frente a um escritório do governo, porque seu filho não foi autorizado a se matricular em uma escola. Por quê? A matéria diz que o pai estava querendo pagar uma taxa para o governo local e o seu filho não era elegível para participar, pois não era residente nativo daquela cidade.

Esta situação mostra um grande problema na China onde, ainda segundo o blog, o acesso à educação é restrito para milhões de crianças.

“Um âncora de notícias chinesa reconheceu recentemente que 500.000 crianças migrantes em idade escolar em Xangai são carentes de escolas. A discriminação se torna aguda ao nível do ensino médio (onde a maioria dos jovens de 15 anos que se sentam para fazer o PISA podem ser encontrados). O sistema leva migrantes de 15 anos de idade de volta para suas províncias, se quiserem ir para a escola. Pei-chia Lan, da Universidade Nacional de Taiwan, professor de sociologia que fez estudos sobre as escolas em Xangai, descreve as escolas urbanas na China como “modelos de apartheid escolar.”

Para o Blog:

“O que se perde com todo o louvor aos fabulosos resultados de Xangai no PISA são os enormes custos sociais que acompanham o desempenho nos testes. Suborno e corrupção generalizada em toda a liderança do Partido Comunista foram relatados amplamente nos últimos anos. Não surpreendentemente, esses problemas se estendem até as escolas, muitas vezes conduzidas por oficiais do partido. Em um relatório de 2012, Dan Levin, do New York Times, observou que a educação na China tem um preço em áreas urbanas. (…) De acordo com Levin, o custo de um suborno para ganhar a admissão em uma escola variou de US $ 80.000 a US $ 120.000.”

E continua:

“Além da corrupção, The Economist relata que o sistema de registo “hukou” obriga os pais da zona rural em busca de trabalho em cidades como Xangai a “deixar para trás” cerca de 61 milhões de crianças. Relatórios de abandono, depressão, suicídio e abuso físico e sexual dessas crianças se tornaram comuns e incomodam cada vez mais.”

Mais de 50% da população chinesa vive na zona rural. Um analista da Brookings Institution explica o “hukou”:

“O sistema “hukou” controla o acesso aos serviços municipais. Os migrantes na China com “hukous” rural são impedidos de usar os serviços de uma cidade de acolhimento, em especial os programas de bem-estar social, os profissionais de saúde, e grande parte do sistema escolar. “Hukous” são transferidos de geração para geração. Os filhos de migrantes, mesmo que nascidos em Xangai, receberão hukou rural de seus pais, que os seus filhos também vão herdar um dia, não importa onde eles nasçam.

Como coloca Kam Chan, especialista em migração chinesa e hukou da Universidade de Washington: “Sob esse sistema, cerca de 700-800 milhões de pessoas são tratadas como cidadãos de segunda classe, privados da oportunidade de se fixar legalmente em cidades e de ter acesso à maior parte do bem-estar básico e de serviços fornecidos pelo estado, utilizados por residentes urbanos regulares “.

O blog Answer Sheet acusa a OCDE de fecha os olhos para tudo isso, descartando estas questões quando elas são levantadas, com evasivas e negações frágeis. Considera difícil entender por que a OCDE acredita que há qualquer valor em comparar o desempenho dos estudantes talentosos de Xangai, com os estudantes dos Estados Unidos.

E conclui:

“À luz dos custos sociais necessários para produzir os resultados de Xangai no PISA – que equivalem a “uma das maiores calamidades de direitos humanos do nosso tempo“, segundo o analista da Brookings Institution Tom Loveless – por que a OCDE tem que sair de seu caminho para afirmar que o sistema escolar de Xangai é um modelo de equidade e excelência que o resto do mundo deveria imitar?”

Boa pergunta. E pode ser feita também à Folha de São Paulo, aqui no Brasil.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Meritocracia, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão. Bookmark o link permanente.

3 respostas para A “excelência” de Xangai

  1. Andreia disse:

    Meu Deus, o que podemos esperar do jornalismo brasileiro? Estou pasma!

  2. Eduardo disse:

    Quando se considera parcialmente cada dado. Parece muito ruim ou muito bom!

  3. Pingback: A “EXCELÊNCIA” DE XANGAI | Grupo de Estudos e Pesquisa em Avaliação e Organização do Trabalho Pedagógico

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