O “mercado” está nervoso… Alckmin também

O que é o “mercado”? Certa vez li que o mercado é o 1% mais rico da população mundial que controla o fluxo das economias globalizadas participando das grandes corporações, através de uma máquina complexa de agências de investimentos e de avaliação de risco. Portanto, quando o “mercado fica nervoso” é que as taxas de lucro deste 1% (18 milhões de famílias aproximadamente) que detém 45% da riqueza mundial (o restante é disputado por 99%, ou seja por nós) estão em risco.

Eles não acreditam em políticos, embora tolerem os de direita como parte do jogo. Têm um projeto próprio para administrar o Estado e reduzi-lo a umas poucas “profissões de Estado” destinadas apenas a controlar e defender seus interesses (Legislativo, Judiciário, Presidência, Cúpula dos Ministérios, Ministério Público, Exército, e algumas atividades de controle e fiscalização). Nesta visão, garantido este núcleo estatal, tudo o mais deve ser privatizado pois retira espaço do mercado. Além disso, estando sob controle do “mercado” está igualmente sob controle ideológico da Nova Direita. Como política importante, está a desregulamentação do trabalho e do capital para facilitar sua circulação e acumulação de riqueza, em conexão com as cadeias produtivas internacionais.

Esta é a Nova Direita, intransigente e beligerante (por exemplo João Doria, Prefeito de São Paulo) que se organiza em escala mundial para disputar a preservação das taxas de acumulação de riqueza em meio às persistentes crises do capitalismo – sem compromisso com as regras da própria democracia liberal, como alerta MacLean.

Este grupo além de implantar a revolução industrial 4.0, pretende administrar o Estado e os “impostos” cobrados (em quantidade e destinação). Ele é presciente de que com as crises, crescerá a massa de descontentes e que os movimentos organizados continuarão cada vez mais a disputar o Estado e demandar deste a cobrança de mais serviços públicos (e impostos) para conter os impactos na população mais pobre e precarizada pela revolução 4.0 – sem contar as crises de meio ambiente e recursos naturais. Recrudesce a ideia individualista de que cada um é responsável pelo seu futuro. Os casos excepcionais de pobreza infantil e de indivíduos que não estão aptos para o trabalho, serão resolvidos pela filantropia generosa dos ricos, com a implantação de uma política pública baseada na mendicância ante os ricos (doações). Este grupo não vai parar por si; terá que serem parado.

vimos como MacLean apresenta esta questão, estudando o nascimento e desenvolvimento da Nova Direita americana a partir dos anos 50 influenciada por F. Hayek e por um conjunto de acadêmicos americanos financiados pelos empresários Koch, para construir uma agenda para este grupo. Vimos como joga papel importante James McGill Buchanam exatamente pela formulação desta agenda que foca a recusa do pagamento de impostos pelos ricos, usada pelo Estado como forma de equalizar e redistribuir renda com a finalidade de diminuir as desigualdades sociais.

Segundo relata MacLean, na base deste ideário está também o neoliberalismo de F. Hayek, o qual foi uma reação à revolução socialista na Rússia. Hayek achava que o Holocausto havia conduzido à revolução russa e ao fortalecimento da União Soviética. Nos Estados Unidos Rockfeller criava a Universidade de Chicago, dos Chicagos Boy’s, e Buchanam foi fazer seu doutorado lá. MacLean conta em detalhe como ele se forma em contato com as teses de Hayek e de Milton Friedman, a quem considerava com um enfoque muito baseado na matemática, preferindo um enfoque mais político e social para a economia.

No centro da preocupação estava o medo, inspirado pela Revolução Russa, de que as pessoas se organizassem para tomar o Estado ou influenciá-lo a tomar medidas contra os ricos (taxação de grandes fortunas, aumento de impostos tanto de pessoa jurídica como física, regulação do capital e do trabalho, controle de investimentos etc).

Em nome da liberdade individual de acumular riqueza, nem a democracia liberal está segura – o que está na base dos atritos com a centro-direita tradicional e alimenta riscos de um retorno a formas ditatoriais e autoritárias de governo.

Como escrevemos em outro post, apresentando as teses de MacLean:

“Uma das ideias centrais de Buchanam é que a redistribuição de renda através de impostos que obrigam alguns a financiar o bem comum ou a promover a justiça social para outros, não passa de uma tentativa de tomar pela força algo que tais “tomadores” não tem moral para exigir, ou seja, tomar o fruto do esforço pessoal dos outros que foram bem-sucedidos. Para ele, proteger o bem-estar é proteger o indivíduo destas formas de “gangsterismo” estatal legalmente autorizado que retiram o fruto do seu trabalho a título de promover a justiça social.

Para Buchanam todo o mal começa quando os indivíduos, que isoladamente não têm poder, se juntam para formar movimentos sociais para se fortalecerem numericamente e influenciar o governo fazendo com que este ouça seus desejos e atue por eles. Tais movimentos incluem a organização dos trabalhadores e os movimentos de defesa dos direitos humanos. Ele pensa que toda vantagem que um grupo majoritário pode, devido ao seu número, impor a uma minoria não constitui persuasão, mas sim coerção sobre a minoria, uma violação da liberdade individual daqueles que honestamente pagam impostos. Contra isso, é preciso parar a “corrupção governamental” que é feita por grupos organizados que pressionam e tornam os membros do governo receptivos a tais demandas. O inimigo é a organização coletiva e o próprio governo.”

Este é o programa do “mercado” e ele explica as ações do governo Temer, comandante de um golpe para garantir a este 1% que suas taxas de lucro estão seguras se investirem no Brasil. Feito o trabalho que não se consegue fazer ganhando eleições, delegado a Temer, é preciso que haja continuidade. Neste cenário, os políticos tradicionais não são os mais confiáveis.

Uma alternativa para garantir continuidade é instalar o parlamentarismo ou algo parecido: isso institucionalizaria o golpe nosso de cada dia, derrubando o primeiro ministro sempre que necessário. Menos traumático do que retirar um presidente. Ou então, desenvolver um candidato confiável para 2018, que comprovadamente saiba enfrentar as pressões populares e a esquerda.

Isto pode explicar porque no PSDB Alckmin está em luta aberta com Doria – o primeiro representando os políticos tradicionais de centro-direita e o segundo representando a Nova Direita, ou melhor, os interesses diretos do “mercado” – sem o vacilo dos políticos tradicionais susceptíveis à pressão popular. Doria tem a confiança do empresariado e gosta de mostrar escárnio pelas pressões populares, o que o torna confiável.

A operação lava-jato e entornos têm várias consequências, mas entre elas, está a de desacreditar totalmente todos os políticos tradicionais, abrindo caminho para a Nova Direita – Dória à frente. O DEM é candidato a ser o partido desta Nova Direita e almeja atrair políticos de outros partidos que possam oferecer estabilidade institucional no Congresso a esta agenda – um “novo centrão”. O poder judiciário não é preocupação, pois tradicionalmente é a área mais reacionária do Estado, junto com as Forças Armadas. A grande mídia já está sob controle do mercado.

A visão educacional que este grupo tem é a da reforma empresarial da educação, e sua base operacional é a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE – e seus braços nacionais como o Movimento Todos pela Educação no Brasil e regionais como o REDUCA na América Latina.

A questão é como pensar a resistência se este cenário se concretiza.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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