Época: desinformação em três atos – I

A Revista Época ataca novamente. Esta semana tira do bolso uma trilogia: (1) Luis Felipe Lins (um professor de matemática, cujos alunos vão bem nas olimpíadas de matemática), (2) John Hattie (um pesquisador neozelandês que a Época usa para explicar o sucesso de Luis Felipe Lins) e (3) Bernadete Gatti, que a Época usa para atacar as Faculdades de Educação que preparam professores no Brasil.

Vamos analisar o que parece ser a âncora de análise de Época: John Hattie. Época tem predileção por encontrar personalidades que respaldem sua simplificada visão de educação. Apresenta ideias que não examina criticamente, nem investiga para saber o grau de consistência que possuem. Basta que lhe sirvam de trampolim para a crítica da escola pública e do magistério público.

John Hattie é um professor neozelandês que em 2009 publicou um livro chamado “Visible Learning”. Ele é Diretor do Instituto de Pesquisas da Educação da Universidade de Melbourne, Austrália. Época apresenta o trabalho de Hattie da seguinte forma:

“Ele fez uma meta-análise: cruzou informações de 65 mil grandes estudos realizados nos centros de pesquisa mais conceituados do mundo. Essa é a maior análise de dados já feita na área de educação em toda a história acadêmica. As informações coletadas ao longo de mais de 20 anos permitiram aferir também uma análise de custo e eficácia de cada um dos fatores que podem ter impacto na educação.”

O tom da apresentação é sensacionalista: “65 mil grandes estudos”; centros de pesquisa mais conceituados do mundo”; “maior análise de dados já feita na área da educação” e por aí vai. A tentativa é de convencer o leitor de que ele está frente ao maior e mais confiável estudo já feito e que, portanto, suas conclusões são irrefutáveis. Nenhuma análise da metodologia usada é apresentada.

Todos os que já fizemos, por pequeno que seja, desde uma revisão bibliográfica a um estudo modesto de meta-análise, podemos imaginar as complicações e riscos metodológicos de se propor um estudo da magnitude que John Hattie fez. Não quero aqui, tirar o mérito de John Hattie – para algo deverá servir sua pesquisa, mesmo que seja para alertar outros a não fazerem igual. O problema destas pesquisas é que elas têm a pretensão de induzir política pública, alegando que são “evidência empírica” segura. O pessoal da “política pública baseada em evidência” está sempre se complicando com isso. A tentativa de Época é colar em Hattie e isolar a questão da formação do professor.

Em sua publicação de 2009, Hattie trabalha com 138 fatores individuais divididos em seis grupos: estudante, lar, escola, professor, currículo, enfoque de ensino. Atualmente a lista foi atualizada (2015) e já tem 195 fatores.

Ewald Terhart (2011) apresenta em sua revisão do livro de Hattie o quadro de variáveis que este autor construiu em 2008, no qual se vê que, no topo da média dos efeitos de cada um dos grupos dos seis maiores influenciadores da aprendizagem de Hattie, está o grupo relativo ao professor (d=0.49). No entanto pode-se encontrar também a contribuição do próprio aluno (d=0.40) e do lar (d=0.31). Não podendo alterar os fatores que estão fora da escola, Hattie opta por ignorá-los e apostar no treinamento do professor.

Com isso, abre a perspectiva do treinamento seguido de consequências, típico das reformas empresariais da educação que culpabilizam o professor pela não aprendizagem das crianças. A trilogia Felipe-Hattie-Gatti, está construída. O primeiro serve de exemplo prático de empenho, a última fornece elementos para mostrar que as faculdades não treinam bem os professores para dar aulas (só teoria) e o segundo, Hattie, cria as bases científicas e explicativas que une aos dois.

Note-se, no entanto, que a influência do professor não pode ser vista como um fator isolado, pois pelo menos os dois grupos de fatores adicionais (aluno e lar) não podem ser ignorados, pois são os próprios pressupostos da ação pedagógica. Eles são de alguma forma espelhos do nível socioeconômico do aluno. Como separá-los na ação pedagógica diária e isolar a atuação do professor? Na escola, o ensino é uma atividade inter-relacional.

Não é que o professor não conte. O que dizemos é que outras variáveis que não estão sob controle da escola, e que Hattie admite existirem, têm peso ainda maior. Isso, é evidente, não significa impossibilidade de se ensinar, como atestam milhares de professores nas salas de aula todos os dias, mas também não autoriza colocar o professor na condição de bala de prata da educação brasileira.

Hattie menciona que seu livro não lida com circunstâncias que não possam ser influenciadas pela escola. Na página ix de 2009 ele afirma que:

“Este não é um livro sobre o que não pode ser influenciado pelas escolas – discussões, críticas sobre classe, pobreza, recursos das famílias, a saúde das famílias, e nutrição não são incluídos – mas isso não é porque elas não são importantes, na verdade, elas podem ser mais importantes do que muitas das influências descritas neste livro. É só que eu não incluí esses tópicos na minha órbita “.

O problema é convencer a Revista Época disso.

Mas a tabela de Hattie inclui cálculo de impacto para o nível socioeconômico e em 2015 seu valor era de 0,54. No entanto, o que é omitido, é que a maioria destes fatores, nas escolas, estão todos interagindo na configuração específica de cada ambiente escolar e de seu entorno, apesar de serem apresentados por Hattie como se pudessem funcionar isoladamente. É como se pudéssemos selecionar apenas aqueles fatores que estão acima de um determinado valor (e de menor impacto financeiro) e levá-los à prática das escolas, através de treinamento do professor, deixando os outros de menor valor (ou mais caros) de lado. Nada é dito sobre os valores mudarem de escola para escola e interagirem uns com os outros na realidade da vida escolar.

De fato, o propósito de Hattie era montar uma estratégia de monitoramento do ensino e da aprendizagem para as escolas na Austrália, sistema que ele comercializa. Para Terhart, uma parte das críticas a Hattie condena seus laços estreitos com o governo da Nova Zelândia e é suspeito de ter seus próprios interesses econômicos na difusão do seu programa de avaliação e formação (Instrumentos de Avaliação do Ensino e da Aprendizagem) que é usado pelo Ministério. Da mesma forma, ele é acusado de apoiar processos de remuneração dos professores a partir de seu desempenho, e ele foi criticado pelo uso de seu sistema como ferramenta administrativa para dimensionar o desempenho dos professores. Sua negligência do “background” social, desigualdade, racismo e outras questões da estrutura escolar também é usada contra ele, afirma Terhart.

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para Época: desinformação em três atos – I

  1. Paulo André Melo disse:

    até agora um texto amplo, mas apenas opinativamente fraco … vamos ao próximo

  2. Antonio disse:

    Prof, depois que li a matéria “Todo o poder ao professor” (como dever de casa para minha aula de didática) fui pesquisar na internet sobre Hatiie e sua pesquisa. “Coincidentemente” achei as mesmas informações que você e chegeuei às mesmas conclusões.

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