O discurso da “evidência empírica” – I

Temos acompanhado nos últimos meses o crescimento do clamor pela educação “baseada em evidência”. Por duas vezes este Blog estabeleceu polêmicas em torno do tema seja com a própria Fundação Lemann (veja aqui), seja com o Instituto Alfa e Beto (veja aqui e aqui).

Também recentemente, uma instituição americana, o Centro Lemann, financiada pela Fundação Lemann brasileira, esteve no Congresso Nacional em audiência na Frente Parlamentar Mista de Educação tratando a mesma questão.

Nesta oportunidade, Paulo Blikstein (do Centro Lemann nos Estados Unidos) disse aos parlamentares o que é o Centro. Segundo o pesquisador, a Fundação Lemann financia bolsas ao redor do mundo para estudantes, mas em Stanford, onde fica fisicamente o Centro Lemann, eles quiseram fazer algo diferente.

Quatro pesquisadores (Carnoy, Blikstein, Plank e Bettinger) se associaram para criar um Centro de Pesquisas em Educação Brasileira, único no mundo. Este Centro é financiado pela Lemann, com uma parte sendo financiada também pelo Instituto República e tem perspectiva de 10 anos. Destina-se a dois objetivos básicos: por um lado “formar capital humano” para o Brasil e por outro, realizar pesquisas – supõe-se que para o Brasil, também.

O Centro, ele explica, é “intelectualmente independente da Fundação Lemann” e tem “caráter acadêmico”, ou seja, é baseado em pesquisa. Não é uma “filial imperialista” que pretende impor ideias ao Brasil – diz. Sua finalidade é “levar brasileiros para treinar e mandar de volta para o Brasil” em uma área “carente como é a educação brasileira”.

Depois de comparar o papel do Centro com o que foi feito no campo da economia por ações semelhantes, Paulo diagnostica uma grande ausência de pessoas de altíssimo nível em educação no Brasil e insiste na necessidade de treinar educadores em política educacional para que o país tenha a melhor preparação técnica para lidar com a educação, independente de qual seja o governo.

Dito isso, Paulo, reafirma o princípio de funcionamento do Centro, seu compromisso com a “pesquisa baseada em evidência”.

Não nos parece que seja tão simples assim. A afirmada “independência intelectual” do Centro pode conduzir a que se esconda em algum ponto deste processo (entre a bancada do pesquisador e a aplicação da política concreta) um viés político sob o manto da “pesquisa baseada em evidência”, a título de que a política pública que acolhe o dado de pesquisa não é de responsabilidade do Centro. Não seria melhor explicitar a visão do Centro sobre reforma educacional? Como avalia o Centro a reforma educacional americana? O que pensa o Centro sobre privatização, responsabilização e meritocracia, por exemplo? Ajudaria a entender as opções do Centro. Ou isso tudo é mera decisão dos governos e não diz respeito ao pesquisador?

Se a objetividade é possível em ciência, a neutralidade é um pouco mais difícil, se é que possível. E para salvar-se, não basta dizer que isso é um problema de governo e não do pesquisador, ou pior ainda, que o pesquisador (e sua ciência) está à disposição de quaisquer governos independentemente do que pensem. Já vimos no que deu isso no passado.

De fato, a ação do Centro no Brasil, como não poderia deixar de ser, já começa a envolver-se “politicamente” com a reforma empresarial da educação no Brasil, seja ao entrar no debate sobre a Base Nacional Comum brasileira, articulado pelo Movimento pela Base também financiado pela Lemann, trazendo a referência do Common Core americano; seja em processos de privatização via escolas charters em Goiás, onde aparece sendo capturada para justificar aqueles processos. Preço da “neutralidade”?

E isso nos leva de volta ao nosso tema inicial: educação baseada em evidência. Qual evidência? Definida por quais métodos? A partir de quais formulações teórico-metodológicas?

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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