Época: desinformação em três atos – final

Continuação de post anterior.

E como a Revista Época apresenta o estudo de John Hattie:

“Esqueça os computadores e tablets, os laboratórios bem equipados, o nível socioeconômico do aluno, mais horas de aula e métodos inovadores de ensino. Nada, absolutamente nada, é mais importante para o desenvolvimento de uma criança – e consequentemente na vida profissional de um adulto – do que ter um bom professor.”

Eis aí a simplificação da simplificação e a adequação da pesquisa à estreita visão educacional de Época. Esta é a conclusão: o centro da escola é o professor e se algo não vai bem, é porque ele não está bem treinado para dar aulas. Certamente, deveria estar usando as técnicas prescritas por Hattie, se os nossos professores fossem de fato bem treinados.

E as suposições fantásticas continuam sendo feitas por Época:

“A análise de Hattie mostra que, nos Estados Unidos, a diferença de desempenho entre os alunos brancos e negros (de até 25%) desapareceria em oito anos se os negros tivessem aulas com professores classificados entre os 20% mais preparados”.

Em 25 anos de reforma empresarial na educação, o gap de aprendizagem entre ricos e pobres americanos só aumentou. Infelizmente, fazer especulações em planilhas prospectivas brincando com dados estatísticos e sem ter que comprová-las, é bem mais fácil do que entrar em uma sala de aula todos os dias e ensinar alunos de carne e osso, bastante diferentes daqueles listados nas planilhas de simulação. Mestre Hanushek, o mago da econometria, tem prescrições melhores ainda que estas – demitir os professores menos qualificados e substituí-los por mais qualificados. É mais rápido e mais barato do que a solução de Hattie.

Ou seja, os reformadores vivem buscando a bala de prata que poderá resolver seu problema crucial: o que fazer com a pobreza quando ela chega na escola, sem examinar a sua origem. Mas, como se pode ver nas tabelas de Hattie, ele mesmo calcula o  valor do nível socioeconômico do aluno em 0.54 e do ambiente familiar em 0.52.

Se a revista Época acredita, realmente no estudo de Hattie, então ela deveria recomendar a Goiás que parasse imediatamente com a privatização da educação naquele estado através do modelo de escolas charters, pois o estudo de Hattie mostra que o impacto deste modelo de privatização não passa de míseros 0.20. Mas, sobre isso, Época silencia.

Entre tantos problemas, note-se ainda que ao mesmo tempo em que a redução do tamanho da turma na tabela de Hattie é apresentado isoladamente com um valor modesto de 0.43, sugerindo que pelo seu custo-benefício não fosse usado como estratégia de política pública, Hattie recomenda o uso de ações em sala de aula que necessariamente só poderiam ser conduzidas efetivamente pelo professor se ele tivesse turmas menores (ex. dar feedback aos alunos – 0,73 – e avaliação formativa – 0,90). Sem falar da influência do desempenho prévio obtido pela criança que tem valor de 0,63. Este é o problema de se separar artificialmente variáveis que não são separáveis no interior da escola.

Todas estas ações valorizadas por Hattie, demandam intensa interação professor-aluno que só podem ser viabilizadas com turmas menores. Estas são razões, então, para quem acredita nestes números, começar a defender uma política de redução do número de alunos em sala de aula e não uma política de culpabilização do professor. Ou seja, é melhor Época esquecer que fez esta reportagem, antes que o feitiço vire contra o feiticeiro…

Finalmente, Snook et al. (2009), analisa criticamente as teorias de Hattie e delineia uma série de preocupações derivadas do livro. Uma crítica importante refere-se à qualidade da investigação utilizada na síntese da sua pesquisa (meta análise). Diz:

“Qualquer análise que não exclua os estudos deficientes ou inadequados é enganosa, e potencialmente prejudicial pela possibilidade que tem de orientar políticas de forma equivocada “(p.94).

Além disso, outros autores consideram que as meta-análises terminam por excluir os estudos qualitativos e aqueles que não são oficialmente publicados em revistas, como relatórios. Com isso, restringem-se a estudos quantitativos que isolam variáveis, quando em educação tais variáveis estão todas em interação no interior das escolas e das salas de aulas.

A pesquisa de Hattie tem outros problemas técnicos. Mas como a questão se coloca também no campo de modelos matemáticos, tenho que me socorrer de pessoal graduado na matéria e deixar que eles falem.

Logo depois que John Hattie publicou seu livro em 2008 (Visible Learning), as críticas começaram. Há problemas com a escolha dos métodos da análise estatística e o leitor pode achar este debate aqui e aqui, ou ainda aqui e aqui.

Vale aqui a máxima de Carl Sagan: “Afirmações extraordinárias, exigem evidências extraordinárias”. E apesar das afirmações de John Hattie serem extraordinárias, elas não estão acompanhadas de evidências igualmente extraordinárias. A política pública está obrigada a vê-las, então, com cautela.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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3 respostas para Época: desinformação em três atos – final

  1. Paulo disse:

    A época exagerou nessa do “Nada, absolutamente nada, é mais importante para o desenvolvimento de uma criança…do que ter um bom professor.” Acho que até para o senso comum é difícil aceitar.

  2. Paulo André Melo disse:

    A crítica parece até livro do Erik Von Daniken, muitas perguntas e críticas, mas nenhuma resposta. Não, o senso comum e a obviedade do dia-a-dia de quem vive essa realidade e se insurge contra ela, os verdadeiros revolucionários como meu colega o professor Felipe Lins, sabe realmente o valor dos professores que acabam por se qualificar e, nada, absolutamente nada, até hoje foi melhor que isso.
    Outra realidade tão simples e que parece denegrida pela análise da matéria é que as faculdades não formam professores, NÃO formam. Além dos bancos universitários do país afora possuírem uma produção intelectual próximo da mediocridade, sua capacidade de formar professores é próxima de zero. Tudo tem que ser ensinado por quem pesquisou, trabalhou e validou em sala, em um processo que, obviamente, deveria ser substituído pelos bancos acadêmicos.
    Professores mal formados resultam em educação medíocre e o pior de tudo, opiniões medíocres … uma pena…

    • Pois é Paulo, por enquanto o sua resposta está baseada em opinião. Eu pelo menos me dei ao trabalho de olhar a produção da pesquisa sobre a questão. Você usa para contrapor somente suas opiniões. Lamento. Opinião por opinião, ainda fico com a minha. Quando tiver algo mais objetivo, apresente. Obrigado. Luiz Carlos.

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