O discurso da “evidência empírica” – II

Continuação do post anterior.

O Centro Lemann diz ter uma posição teórica independente da Fundação Lemann e, imagino, independente de quaisquer posicionamentos políticos (não falo nem em partidário). Temos que começar, portanto, pela distinção entre “objetividade” e “neutralidade”.

A objetividade é desejável na pesquisa científica. A objetividade é possível, mas ela é um fenômeno histórico, construído ao longo do tempo e como tal, a verdade de hoje, pode até não ser a verdade de amanhã. A história está cheia de comprovações desta tese. Porém, tanto uma verdade “volátil” como uma busca da “verdade perfeita”, nos levariam à paralisia.

Mas se a objetividade é possível, ainda que datada historicamente, a neutralidade não está ao alcance do ser humano. Ela soa muito mais como uma forma de ocultação de posições, na medida que a neutralidade já é, em si, uma forma que define como o pesquisador tenta ver o mundo: como se estivesse situado fora dele…

Lemann, o magnata, diz que está interessado em melhorar a educação, não importando a posição política. Mas isso é só porque ele supõe que todos pensem, no essencial, como ele pensa os caminhos práticos para melhorar a educação, restando apenas pequenas divergências técnicas. Isso, é claro, não é verdade. Não é pouco revelador de sua posição que ele tenha escolhido os Estados Unidos para alocar seu Centro de pesquisa em educação brasileira. Fez uma opção política e ideológica, mesmo que não queira acreditar.

Estas questões, não podem ser desconsideradas quando nos propomos a produzir “evidência empírica” para modificar processos educacionais em outro país.

Sejam os métodos de pesquisa qualitativos ou quantitativos, todos, sem exceção, estão marcados por conceitos que informam a obtenção de dados e suas análises. Quantidade e qualidade não são separáveis e usualmente, a qualidade está na base da obtenção da quantidade, mesmo que a apresentação final (quantitativa) oculte a qualidade subjacente em gráficos e tabelas. Tente construir um simples questionário sem conceitos claros e se verá as implicações disso na análise dos dados, até mesmo numa simples análise fatorial “neutra”.

A questão da evidência empírica, portanto, nos remete a outra, à questão dos conceitos e métodos de pesquisa usados para produzir tal evidência. E, neste terreno, pode-se produzir objetividade mas nunca neutralidade, pois nunca estaremos frente a um único conjunto de conceitos. Teremos que fazer escolhas e é bom que sejam públicas.

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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