Costin: mais do mesmo que já não funcionou

Claudia Costin assina em 28-06-2016, artigo no Jornal Estado de São Paulo com o título “Educação de qualidade para todos?” Em seu artigo, a Diretora da área de Educação do Banco Mundial começa por reconhecer, a partir de publicação de Paul Tough, com tristeza, que o déficit de aprendizagem entre os alunos de oitavo ano, considerando os diferentes estratos de renda, vem crescendo nos Estados Unidos “a despeito dos esforços por mudar a situação”. Diz:

“O país tem apresentado não apenas desempenho incompatível com seu grau de desenvolvimento, como tampouco conseguiu evitar que os mais pobres tenham um ensino ainda mais precário.”

Para a articulista, “o mesmo pode ser dito em relação ao Brasil”.

Sem comentar o porquê do fracasso americano, disfarça recorrendo às maravilhas da educação em Xangai. Claro, não dá para inspirar-se nos reformadores empresariais americanos com os resultados de lá, logo, vamos para outro. Sobre Xangai, já conversamos aqui neste blog, mostrando o engodo de comparar Xangai com o ocidente. Os americanos cada vez menos querem saber dos prodígios de Xangai. Valerie Strauss diz sobre Xangai o seguinte:

“Um âncora de notícias chinesa reconheceu recentemente que 500.000 crianças migrantes em idade escolar em Xangai são carentes de escolas. A discriminação se torna aguda ao nível do ensino médio (onde a maioria dos jovens de 15 anos que se sentam para fazer o PISA podem ser encontrados). O sistema leva migrantes de 15 anos de idade de volta para suas províncias, se quiserem ir para a escola. Pei-chia Lan, da Universidade Nacional de Taiwan, professor de sociologia que fez estudos sobre as escolas em Xangai, descreve as escolas urbanas na China como “modelos de apartheid escolar.”

Leia mais aqui.

Este é o modelo de educação que segundo Costin vai nos conduzir à equidade! Em seguida, Costin usa a velha tática de fisgar uma ou duas escolas pobres que se desempenharam bem em algum exame, para concluir que elas:

“evidenciaram que é possível aliar qualidade e equidade. Duas delas estão localizadas no Rio de Janeiro, e tive a oportunidade de visitá-las. O que têm em comum? Metas claras e uma equipe de professores comprometidos com um ensino que assegure que todos aprendam.”

Também a moda existe nos Estados Unidos onde os presidentes costumam visitar uma que outra “escola de sucesso”, para efeito de demonstração. Alguém se lembra de “Cocal dos Alves” no nordeste brasileiro, visitada por Ministros.

Como sempre, o problema é do professor. Se ele quiser, se for comprometido, ele vence a pobreza. E aí, tira-se do bolso uma escola ou duas para mostrar como isso é possível. Ou seja, a mesma receita “no excuses” que os Estados Unidos cansou de utilizar nos últimos 20 anos e o levou onde se encontra.

Para estender o exemplo das escolas de sucesso de Xangai para o Brasil, a Diretora Global propõe que haja uma política pública que assegure atração e retenção de bons professores [no dicionário dos reformadores, isso significa, salário diferenciado por bônus para desempenho]; material de apoio adequado [leia-se, sistemas de ensino prontos para seguir em sala]; e também mais cuidados durante a primeira infância (leia-se: foco na pré-escola, testes de habilidades socioemocionais e antecipação da escolarização).

Nenhuma palavra sobre a origem da pobreza e das tais “condições socioeconômicas desfavoráveis”. Para os reformadores tudo é sempre uma questão da escola e do professor quererem. Para ela:

“Se investirmos mais em remunerar melhor o professor, alocá-los numa única escola, com tempo para ali, colaborativamente, preparar suas aulas e aprender com os colegas, ajudaria. Se tornarmos a formação inicial do professor mais adequada aos desafios da sala de aula, e não enfatizarmos apenas os fundamentos da educação, também ajudaria.”

As soluções voltam sempre ao ideário dos reformadores: remunerar melhor [leia-se: com avaliação e bônus, ou salário variável] e formar o professor voltado para as metodologia de ensino e não para os fundamentos [como se fossem mutuamente excludentes].

Mas a pérola é a proposta de redução dos “condicionantes socioeconômicos no desempenho escolar do aluno” através de “investimento forte e focado em educação infantil de qualidade”.

Uma escola infantil redendora da miséria, eis o que precisamos. Mas isso não é o que os Estados Unidos estiveram fazendo nos últimos vinte anos e não deu certo? Por que acha Costin que se fizermos isso, vamos conseguir fazer o que os Estados Unidos, seguindo esta receita, não conseguiu fazer?

A resposta é simples: os reformadores não conhecem outra solução. Ou seja, quando as reformas empresariais da educação não funcionam, os reformadores dizem que não foram bem aplicadas e, com isso, voltam aos fundamentos da mesma reforma.

Quando o neoliberalismo afundou na Argentina ouvimos o mesmo: ele não havia sido bem aplicado. Bush, o ex-presidente americano inventor do No Child Left Behind, responsável pelo estado atual da educação americana descrita por Claudia Costin no início de seu artigo, também disse o mesmo: era preciso aplicar melhor a responsabilização e a meritocracia sobre as escolas.

Para estes e para Costin, a única forma que conhecem de melhorar, um dia, a educação é continuar a aplicar as reformas empresariais, mesmo que elas não funcionem. Um dia elas funcionarão em sua “versão X.O”.

Eles nunca se perguntam para quem estas políticas funcionaram, pois isso revelaria seu pé de barro. Mas sabemos que, apesar de não melhorar a educação, elas são muito eficientes para gerar mercado, encher o bolso das ONG operadoras de escolas charters e o bolso dos empresários de consultorias e Institutos, e para capturar, é claro, o dinheiro público destruindo a escola pública e o magistério.

É por isso que os americanos dizem que a política de Bush chamada de “Nenhuma Criança deixada para Trás” converteu-se na prática em “Nenhum Consultor deixado para Trás”.

Mais do mesmo no horizonte das políticas públicas brasileiras.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para Costin: mais do mesmo que já não funcionou

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